Reportagem

A tenente-coronel que lidera os antigos guerrilheiros na Huíla

Arão Martins | Lubango

Jornalista

Com 64 anos de idade, a tenente-coronel na reforma Maria de Lourdes Tchiyeka, actual directora provincial da Huíla da Associação dos Antigos Guerrilheiros, aposta no fomento da produção de alimentos em grande escala. Segundo ela, a associação constituiu uma cooperativa, cujos membros efetivos são antigos guerrilheiros da primeira geração, antigos pioneiros guerrilheiros e desmobilizados das forças armadas por via dos Acordos de Bicesse.

03/04/2022  Última atualização 12H30
© Fotografia por: Arão Martins | Edições Novembro – Huíla
Maria de Lourdes Tyiyeka, que também é presidente do conselho directivo da cooperativa agro-industrial e de negócios "Tuendelei Kumue” – composta por 36 membros, dos quais 20 são mulheres -, não se cansa de esclarecer aos antigos guerrilheiros da importância de se associarem para melhor receberem os incentivos às suas acções que podem gerar rendimento. Fruto do empenho em prol dos protagonistas da Luta de Libertação Nacional, Maria de Lourdes Tyiyeka foi contemplada, em 2020, pelo Presidente da República com as chaves de uma residência situada na centralidade da Quilemba, arredores da cidade do Lubango.  Segundo ela, depois de participar da luta de libertação nacional, ter casa própria e dormir tranquilamente, é motivo de regozijo.

Maria de Lourdes Tchiyeka participou na luta de libertação nacional como pioneira na zona F. Ela diz que apesar de haver muito por realizar "os ganhos já conquistados” pelo país "orgulham a todos”. Fez parte da primeira unidade das FAPLA no comando   do sector político-militar da 5ª. Região.

A Associação dos Antigos Guerrilheiros é uma organização sem fins lucrativos, inicialmente constituída por antigos guerrilheiros do MPLA. Em razão do fim do conflito armado, ela está aberta à participação de antigos guerrilheiros da FNLA e da UNITA. Na Huíla a associação aposta na produção de alimentos, sobretudo milho, feijão, massango, massambala, batata-doce, batata rena e citrinos.

Maria de Lourdes Tyiyeka esclareceu que na Huíla a associação conta com 377 membros oriundos dos 14 municípios. A associação, segundo explicou, foi criada na capital do país e passou a ter representações provinciais. Acrescentou que foram envidados esforços no sentido de permitir a maior aproximação dos membros, através da criação de uma cooperativa."Continuamos a trabalhar com as administrações municipais para a obtenção de espaços para exploração mineira, madeireira e agropecuária”.

Combate à violência

A tenente-coronel Maria de Lourdes Tchiyeka defende uma maior participação das mulheres no desenvolvimento do país, principalmente na produção, com vista a combater a fome e a pobreza no seio das famílias. Disse que a mulher, por ser geradora de vida, deve ser promotora da paz, alegria e compreensão no lar. Segundo referiu, "é preciso cultivar o amor ao próximo”. De acordo com a nossa entrevistada, o nascimento de uma criança deve constituir símbolo de amor, paixão, compreensão e acordo mútuo. "É triste quando notamos o elevado número de crianças a testemunhar casos de assistência alimentar nos tribunais”, salientou.

"Filho não é escudo”

"Um filho não pode servir de escudo para uma mãe”, disse a líder associativa, acrescentando que, actualmente, verifica-se mulheres que têm quatro processos em tribunal contra o pai dos filhos "só para ter alimentos”. Disse ainda que muitas jovens não se preocupam em trabalhar, esperando apenas pelo apoio do pai da criança, o que, sublinhou, "não é justo”. Lamentou o comportamento de jovens, e não só, que usam o filho "para usurpar bens do ‘famoso’ pai da criança para benefício próprio”.

Salientou que muitos conflitos derivam das crianças e que basta a mulher saber que o pai tem emprego para ela "arquitectar artimanhas”. Isso, lamentou, "é triste”. E apelou a uma revisão da Lei da Violência Doméstica, pois, em muitos casos, a sua aplicação "tem sido motivo do surgimento de conflitos e mesmo separação de muitas famílias”. E defendeu que o fenómeno da violência doméstica deve ser bem estudado e compreendido. 

Maria de Lourdes Tchiyeka é de opinião que o país tem oportunidades de trabalho para todos e que não se deve olhar só para o Estado. "As oportunidades de empreender, ou mesmo de trabalhar no privado, são imensas. Falta apenas uma melhor exploração por parte dos interessados”. E deu como exemplos as oportunidades na agricultura e no auto-emprego.

Crianças a pedir esmolas

O número considerável de crianças da tribo nhaneka a pedirem esmola nas ruas do Lubango preocupa a mamã Lourdes. Para ela é possível inverter o quadro com políticas e acções concretas. Na sua perspectiva, é preciso o Governo preparar terrenos e distribuir os lotes para cada família encontrada na rua. "Dentro do pacote deve haver um projecto de desenvolvimento integrado, desde a alfabetização e outros que possam garantir um futuro melhor às crianças”.

Sublinhou que há municípios da província com potencial hídrico invejável e terras aráveis propícias à prática da agricultura. E com a integração dessas famílias "é possível inverter o quadro e controlar melhor a sua localização. Seria uma forma de essas famílias participarem activamente no desenvolvimento sustentável”, concluiu.

 

Perfil

Nome: Maria de Lourdes Tchiyeka

Naturalidade:

Município da Humpata

Província: Huíla

Filiação: José Tchiyeka

e Maria Delfina Pires

Estado civil: Solteira

Profissão: Militar

Patente: Tenente-Coronel na reforma

Número de filhos: Três 

Prato preferido:

Galinha natural, verdura e leite azedo

 "mahini”

Cidade de Angola que mais gosta:

 Luanda, "mas é complicado viver

na capital do país”

Desporto preferido:

 Futebol

Clube: 1º de Agosto

Razão de ser do 1º de Agosto:

Por ser militar

Tem carro próprio:

Não. "Mas quero um carro todo-o-terreno para o trabalho no campo”

Sonho: Produzir milho, feijão, alho, batata rena e favas em grande escala para alimentar muita gente

Preocupação:

"Peço ao nosso e meu Comandante-Em-Chefe e Presidente da República João Lourenço apoio para implementar esse meu desejo, sobretudo em meio de transporte e tractor para mim”.

Que província da Huíla temos hoje?

"Uma Huíla moderna e boa para viver. O meu apelo é para cuidarmos bem do que já foi feito e não destruir, conforme acontece actualmente”.

 

 

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