Opinião

A vertigem das divídas ocultas em Moçambique

Manuel Rui

Escritor

Sim, parece uma vertigem, ou um megalómano reality show com BigBrother libanês, Jean Boustin que um procurador dos EUA chamou de Robin dos Bosques ao contrário pois Robin roubava aos ricos para dar aos pobres e agora o tal Jean Boustani roubava a um dos países mais pobres do mundo para dar aos ricos e novos ricos! Para além de vertigem, o esquema fraudulento é uma aula de doutoramento para qualquer das grandes máfias mundiais.

09/09/2021  Última atualização 05H15
Um esquema fraudulento com empréstimos orçando os dois mil milhões de dólares com a "garantia” do governo moçambicano sem o conhecimento do Parlamento e dos parceiros internacionais. Neste intrujamento, o foro foi americano no pressuposto de ter lesado o sistema financeiro americano. Ao todo, à boca da acusação eram oito arguidos. O Jean, cérebro do esquema, negociador da Pivinvest, empresa de construção naval que assinou contratos com as estatais moçambicanas PROINDICUS, EMATUM e MAM, para vender serviços e equipamentos, incluindo 24 navios de pesca e seis navios patrulha.
De acordo com a acusação americana só uma pequena parte do dinheiro foi aplicado em projectos marítimos. Uma boa parte teria sido usada para pagamento de subornos. A acusação americana indiciou como arguidos Manuel Chang (ex-ministro das Finanças de Moçambique), António do Rosário das "secretas”, Teófilo Nhangumele, que actuava em nome do Gabinete do  Presidente da República, tendo ainda sido citados como co-conspiradores o actual ministro das Finanças, Adriano Maleiane e sua ex-vice Isaltina Lucas e Ndambi Guebuza, um verdadeiro "ponta de lança” como adiante se verá, filho do ex-presidente Guebuza.Os oito arguidos foram acusados de lavagem de dinheiro, conspiração para fraude electrónica e fraude envolvendo títulos financeiros. Isto porque, quando as empresas moçambicanas entraram em incumprimento, as divídas foram vendidas a investidores internacionais, americanos incluídos.
O  banco Credit  Suisse entra no baile com três banqueiros que abriram o crédito mediante suborno. Em subornos a Privinvest teria pago a Chang e outros oficiais moçambicanos 150 milhões de dólares, 50 milhões aos três banqueiros suiços que se deram como culpados, António do Rosário, pelo menos, 12 milhões, Teófilo pelo menos 8,5 milhões e por aí…Esta narrativa tem início em 2011 altura em que Jean Boustani contactou altos quadros moçambicanos para a assinatura de um contrato  para criar um sistema de monotorização da zona costeira pois "a pirataria era um grande problema…” Nos vários  e-mails trocados falou-se na necessidade de serem pagas "compensações” taxas (sucessfees) e Nhangumele argumenta que para obter "luz verde” era preciso "massajar o sistema”.
Em tribunal, Boustani nunca negou os pagamentos para diversas actividades, incluindo "lobbying”, não prejudicou americanos…e afirmou que o actual governo moçambicano é que sabotou o projecto (nítida exploração das contradições Nyuzi versus Gebuza). Por não ter prejudicado os EU, saiu absolvido mas deixou um rol de declarações que bem podiam ser chamados à colação no julgamento que decorre em Maputo ainda sem a presença de Chang que não se sabe se as autoridades sul-africanas o extraditam para os EU ou Moçambique.
E a telenovela abriu em Maputo, num tribunal com um só juíz, cauteloso e buscando quase consensos que não se confundem com justiça, os réus mentem, recusam-se a responder e mesmo para confirmar um e-mail , o oficial de diligências levou-lhe o processo às mãos, o  arguido Gebuza Júnior desinfectou as mãos com álcool gel, segurou o processo, a procuradora, muito educada, pediu para ele ler em voz alta e a resposta foi "recuso-me a ler.”Dá a impressão que os réus que não compraram vergonha, combinaram uma estratégia de confronto com o tribunal negando documentos incontestáveis, falsas declarações com D. Gebuza que se fazia passar por engenheiro nos documentos exigidos no estrangeiro e quanto a viagens que estava farto de viajar pois como era filho do Presidente o Estado pagava-lhe as viagens que ele quisesse. Mas no âmago da afronta disse em voz alta para o tribunal, "vocês são mentirosos e isto é um processo político contra os que lutaram pela libertação de Moçambique e eu tenho umas perguntas a fazer, aí a procuradora falou que ele não podia fazer perguntas mas para dar respostas e que ela tinha sido sempre educada para os arguidos… Dá a impressão que os réus coabitam a mesma cela, vêm para tribunal na mesma viatura e aqui não terá havido o cuidado de isolar cada um em cada curro e ou vinham um em cada carro ou os policiais não deviam permitir combinas no percurso. Alarmante é que um réu que insulta e desafia o tribunal, nem sequer é mandado levantar e ser algemado ficando para muitos a impressão de que o judicial ainda não é suficientemente livre do executivo. Pesa também a necessidade de demonstrar, por transmissão directa, que a justiça ali é democrática de forma que o "ponta de lança” pode julgar vis-à-vis o julgador. Parece que, felizmente, o povo está atento, aplaude cá fora o juíz e nas igrejas chovem orações.
E agora Nyusi? A Renamo quer explicações na casa das leis. Como fazer? Dois mil milhões de dólares seriam quantos hospitais, quantas vacinas, quantas escolas e sobrava para o combate aos insurgentes. Então por um lado há subornos milionários, parecem valores das transferências de craques de futebol, e por outro lado anda-se a pedir à SADC apoio para combater os terroristas que também são insurgentes?A Frelimo descapitalizou a moral política que vinha de Samora Machel, o que é confrangedorquando o país merecia o respeito da comunidade internacional.O tuga diz não há bela sem senão, hoje eu digo que em Moçambique não há senão sem bela. Refiro-me ao novo parque da Beira, obra de orgulho que nenhum país rejeitaria.
Consola-me que noutras paragens o rei emérito de Espanha não matava só elefantes mas era um ximuno antigo, um rei larápio, roubou até entornar, o super banqueiro Ricardo Salgado, na Melói, nunca foi a tribunal, pagou caução, foi de férias para um desses paraísos…e agora o advogado diz que ele não irá a tribunal porque está xanfú, entretanto, no Brasil continuam com a Comissão de Inquérito da cloroquina do motociclista…e, na Guiné Bissau, um general, trocou o arquipélago de Bijagós por uma ampla baia de cocaína… vamos fazer como então?

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