Cultura

A tradição e a modernidade da música de São Tomé e Príncipe

Analtino Santos

Jornalista

Assinalou-se na passada terça-feira, 12 de Julho, o Dia Nacional de São Tomé e, Príncipe. Em jeito de homenagem, apresentamos aos leitores do Jornal de Angola dois músicos daquele país: João Seria e Tonecas Prazeres

17/07/2022  Última atualização 10H44
© Fotografia por: DR

Hoje, os grandes rostos da música de São Tomé e Príncipe são os irmãos que constituem o duo Calema, que, a bem dizer, a nível internacional conquistaram o espaço antes ocupado por Juka. Anteriormente, Kalú Mendes e o seu tio Felício Mendes, com o sucesso "Ti Amo”, bem como Gilberto Gil Emblina e o também "nosso” Camilo Domingos, eram alguns dos nomes que levantavam a bandeira sonora são-tomense nas rádios e nas pistas em Angola, sem deixar de lado o Conjunto África Negra (Os Kiezos de lá). E não é por acaso que Os Kiezos trouxeram "Aninha” e o colocaram no seu reportório, com Juventino na interpretação.

Mas para a nossa homenagem, nada melhor que nos retermos em João Seria, por muitos considerado o General da Música de São Tomé e Príncipe, e Tonecas Prazeres, este com uma proposta de fusões rítmicas, casando o tradicional ao Jazz.  Ambos são autênticas referências e verdadeiros representantes das tendências rítmicas e propostas estéticas diferentes de São Tomé e Príncipe. Os dois têm em comum o facto de em várias fases da sua vida terem vivido e actuado em Angola. 

Uma das últimas passagens de João Seria por cá aconteceu em Dezembro de 2017, quando actuou no Muzonguê da Tradição a convite de Yuri da Cunha. Tonecas Prazeres voltou este ano para participar nas actividades do Dia Internacional do Jazz, com concertos produzidos pela ASA (Angola Schools of América) numa parceria com o Governo de Angola e a delegação da UNESCO.

No Muzonguê da Tradição de 12 de Dezembro de 2017, a convite de Yuri da Cunha, Tonecas Prazeres mostrou a força da música de São Tomé e Príncipe. Foi um dia em que se recordou a Kabetula, dança angolana que nos anos 80 fez furor ao ritmo do África Negra de João Seria. O General da música são-tomense recordou sucessos como "Alice”,  "Aninha”, "Mino Muê”, "Carambola”, "Maia muê”, "Bô Bê Kuá Kê dá” e "Não Senhor”, que, nos anos 80, aqueceram as pistas de dança angolanas. Naquele dia, teve o acompanhamento da banda de Yuri da Cunha e nos solos e ritmos contou com o jovem Texas, um produto da Igreja Tocoista, que tem no Nkembu nuances rítmicas semelhantes à proposta sonora que identifica João Seria e o seu Conjunto África Negra.

João Seria é filho de angolano e cabo-verdiana. Tudo começou em 1974, quando jovens são-tomenses decidiram juntar-se e com a música mostrar a identidade nacional, criando, com instrumentos usados, o grupo África Negra.  

Nos primeiros anos da Independência Nacional, com realce para o início dos anos 80, o Conjunto África Negra atinge o seu período áureo e conquista Angola, Cabo-Verde e, por arrasto, Moçambique e Guiné Bissau.   O concerto da Maratona Musical realizada pela Rádio Nacional de Angola, em 1983, prova a popularidade que alcançou em Angola.  Gilberto Júnior, radialista, afirmaria posteriormente que fora a primeira vez que testemunhara um grande engarrafamento na Ilha de Luanda. 

A história do África Negra cruza com a de João Seria,   apesar de este não ter feito parte da fundação. Foram fundadores o baterista Olinto, o solista Emídio, o baixo Pacheco, os viola ritmo Leonidio Barros, António e Dio.

Foi um casamento perfeito entre o timbre de João Seria e a sonoridade dos companheiros, que tocavam nos fundões e bailes ao ar livre, numa espécie de Kutonoka na terra do cajú. Nos fundões,  juntavam-se descendentes de colonos portugueses, os filhos dos contratados angolanos das comunidades piscatórias, chamados Angolares,  e cabo-verdianos e moçambicanos que foram trabalhar nas plantações de café e cacau. João Seria é filho de angolano e cabo-verdiana.

Em finais dos anos 80, durante uma digressão em Cabo-Verde, João Seria e o baixista Pacheco decidiram ficar na Cidade da Praia, o que constituiu um duro golpe para os África Negra. Actualmente, como aconteceu com Os Tubarões de Cabo-Verde, o Conjunto África Negra tem feito algumas digressões e Angola já teve o privilégio de receber um dos seus concertos desta nova fase.  Cabo-Verde, Gabão, RDC, Holanda, França, Bélgica, Alemanha e Portugal são alguns países onde João Seria e companheiros têm levado  a música e cultura de São Tomé e Príncipe.

"João Seria é, para os são-tomenses, o embaixador dos embaixadores que dá voz musical à nação, o artista do palco na dimensão maior da palavra. A título de exemplo, a memória colectiva de uma geração de são-tomenses ainda conserva a multidão em manifestação eufórica que correu os labirintos da capital no início dos anos 90 com a grande festa de recepção ao João Seria, comparável somente à recepção ao Governo de Transição em 1974 e ao regresso de Miguel Trovoada em 1990. Isto prova a dimensão deste artista”, refere uma nota colhida na Internet.

