Opinião

A universidade e o desenvolvimento

Adriano Mixinge

Escritor e Jornalista

Na manhã de sábado passado, José Octávio Serra Van-Dúnem convidou-me para ir ouvir a oração de sapiência, que proferiu, no início do ano académico da Universidade Católica de Angola (UCAN), no seu “campus” no bairro Palanca.

12/10/2021  Última atualização 08H35
Antes do acto académico houve uma "Celebração Eucarística” presidida pelo Bispo do Uíge, Dom Joaquim Nhanganga Tyombe e abrilhantada pelo excelente coro da UCAN: o ambiente de paz e tranquilidade rimava com as temperaturas amenas, nas primeiras horas do dia.


Um grupo significativo de estudantes, - entre os quais os caloiros -, os decanos das diferentes faculdades e os responsáveis das diferentes unidades orgânicas e educativas, bem como a magnífica reitora interina, Maria Helena Miguel, participaram na cerimónia religiosa, que serviu de antecâmara ao acto académico.


Tudo estava a postos para, na manhã de sábado passado, aquela ida ao "Campus Palanca” da UCAN, em Luanda, reforçar a minha natural adoração pelos "Campus Universitários”: quando, ao longo da minha vida como estudante, frequentei alguns deles, tive experiências maravilhosas, eles costumam a  ser o lugar ideal para o recolhimento e atitude reflexiva, uma interacção intelectual com os nossos pares, colegas ou amigos, que marcam as nossas vidas.


"Universidade e Desenvolvimento: novos desafios, velhos problemas”, o tema escolhido para a sua oração de sapiência é bastante actual e oportuno. Com a presença inspiradora da sua mãe, com noventa anos de idade, na sala, José Octávio Serra Van-Dúnem começou, naquela que identifiquei como a primeira parte, lendo o texto da prelecção num tom clássico, desgranando sobre a utilidade da universidade face aos processos de descolonização e ao canône ocidental, sobre os modelos de universidades, sobre a autonomia e a liberdade académica, sobre a democraticidade do meio universitário.


Mas, onde me pareceu mais incisivo, foi quando, na segunda parte, de um modo subtil e serenamente construtivo, o orador optou por um tom mais coloquial em que num modo de retórica, em que se foi auto-questionando e respondendo, de modo pertinente, sobre as funções da universidade no mundo de hoje e a necessidade de reinventá-las constantemente bem como, por exemplo, sobre a importância dela não se circunscrever somente ao primeiro ciclo e alargar o seu labor a níveis de Mestrado e de Doutoramento, a melhorar a qualidade do ensino híbrido bem como a fortalecer a relação entre a universidade e o mundo empresarial.


José Octávio Serra Van-Dúnem falou também sobre a necessidade de criação de pensamento crítico e da valorização da inteligência competitiva no mundo universitário, sobre a importância da investigação e da inovação no contexto da criação de centros de pesquisa e de excelência.


Frontal e nada evasivo, ele não se esqueceu de falar, também, sobre a importância e os limites institucionais da universidade face aos órgãos de tutela, no caso o Ministério do Ensino Superior e, finalmente, sobre a importância e a urgência de fortalecer o papel das universidades e de repensá-las, numa perspectiva descomplexada em face da necessidade de se pensar de modo coerente o tipo de profissional qualificado ideal para o país e o seu desenvolvimento.


Depois de anos de investimentos em infra-estruturas no Ensino Superior público e privado, em Angola, e da sua problemática massificação e expansão, em todo o território nacional, unido a consciencialização de que, por si só, ele resolve muitos dos problemas básicos, mas não necessariamente o problema de fundo, é notório um maior interesse do Estado e de todos actores sociais que intervém no processo, incluindo os docentes e os discentes, para pensarem e para trabalharem para a mudança de paradigma.


O foco do interesse, das narrativas e dos projectos do Ensino Superior, em Angola, de um tempo a esta parte, começou a transferir-se da infra-estrutura e dos equipamentos para o investimento na qualidade do capital humano, na investigação científica e na sua inter-relação com o mercado de trabalho e a criação de emprego, entre outros, que, hoje, constitui um dos principais desafios para o Governo e, de um modo geral, para a criação e consolidação de uma cidadania responsável e fortalecida.


Na manhã de sábado passado, ao desfrutar do coro e ouvir, também, as mensagens e discursos dos responsáveis da Associação de Estudantes da Universidade Católica de Angola, da Alumni, da magnífica reitora interina Maria Helena Miguel, incluindo a dedicatória da oração de sapiência de José Octávio Serra Van-Dúnem à mãe, saí de lá inspirado: é, por isso, que é sempre gratificante regressar a um campus universitário.

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