Opinião

A Transição Energética, Angola e a COP26

Apusindo Nhari

Jornalista

Em 1998, Thom Hartmann publicava um livro com bastante impacto: “As Últimas Horas do Sol Antigo”. Analisava o percurso da utilização da energia (determinante tanto para o surgir como para a decadência das civilizações) e augurava um período de altos preços de petróleo, baseado na premissa da sua provável escassez.

07/11/2021  Última atualização 09H01
 Os altos preços aconteceram, mas a escassez ainda não se concretizou e parecem existir reservas de hidrocarbonetos muito para além das mais optimistas previsões do início do século.


Assim, a urgência mundial na transição energética já não tem a haver com as previsões catastróficas de preços altíssimos mas com algo ainda mais grave: a necessidade de descarbonizar a atmosfera para que as condições de vida no planeta se mantenham amenas e possamos legar um mundo habitável aos nossos descendentes.
Há um caminho que a ciência recomenda: reduzir drasticamente a utilização de combustíveis fósseis - a mais importante fonte das emissões de dióxido de carbono (CO2).


A produção de electricidade, sector responsável pela maior fatia dessas emissões é, naturalmente, para onde se apontam em primeiro lugar as baterias. E é também aquele onde há mais tecnologias já provadas, e em utilização, permitindo uma transição mais rápida. O que implica enormes investimentos no sector, principalmente para os países que têm o seu mix energético baseado em fontes altamente dependentes do carvão, petróleo e gás.

Os EUA, a China e a Índia, consomem mais de metade dos combustíveis fósseis actualmente utilizados no Mundo. A China, em particular, consome (e extrai) 54,3% do carvão utilizado no mundo, com a Índia a seguir (11,6%). Isso explica as dificuldades que estes países têm mostrado em assumir metas mais ambiciosas para o "Balanço Zero de Emissões de CO2”, apesar de se lhes reconhecer um enorme esforço no investimento em energias renováveis: a China comprometeu-se com um "Balanço Zero” lá para 2060 e a Índia para 2070, com a particularidade desta última assumir já para 2030 o compromisso de ter 50% da produção de electricidade a partir de energias renováveis.

A 26ª Conferência das Partes (COP26), que decorre em Glasgow, é para alguns a última oportunidade de se conseguirem compromissos que permitam atingir os objectivos do "Acordo de Paris”, de 2015: não ultrapassar os 2oC (preferencialmente 1,5oC) de aumento da temperatura média global, acima dos níveis pré-industriais.

O que é difícil e implica um enorme esforço de todos. No entanto, tem-se verificado um lento mas crescente movimento dos países no sentido de perceberem – e declararem-no – o quão importante é este esforço para evitar as consequências dramáticas para o planeta, enfatizadas na Declaração de Agosto de 2021 do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), amplamente consensual na comunidade científica.

Acordos que prometem o fim da desflorestação até 2030 (já assinados por países como o Brasil, a Rússia, China, Indonésia, e República Democrática do Congo) e a redução da emissão de metano em 50% (assumida pelos EUA e UE, entre outros), estão entre os marcos mais significativos da conferência  até ao momento em que escrevemos este artigo.
Também se espera que desta vez haja um verdadeiro comprometimento dos países mais ricos em ajudar financeiramente os menos desenvolvidos para que estes possam cumprir com as metas de descarbonização até 2050.

E que relevância tem isto para Angola? Não deveria ser este um dos temas incontornáveis da actual e das próximas disputas eleitorais, a par dos outros desafios mais imediatos?


Se ao nível da produção de energia eléctrica – com uma ampla base não fóssil, quer através das centrais hidroeléctricas, quer da expansão da produção solar fotovoltaica – não estamos mal, continuamos com o sério problema das queimadas descontroladas que, a par da actividade humana, contribuem para as emissões de CO2 e para a desflorestação do país, com efeitos graves sobre a fertilidade e a capacidade de reter a água nos solos (ver o artigo "As anharas de Ongote e a sua importância para milhares de angolanos”, Paulina Meller e Érica Tavares, Novo Jornal) e, consequentemente, a degradação dos ecossistemas e riscos de desertificação.

Por outro lado, resistimos a admitir que o petróleo não é o futuro da nossa economia, mantendo uma atitude indiferente aos sinais inequívocos sobre a nossa desvantagem comparativa nesse mercado (custos de produção superiores à média da OPEP), pois parece inevitável a diminuição da procura até ao fim da década e continuamos a apostar nesse cavalo, chegando ao ponto de se prever intervir em áreas protegidas.

Assumir a inevitabilidade da transição energética – consenso mundial a que não temos como escapar, nem como contrariar – e prepararmo-nos para um cenário completamente diferente do actual: deveria ser o nosso caminho.
Investindo na conclusão da rede de transporte de electricidade (que traz desenvolvimento e contribui para a redução das emissões de carbono) levando-a – quer através da rede pública, quer com soluções descentralizadas baseadas em energias renováveis – a todos os cidadãos deste nosso país, onde apenas cerca de 45% têm a ela acesso. E fazendo-a chegar às fronteiras para podermos vender a nossa energia limpa aos vizinhos (como o Botswana e a África do Sul, marcadamente dependentes do carvão).

Não chorar sobre o petróleo derramado é o caminho. E é preciso coragem para o enfrentar.
Mas não há outro...
                                                                                            *Académico angolano independente

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