Opinião

A urgente necessidade do retorno ao conceito de escola

Filipe Zau

Jornalista

Para o ensino da leitura e da escrita, destinado a crianças em situação de aprendizagem nos primeiros anos de escolaridade, a principal razão para a substituição do antigo método silábico por métodos globalizantes (a exemplo do método global de frases e de palavras e do método analítico-sintético), reside no facto de a nossa mente não perceber apenas fragmentos mas ser capaz de captar a globalidade. Durante muito tempo acreditou-se que o nosso cérebro existia apenas para pensar, mas a sua função principal é a de garantir, direccionar e regular todo o organismo para a sobrevivência e reprodução e, para tal, adquirir experiências de aprendizagem.

15/09/2021  Última atualização 10H07
Paul MacLean (1913-2007), médico e neurocirurgião dos EUA, informa-nos da constituição do cérebro em três computadores biológicos integrados, cada um com a sua própria inteligência, sua própria subjectividade, seu próprio senso de espaço e tempo, suas próprias funções motoras, de memória, de comunicação e outras. Tudo se repete no todo e o todo está em tudo, tal como o princípio do holograma.

    Na perspectiva do neurocirurgião austríaco Karl Priban (1919-2015), professor na Universidade de Georgetown, nos EUA, "uma partícula ampliada reconstitui o todo”. Para ele, "o holograma é um poderoso modelo para os processos mentais, porque os cérebros individuais são pequenos pedaços de um holograma maior”; ou seja, a sua teoria holográfica afirma que os nossos cérebros, matematicamente, captam e traduzem a realidade externa, através da interpretação de frequências do corpo enérgico observado.

O cérebro é um holograma interpretando um universo que também é holograma, pelo que, de acordo com a sua opinião, "a realidade talvez não seja a que vemos com os nossos olhos”.O reptílico corresponde, nos mamíferos, à parte interna do cérebro (de forma simplificada o cerebelo), que é o "único” cérebro dos répteis, responsável pelo comportamento agressivo de luta pela sobrevivência e reprodução, pelo estabelecimento de hierarquias sociais (poder) e os rituais correspondentes.


O sistema libido corresponde à segunda camada do cérebro, que é comum a todos os mamíferos e é responsável pela emoção, comportamento e controlo do sistema nervoso autónomo. Por fim, o neocórtex, corresponde ao cérebro inteligente e à camada mais externa do cérebro, típica dos mamíferos superiores, como o homem. O mesmo viabiliza a racionalidade, a linguagem conceptual, verbal e simbólica.


Para MacLean, a inteligência é um produto de esforços combinados destes três cérebros do homem. A Cibernética Social e Proporcionalismo, da autoria do sociólogo brasileiro Waldemar De Gregori, propõe o cérebro triádico e assume-se como uma teoria sistémica/holística/triádica, que tem como suporte a física quântica, considerando o ser humano um "quantum” de energia, enquanto biopsicossocial inserido num contexto cultural específico, que assume realidades diversas em ciclos diferentes. Olhando o cérebro de trás, o lado esquerdo corresponde à parte lógica, o lado direito à parte intuitiva e ao centro está a parte operacional.

Decorrendo de modernas neurociências, o cérebro, como um todo, tem três maneiras de perceber, processar e expressar-se com relação à realidade. Traduzido em Educação, tal corresponde a processos psicomotor, afectivo e cognitivo. O processo reptiliano responde primordialmente (não exclusiva, nem localizada, mas conjugadamente), pelos movimentos e pelos chamados instintos de reprodução, sobrevivência e agressividade, posteriormente transformados em profissão, organização e rotinas. O processo limbico ou intuitivo responde pela ludicidade, afectividade, criatividade, estética, religiosidade e apego a mitos. O processo neocortical ou lógico responde pela comunicação verbal, cálculo, raciocínio lógico, pesquisa, análise, crítica e feedback.

A falta de diálogo entre os três conjuntos do cérebro vitimiza a criança e a sua aprendizagem. Daí que o ensino multifacetado e harmonioso da criança ultrapasse o mero conceito de sala de aula e implique na edificação de instituições adequadas vocacionadas para a realização do acto educativo, em prol do desenvolvimento integral da criança e do adolescente, tendo como fins a actividade laboral, a cultura e o exercício da cidadania.

Ver a escola voltada simplesmente para o desenvolvimento intelectual e reduzi-la apenas à sala de aula é bastante redutor. Outras vertentes promotoras de capacidades, habilidades, bons hábitos e valores terão também de ser desenvolvidas, como a educação física, a educação estética, a educação axiológica, a educação informática, a educação ambiental, a formação manual e politécnica... Em suma, um sentido amplo de Educação terá de voltar a ser resgatado. Quando se pensa que a educação é cara, é bom que paralelamente se pense, para um qualquer país, nos custos da ignorância.
 
* Ph. D em Ciências da  Educação e Mestre em Relações Interculturais

Comentários

Seja o primeiro a comentar esta notícia!

Comente

Faça login para introduzir o seu comentário.

Login

Opinião