Opinião

A terrível morte de um colunista

Quem nascera destinado a vencer tudo e todos bateu à nossa porta. Na verdade, batera à porta da família da minha sócia, significando nossa pelo juramento que fizera diante do Senhor e dos homens de juntos estarmos no bem e no mal. A ladina morte levara-lhe um tio, irmão da mãe. Para nós, de Icolo e Bengo, um irmão da mãe, que apelidamos por mama kenemele, é uma pessoa que goza de um estatuto muito especial, pois, no antanho, este tinha, até, o privilégio de vender os sobrinhos.

08/05/2022  Última atualização 14H25

O óbito do nosso tio já decorria há dois dias, quando a minha mãe veio às pressas da zona do Hombo, onde estava atolada na lida do campo. Ela sabia o que representa a morte de um sogro, embora o caso não fosse de grande aperto para mim, pelo facto de ser o macho da relação: o nosso ditame tradicional apenas obriga que seja a esposa a dar o "kutakula papa” à outra família em caso de morte de um dos sogros.

A mãe convocou as minhas duas irmãs e partimos. Mascarados, nem sequer pensámos nos apelos das autoridades sanitárias que recomendam que devemos evitar os aglomerados. Seguramente, no nosso âmago, sabíamos que tais apelos não nos eram dirigidos, porque, há séculos, vivemos comandados pelo aforismo "ndandu maku”. Entre nós, o calor da familiaridade mora no aperto de mão. No abraço forte. Então, como deixar de ir ao óbito de um parente?

Na rua, encontrámos o vizinho António anichado sob o alpendre da taberna da Geny. Conhecendo-o leitor assíduo do Jornal de Angola, indaguei-o se não havia comprado o desse dia, uma terça-feira. Exultante e ledo, respostou que nunca falha: o jornal é o pão de cada dia. Inquiriu-me se queria ler e, sem aguardar pela minha resposta, levantou-se e foi pegá-lo. Regressado, deu-mo dizendo: fica já teu. Eu muito agradeci.

Quando me uni à família, logo lhe mostrei a fotografia da nossa prima que estava estampada na última página. A mãe e as manas muito gostaram. No óbito, depois da saudação da praxe à viúva, sentei-me num assento de madeira, em que estavam abancadas duas velhas. A mãe e as manas ficaram ligeiramente afastadas.

Abri o jornal. Depois de dar uma olhada rápida do princípio ao fim, fui prender-me na página necrológica: lá estava o nosso parente. A velha que estava abeirada de mim aproximou-se para ver os rostos da página lúgubre. De repente, apontou o dedo indicador a um rosto feminino, ao que logo pensei ser alguém que conhecia. Voltou a apontar outro rosto, também feminino.

Mostrei-lhe a foto do nosso parente. Ela meneou a cabeça e meteu contrição no rosto. Vendo-a, avancei à minha página de eleição: a de artigos de opinião. Nesse dia, os dois assinantes, cujos nomes deixo de fora desta crónica, eram-me desconhecidos. Nunca os tinha lido. Comecei pelo texto que abordava a problemática e os programas do sector da justiça atinentes ao registo de nascimento e à emissão de bilhetes de identidade. Logo no intróito, elogiei o escriba. O seu texto era de qualidade. Enquanto lia, a velha, sempre com o rosto contrito, de tempo em tempo, ia apontando o dedo à foto do autor do texto.

Num súbito, desconfiei que, talvez, ela estivesse a pensar que aquela foto também fosse fúnebre. Mas nada lhe disse. Continuei a degustar aquele texto escrito com mestria. Já perto do fim, a velha surpreendeu-me mostrando a foto do colunista à outra velha: mana, este também morreu. Disse num tom bastante pesaroso.

Não posso deixá-la neste equívoco, bichanei para mim. A seguir, disse-lhe: não. Este não morreu. Morreu mesmo, mano. Retrucou ela, já com a voz ligeiramente alterada. Eu insisti que não, que aquele senhor estava vivo. A velha era casmurra. Não fazia fé no que dizia. Então, decidi calar-me. Ela, como que a imitar a ladina morte que vence todas as batalhas em que se envolve, para me derrubar num golpe fatal, lançou: mano, este aqui morreu muito mal!!...

