Opinião

A tia Victória do Mestre Ondjaki

Escrever cartas. No tempo em que se molhava a pena de uma ave na tinta e se desenhavam as letras. Por isso, mais tarde se passou a chamar pena às canetas, principalmente dos escritores. Tem uma excelente pena. Para os desescritores ou fazedores… é pena. As cartas entre escritores. As epistolas. A literatura epistolar. A epistolografia.

13/01/2022  Última atualização 07H30
Epistola é uma escrita que visa um destinatário. É carta…mas de arte. O termo vem da "antiguidade” e ganhou força literária após os textos do Novo Testamento ficarem a ser conhecidos como epístola.

 Então, enquanto que as cartas, genericamente, são para relatar factos de natureza variada, as epistolas são elaboradas com uma intenção artística e formatação literária. Sendo certo que hoje carta estende-se desde Carta da ONU, cartas filosóficas, institucionais, religiosas, políticas não existindo uma precisa distinção cartesiana…também não estamos a falar de matemática…
Os primeiros epistolares foram poetas do latim como Ovídio e Cícero ou ainda Séneca.

Ficaram célebres as epístolas entre Mário de Andrade e Manuel Bandeira no Brasil. E entre nós os debates "dos filhos do país” nas publicações do fim do séc. XIX e início do séc. XX como "Luz e Crença.”

António Gonçalves Crespo nasceu em 11 de Março de 1846 no Rio de Janeiro, filho de um roceiro português e de uma brasileira mestiça Francisca Rosa. Foi para Portugal aos 14 anos, formou-se em direito em Coimbra. Distinguiu-se nas rodas culturais, era interventivo, escrevia poemas e declamava. Foi casado com a escritora Maria Amélia Vaz, exerceu cargos de redactor do Diário das Câmaras e do Jornal do Comércio de Lisboa. Morreu cedo quando acabara de publicar o seu 2º livro. Seu nome foi impugnado na Academia de Letras Brasileira por se ter naturalizado português. Refere o brasileiro Damasceno: "As recordações da sua infância nos trópicos marcam sua poesia e, talvez por isso , ele seja, um dos poucos a escrever considerável número de poemas com assuntos negros, nos quais se sente a efectiva fusão de sentimentos com a alma negra e não apenas o aproveitamento do tema.”
Vejamos parte de um poema intitulado  A NEGRA, da obra Noturnos, 1882;
   
A negra

Teus olhos, ó robusta criatura,
Ó filha tropical!
Relembram os pavores de uma escura
Floresta virginal.
És negra sim, mas que formosos dentes,
Que pérolas sem par
Eu vejo e admiro em rúbidos crescentes
Se te escuto falar!
Teu corpo é forte, elástico, nervoso.
Que doce a ondulação
Do teu andar, que lembra o andar gracioso
Das onças do sertão!
As lânguidas sinhás, gentis, mimosas
Desprezam tua cor,
Mas invejam-te as formas gloriosas
o olhar provocador.
É espantosa esta antecipação à negritude e outros movimentos similares, mesmo entre nós, pensando, de forma arrepiante, que eventualmente Crespo poderá ter sido descendente de escravos idos daqui. Um dia destes vou às "Humanidades” falar de Crespo quea 6 de junho de 1871 enviou para o Brasil a seguinte carta:


"Exmo. Senhor Machado de Assis
Enviei há 15 dias a V. Excia. Meu primeiro livro. Não lhe escrevi então, o que agora faço. O livro teve aqui bom acolhimento, e foi saudado espontaneamente, o que me admira em extremo, porque eu não sou português e não andava envolvido nestas trocas de compadrios, que por vezes aqui dizem as más línguas – abundam. Foram quatro os escritores meus patrícios a quem tive a honra de enviar o meu livro. V. Excia., P. Guimarães, Alencar e Macedo. Fui aconselhado pelo autor do Colombo, que desde a minha publicação me distinguiu c om a sua amizade que eu fiz os tais oferecimentos. A V. Excia. Já eu conhecia de nome há bastante tempo. De nome e por uma secreta simpatia que para si me levou quando me disseram que era…de cor como eu. Será? (…)

De V. Excia. patrício e admirador
G. Creso "

Mais adiante, na carta que para aqui falta espaço, Crespo, de boa Muxima escreve que continua a admirar Machado de Assis…mesmo que ele não seja de cor…

Crespo era do grupo parnasianista, uma elite literária. Um palácio. E em Portugal, sem conhecer África impõe à sua poética a ancestralidade africana… no parnasianismo, de origem francesa, séc. XIX. Oposto aos ideais românticos. É um movimento poético que em Portugal foi restrito, com o lema "arte pela arte”, além de Crespo, João Penha precursor em Portugal, destacam-se Crespo, António Feijó e Cesário Verde. A palavra patrício havia de ficar entre nós no Marítimo Africano de Lisboa e entre os angolanos em Portugal.

A epistola vai comprida e eu de já tanto viver, cultivei esse gosto epistolar. E mais recentemente, epistolei para Ondjaki sobre uma obra de poesia minha que saiu em Portugal e ele vai editar aqui, ainda epistolei sobre um livro de poesia escrito a quatro mãos com ele. E. Parágrafo.

Numa das respostas Ondjaki epistolou tudo e acabou assim:

A LUTA CONTINUA! A VICTÓRIA ERA UMA TIA MINHA MUITO FIXE!

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