Opinião

A “ressurreição” dos velhos complexos coloniais

Faustino Henrique

Jornalista

Quando, às vezes, somos confrontados com tentativas abertas ou veladas de as ex-potências coloniais ditarem regras às suas ex-colónias, imbuídas do velho senso paternalista, outras vezes, são os próprios políticos africanos, no poder ou na oposição, que não se coíbem de recorrer às capitais europeias em busca de ajuda para problemas que "embaraçam" os próprios europeus por se tratarem de assuntos internos dos africanos.

21/09/2022  Última atualização 06H05

Há dias ocorreu o inesperado e paradoxal com o actual líder do partido PAIGC e  ex-Primeiro-Ministro da Guiné-Bissau entre três de Julho de 2014 e 20 de Agosto de 2015, num pronunciamento que desonera a sociedade e os actores políticos da Guiné-Bissau das responsabilidades que têm a favor de um papel interventivo da ex-potência colonial.

Domingos Simões Pereira deu, há dias uma entrevista à Lusa, em que, contra todas as expectativas relacionadas com a ideia de que os Estados soberanos devem manter relações horizontais, de respeito pela soberania e não de ingerência nos assuntos internos dos outros Estados, se insurgia contra o que chamou de "silêncio cúmplice" de Portugal sobre o que se passa hoje na Guiné-Bissau.

Para melhor situar quem lê, citado pelo Diário de Notícias, o actual líder da oposição, também conhecido pelas iniciais DSP, disse o seguinte: "pela relevância que Portugal tem junto da União Europeia, junto das Nações Unidas e de outras organizações, de facto, o seu silêncio é cúmplice, porque não se limita a ser um silêncio, já houve manifestações de apoio, já houve manifestações de aproximação sem serem acompanhadas de uma tentativa de compreender a realidade", referiu o líder do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC, na oposição)".

Alega o actual principal político de oposição ao Presidente Umaru Sissoko Embaló que os guineenses "têm dificuldades em compreender determinados sinais" em vez de apoio para "tentar ajudar a ultrapassar essas situações", facto que devia, inevitavelmente, levar a antiga potência colonial a fazer mais, resumidamente, a imiscuir-se nos assuntos internos da Guiné-Bissau.

Quer dizer, na visão de DSP, Portugal deve "dizer aos governantes do seu país" o que fazer, como fazer e porquê fazer, relativamente à forma como as instituições tenham de funcionar na Guiné-Bissau porque, como alegou na entrevista, " o Chefe de Estado guineense quer um poder totalitário e investe em meios de repressão do povo em vez de assegurar as suas necessidades básicas". Desde quando é que os guineenses deixaram de ter capacidade de resolver este e outros problemas para um político que até já foi Primeiro-Ministro recorrer à antiga metrópole em busca de ajuda? E que ajuda Portugal daria sem se imiscuir nos assuntos internos da Guiné-Bissau?

Quando não são os políticos no poder que, saudosisticamente preferem estreitar, com algum exclusivismo, as relações com as antigas metrópoles, vangloriando-se com as transformações daquelas últimas em "portas abertas" para o mundo, outras vezes é a oposição que acaba acusando as antigas metrópoles de alegada cumplicidade. Esse é um problema sério em África, que leva, volta e meia, os países do continente berço a serem tratados como entes menores no quadro das Relações Internacionais e, não raras vezes, de verem as questões ligadas ao seu futuro e investimentos a serem antes tratados nas capitais das ex-potências coloniais.

Quantas vezes não vimos os caminhos do investimento, das ajudas e financiamento de projectos para os países africanos a passarem primeiro pelas capitais das ex-potências coloniais antes de chegarem aos destinos, quando nada impede que os mesmos, vindos de terceiros, façam o caminho directo?

É no fundo essa mentalidade, alimentada por políticos africanos, no poder ou na oposição, que justifica a reacção de DSP,  para depois reconhecer o papel que a sociedade guineense deve desempenhar.

Contradizendo-se, ainda durante a entrevista, DSP disse que "se impõe, neste momento, que o povo se mobilize, que o povo compreenda a importância de assegurar os seus direitos fundamentais e as suas liberdades e todos juntos podermos realmente pôr fim a esta tentativa de sufoco da sociedade e dos direitos do povo guineense".

Aqui, sim, o também antigo secretário-geral da CPLP assume uma postura que devia nortear todo o seu posicionamento relativamente ao que se passa na Guiné-Bissau, em vez de assumir e subscrever o velho papel paternalista que as potências ocidentais aparentam, permanentemente, ter o prazer de exercer junto das suas ex-colónias.

Não fica bem a um político de craveira de DSP embarcar num discurso que apenas alimenta a velha ideia do paternalismo com que as potências ocidentais actuam em África, que podia ser compreensível, mas ainda assim inaceitável se vindo de outros entes como a Liga Guineense dos Direitos Humanos, sindicatos, etc..

Os eventuais excessos que ocorrem hoje na Guiné-Bissau, sobretudo desde à chegada ao poder de Umaru Sissoko Embalo, que se tem mostrado como um líder menos democrata e mais propenso à concentração de poder e ao exercício de autoritarismo, devem ser primeiro encarados como um assunto interno daquele país. Em segundo lugar, as abordagens exógenas deverão ter sempre e sempre em linha de conta a natureza soberana e independente do Estado bissau-guineense, sendo preferível que as mesmas ocorram no quadro das organizações regionais, continental ou internacional de que a Guiné-Bissau seja parte.

Em terceiro lugar, todo e qualquer engajamento com as autoridades da Guiné-Bissau, relativamente aos supostos excessos em matéria de direitos humanos, desvios das leis e incumprimentos para com a Constituição, deve ter essencialmente um carácter endógeno.

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