Fiquei hiante. A boca aberta de orelha à orelha. Não fosse a máscara, faria uma péssima figura em pleno óbito. Exibindo a língua e o palato, o que levaria algumas pessoas a rotularem-me como genro desabrido. A verborreia da velha fez-me falar muito mal do "Kibuku”, que é tido pelos ambundu como a entidade espiritual da sorte. Ele estava a ser mau comigo ao dar-me, assim, uma cena tão burlesca, que dava numa soberba crónica?! E depois?! Eu é que passaria por sádico por escrever um episódio de óbito... Kibuku, não te perdoo! Falei ao meter-me à leitura do outro artigo.             

O outro artigo, escrito por um médico, também de qualidade, abordava a maka gerada pela dica do ministro do comércio e indústria, que, numa entrevista à TPA, aconselhara os cidadãos a trocarem o pão por produtos do campo, citando como espécimes a mandioca e a batata-doce. O médico-colunista falou de coisas importantes. Aprendi muito sobre os alimentos feitos à base de farinha de trigo.

Nas páginas seguintes, a velha quase me levou a ir encontrar o sogro que ainda estava na morgue, de tanto engolir risadas que teriam um vigor capaz de me deixar estatelado, e com as entranhas doridas. Foi uma chuva de mortes no jornal. Cada uma com o seu discurso dolente como companhia. Um bispo brasileiro da Igreja Universal e a secretária da igreja foram tidos como o coitado casal cuja morte fora muito noticiada pela televisão, segundo a velha.

Ainda na mesma matéria sobre a IURD, três rostos também lhe chamaram a atenção: estes são aqueles que morreram mãe, pai e filho. Lhes vi ontem na televisão, disse a velha. Voltei a esquecer a sua caturrice e disse-lhe que aqueles não estavam mortos. Mas quem era eu para ela? Aqueles estavam mortos e bem mortos.    

No rol de mortes, fora incluída também uma jovem ministra angolana, cujo discurso lamentoso fora: ai, ai, tão linda, tão jovem. Assim morreu com a geração dela na barriga. Esta era moça, assim parece não deixou filhos. Na última página, lembrando-me da foto da nossa prima, dobrei o jornal ao meio. Não a queria no séquito de mortos.

Infelizmente, o "baixo” do jornal levou-me a olvidar que escondia a foto da prima. Desdobrei o jornal e a velha, qual destra caçadora de mortos, logo me indagou: mano, esta nome dele é quem? A mim, só restou recorrer a uma súbita peta: Joaquina de Almeida. Ela não ouviu à primeira. Quem? Joaquina de Almeida, repeti. Nessa altura, já a minha velha e as manas estavam de pé à frente de mim. Era hora de abandonarmos o óbito.

Antes de me levantar, a velha perguntou-me quanto custa o jornal. Disse-lhe Cem Kwanzas. Ela disse que gosta muito de jornal e que passaria a comprar. Inquiriu ainda se aquele era o preço praticado em todos os sítios, tendo eu respondido que sim. Saímos. Já muito distante da casa do óbito, de repente, comecei a rir. À minha cachola voltaram as palavras da velha que alegavam que aquele colunista que o jornal me dera a conhecer havia morrido muito mal.

Alheadas, as minhas circundantes perguntaram por que ria. Explicada a razão, todas se fizeram minhas ajudadoras: os quatro caímos numa grande gargalhada. Depois de uma pausa, a mãe disse: eh!! De longe, estávamos já a estranhar pensando que ela sabe ler, afinal não sabe?!!! Voltámos à gargalhada. Nessa altura, todo o pranto que a derrota do nosso parente que lutara contra a morte nos causara era passado. E o culpado por isso era bem conhecido: o Kibuku, porque ele bem sabe que eu não aceito que cenas burlescas passem sem que tire proveito delas.

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