Opinião

A virtude do futebol e os valores da democracia

Arlindo dos Santos

Jornalista

No último sábado, 9 de Outubro, logo pela manhã, o sol entrou-me radioso e quentinho pela janela. O cheiro cálido e húmido vindo da rua aguçou-me a vontade acumulada durante semanas para uma saída de casa.

17/10/2021  Última atualização 09H09
Olhei a vista pintada à minha frente e confirmei que Lisboa é sem dúvida, a bela e maravilhosa cidade das sete colinas. Recordei algumas das muitas barrocas de Luanda e sonhei com a possibilidade de elas poderem ser transformadas um dia.


Aqui onde me encontro, viraram do avesso um sítio com o estranho nome de Azinhaga dos Besouros, um antigo bairro miserável e perigoso, habitado por bêbados e vadios, transformando-o num sítio bom para se viver. Fascinado pela paisagem altaneira que apreciava, imaginei o todo que Lisboa oferece ao cidadão.


Sem a perfeição, a magnificência pretendida pelos que reclamam o aumento do salário mínimo, convocam greves e criticam tempo e dinheiro gasto nas ciclo-vias, os autarcas da velha capital estão podendo e fazendo, sem dúvida. São diferentes de alguns nossos, pelo menos de dois que eu quero propositadamente citar.


Do que não se incomoda com a poeira da sua capital e o que, em momento de inauguração, rega com champanhe as chamadas quebra-molas, pequenas lombas na estrada próximas das escolas. Aqui, na medida das suas possibilidades, vão funcionando os serviços de saúde, a segurança social, os transportes, o saneamento, a educação, a água potável e a electricidade, enfim, o essencial.


Ah! É verdade! Eles têm muitos mais anos que nós e foram os que nos colonizaram.Atendi ao chamado do tempo e iniciei um vulgar passeio, e enquanto o meu apurado olfacto me alertava para certas fragrâncias a espalharem-se pelo ar, certifiquei que a terra que pisava não era tão cheirosa nem tão vermelha como é, pela sua natureza, a nossa.


Não tinha, não podia ter, nem o cheiro nem a magia do chão de Angola, mas à medida que caminhava, os símbolos africanos abundavam, surgiam em desfile as lojas e sítios onde já se compra jimbôa para refogar preparados de molhos acompanhantes e farinha torrada que se come com feijão de óleo de palma e banana.


O óleo de palma chega aqui vindo de paragens africanas e de outras mais distantes, mas já se vê muita banana de Angola. Porque não há óleo de palma angolano em Portugal? Ou será que há? A música e a arte no geral sempre a dizer que estamos aqui, e as pessoas desde logo, elas sim, muito e sempre presentes. Fui andando até estacionar mais uma vez (não sei quantas vezes já o fiz), diante da estátua de Sua Majestade Rei Eusébio da Silva Ferreira.



Apesar da minha condição de angolano (sem a ridícula xenofobia e as questões de dupla nacionalidade a atrapalhar), fui exercer o meu direito de sócio e votar nas mais concorridas eleições presidenciais do Glorioso Sport Lisboa e Benfica, a maior e mais prestigiada instituição desportiva e de utilidade pública portuguesa, uma organização que movimenta milhões de pessoas e orgulha os que a ela se vinculam, presos ao prestígio e à mística que atravessam as suas fronteiras, vão pelo Atlântico afora, sulcando outros mares, alcançando terras longínquas.



Eu e todos os sócios da terceira idade – verifiquei com satisfação que ainda somos muitos –, todos com máscara na cara, fomos tratados com respeito e atenção especial, o processo para nós decorreu rápido e eficiente.


Realizadas sob o manto da intriga e suspeição, até parecia que estávamos a viver uma renhida disputa política, com acusações de dinheiros mal explicados, de inúmeras "bocas” lançadas acerca da falta de transparência e de democracia na sua gestão, depois do alarido próprio de quem desejava ser alternância, foram ouvidas até à exaustão reclamações segundo as quais 17 anos de mando já eram muitos


Quem tinha o poder aceitou dialogar, abriu-se completamente à comunicação social, quer nos meios que dominava, como nos órgãos que magoavam, deu a palavra ao povo benfiquista e aos demais interessados. Todos viram como é bonito falar, olhos nos olhos, dizer o que se sente, falar, replicar, defender-se.


Aceitou os erros de quem comandava a nau benfiquista, reconheceu que faltava um pouco mais de transparência e de gestos democráticos, sem nunca deixar de enaltecer a obra do tempo passado. No fim, e depois da contagem e recontagem dos milhares de votos, exigida pelos desconfiados, quase sempre os que querem ganhar, nem que seja à força, depois de se terem dissipado todas as dúvidas; depois do vencido ter reconhecido a vitória do adversário, o pleito terminou de madrugada, coisa rara, e a tomada de posse aconteceu a seguir, confirmando-se que tinha saído ganhador da eleição, um homem que conhecia a nação, não era um chico-esperto, nem mostrava ser influenciável. Tudo isso aconteceu na mais concorrida assembleia do clube que já celebrou 117 anos de existência.


Naquele tempo antigo em que não se falava de investidores e onde a fé clubista, no seu mais genuíno exemplo era manifestada pela oferta de sacos de cimento que ajudaram a construir o espectacular Estádio da Luz com o seu terceiro anel, que mais tarde deu lugar às modernas instalações com o seu museu a causar inveja a meio mundo, da qual os membros benfiquistas usufruem hoje e delas têm imenso orgulho.


Foi ali, no velho redondel, onde os dias passaram a correr sob o signo das vitórias nas mágicas noites europeias de quarta-feira, abrilhantadas por jogadas e golos fantásticos feitos por muitos atletas africanos, angolanos e moçambicanos a predominar, e depois, acompanhando a evolução do mundo, se deu o salto vitorioso para outras modalidades e para a beleza do voo da águia Vitória, da música do hino empolgante, da coreografia conseguida com disciplina por uma juventude que sabe o que quer e defende com fé clubista, os valores do desporto e da democracia, em defesa de um mundo que é o do Sport Lisboa e Benfica.

O monstro adormecido que era o Benfica acordou, assim despertem os monstros políticos que adormeceram à sombra de feitos que devem ter continuidade, de sonos maléficos da ilusão e do poder, dramas que só podem acontecer em sociedades distantes da democracia. Em regimes totalitários como os  que  infelizmente ainda vigoram na nossa mãe África.

Para a semana voltarei. Até lá, saúdo os meus leitores e amigos. Até domingo, à hora do matabicho.
Luanda, 16 de Outubro de 2021

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