Outra nota que recolhemos e que importa contar, foi a luta de Camilo Domingos para convencer membros da comunidade de oriundos de países de língua portuguesa nos Estados Unidos que a música "Ma uê” não era angolana, mas sim de São Tomé e Príncipe.

Cito um portal são-tomense: "A música é a cultura, a cultura é o bilhete de identidade de um povo. João Seria deu-nos a conhecer nos anos 70 e daí em frente, no momento mais fervoroso, esperançoso e discutível da nossa História de país independente de que não se deve medir os homens aos palmos”.

No ano passado, durante as celebrações da Independência de São Tomé e Príncipe, aos 73 anos de idade João Seria obteve o reconhecimento oficial, depois de uma certa pressão da sociedade civil. O Governo do seu país  homenageou-o pelo seu contributo no engrandecimento da cultura do país, com um diploma e um apartamento.

 

Tonecas, o cosmopolita

Tonecas Prazeres traz uma sonoridade mais cosmopolita, mas sem deixar de fora o ritmo do seu país. Esteve em Abril deste ano em Luanda e actuou no Palácio de Ferro no Dia Internacional do Jazz e na Semana da CPLP, numa delegação com artistas de países provenientes de Portugal, onde residem. Tonecas demonstrou ser um artista com forte presença em palco e interacção com o público, prendendo a plateia, como aconteceu ao interpretar "San City”, "Dexa Modeno”, "Mundos Diferentes - Todos Iguais” e ao puxar os colegas em "Muxima” e outros temas representativos dos PALOP.

Tonecas Prazeres viveu parte da infância em São Tomé e Príncipe, onde nasceu em 1964. Ainda criança vem para Angola e mais tarde, na fase adulta, regressa para a terra natal com os membros da banda Afra Sound Stars, que na época cumpriam o serviço militar obrigatório.

A música surge-lhe aos 16 anos com o movimento da canção infantil no grupo Canucos das Ilhas Virgens, dirigido por Fenício Mendes, tendo como colegas Kalú Mendes e Vizinho. Em 1984, parte para Portugal para formação académica em engenharia civil, mas a música passou a ser a sua prioridade. Um marco da sua carreira aconteceu em 1990, num concerto na Aula Magna, em Lisboa, onde partilhou o palco com Rui Veloso e Mariza no projecto Dêxa. Foi o trampolim para actuar em países como Itália, Macau, Espanha e regressar para Angola.

No seu site encontramos esta referência: "O ritmo frenético da guitarra e a força da sua voz conferem aos espectáculos uma empatia contagiante reflectida em ‘Sant City’ e ‘Fia Ibibá’, que definem  o seu perfil musical, assim como a preocupação na promoção e divulgação da música são-tomense”.

Do seu percurso artístico destacam-se as participações nos seguintes festivais: Cantos na Maré em Fortaleza e Nossa Língua, Nossa Música realizados no Brasil em 2009 e 2010, City of London Festival, Gala do 15º Aniversário da RDP África, III Bienal de Culturas Lusófonas em Odivelas e Concerto da Lusofonia na Assembleia da República Portuguesa, todos em Portugal; actuação no Vaticano para o Papa João Paulo II nas Jornadas Mundiais da Juventude  e na Ásia, esteve em 2015 em Taiwan, por ocasião do African Day e Timor Leste no Festival da Música da CPLP. Este ano esteve no Casino Estoril no espectáculo "As Belas Canções da Lusofonia” que reuniu artistas como os angolanos Bonga e Paulo Flores, Karyna Gomes (Guiné Bissau), Ive Greice (Brasil), e os portugueses Cuca Roseta, Heber Marques, Nuno Guerreiro e Rita Guerra. 

Outro feito marcante na sua carreira é a coordenação e produção executiva do projecto discográfico "Pensa Nisto”, da campanha "Todos Diferentes - Todos Iguais” com a participação de Bonga, Tito Paris, Rui Veloso, Dany Silva, Paulo Carvalho, Maria João, Mário Laginha, Rão Kyao e Carlos Martins.  

Um dos últimos projectos em que esteve envolvido foi com a Banda AfroVungo Project, onde Tonecas Prazeres respondeu pelos arranjos e direcção artística e teve o suporte de Eduardo Mingau (bateria), Nelson Barbosa (baixo) e Virgílio Gomes (guitarra), sempre bebendo da sonoridade de colegas de várias nacionalidades e tendo como convidados o angolano Don Kikas, o português Luís Represas, o seu conterrâneo guitarrista Filipe Santo e os moçambicanos Otis, no saxofone, e Costa Neto como co-produtor.


CURIOSIDADE

Kabetula é uma dança carnavalesca da região do Bengo, exibida em saracoteios bastante rápidos, seguidos de alguns saltos acrobáticos. Os bailarinos apresentam-se vestidos de camisolas, normalmente brancas, ou de tronco nu com duas Pondas (cinta vermelha ou preta), amarrando um lenço na cabeça e outro no pulso, utilizando também um apito para a marcação da cadência rítmica do "comandante”.

Nos  anos  80,  jovens luandenses levaram esta dança às actividades culturais, tendo o ritmo dos África Negra como suporte. Os Originais Mestres da Kabetula e a dupla de bailarinos Bruxo e a Bruxa representam uma geração que resgatou esta dança.

Outra curiosidade: o distrito do Sambizanga tem uma rua 12 de Julho, assim denominada em alusão ao Dia Nacional de São Tomé e Príncipe. 

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