Opinião

A reinvenção de África

À semelhança do que ocorre no futebol com potenciais estrelas tidas como promessas, mas que depois não se concretizam ou não atingem os resultados que se esperam dos mesmos, tendo em conta a margem de progressão que se pode imaginar, a julgar pelo talento e outros critérios de que os especialistas se socorrem para qualificar este ou aquele jogador como sendo craque em potência, tudo parece indicar que o continente africano, mesmo podendo, não atingiu ainda os níveis de crescimento e desenvolvimento compatíveis com o seu potencial.

29/12/2018  Última atualização 09H24

Passados mais de 58 anos desde o início da descolonização da África subsaariana inúmeros projectos de Nação cujas construções iniciaram naquela altura parecem ter estagnado. Os conflitos étnico-tribais multiplicaram-se, os processos de paz raramente foram bem sucedidos e idóneos para pacificar comunidades e promover reconciliações de comunidades outrora conflituantes, a distribuição da riqueza não tem sido, na maioria dos países do continente, capaz de combater a miséria, o ambiente de negócios tem sido impróprio para atrair inclusivamente investimento local, zonas como a Região dos Grandes Lagos transformaram-se em focos de tensão permanente. Assinale-se ainda o difícil e pachorrento processo de transformação de Estados em verdadeiras instituições despidas de cargas emocionais e espirituais dos seus servidores. Tudo isto indica e alimenta a tese de que apenas os projectos mínimos (consecução das independências dos Estados Africanos) se concretizaram.
Os projectos mínimos ora referidos consistiam no alcance das independências e em inúmeros países do continente berço aguarda-se ainda, até ao momento, pelas fases seguintes dos projectos iniciados com a libertação do jugo colonial.
A emergência de novas lideranças que vêm denunciando a corrupção e a impunidade como sendo males idóneos para entravar a “germinação” da semente da mudança sugere que a moralização das sociedades africanas, apelando ao sentido patriótico dos cidadãos que já exercem ou que virão a exercer as funções no aparelho estadual, parece ter iniciado uma nova abordagem rumo à reinvenção de África.
Tudo parece indicar que uma nova forma de pensar África, assente na trilogia MORALIZAR, DENUNCIAR e CASTIGAR, se adoptada pelos poderes públicos dotados de ius imperii e apoiados pelo quarto poder, ou seja, o poder informativo, que conta hoje com uma dimensão interactiva de peso que são as social medias ou redes sociais, pode iniciar uma fase sem precedentes na história dos povos subsaarianos que poderão transformar estes elementos em forças de mudança com vista a enfrentar o futuro que jamais poderá passar pela travessia dos mares para supostos mundos novos, na medida em que as comunidades afro-descendentes radicadas nos outros continentes não lograram a afirmação política, económica, social e cultural capaz de atrair as novas gerações para as diásporas.
Uma vez adoptado e implementado este modus operandi, será expectável que mecanismos de partilha do poder como as autarquias se constituam em mais-valias para as localidades e acelerem o processo de institucionalização dos Estados Africanos que há muito reclamam pela passagem para um novo estágio.
A nova atitude de algumas lideranças africanas, que pode funcionar como uma espécie da rampa de relançamento do continente, não pode, contudo, negligenciar a necessidade de considerar elementos antropológicos que caracterizam o homem africano e a natureza das suas necessidades materiais e espirituais e que diferem das dos povos de outras regiões do mundo, desafiando-se os intelectuais e pensadores africanos a se “libertarem” dos modelos culturais e ideológicos decorrentes da importação das ciências concebidas no económico norte e que, em boa verdade, têm sido um factor impeditivo da adopção pelos Estados africanos de modelos ecléticos na concepção e implementação de políticas públicas, na definição de modelos económicos e na criação de soluções para problemas cujas particularidades não são verificadas nos centros de criação do pensamento científico mundial.
A história da resistência oferecida pelos nossos antepassados, os processos de descolonização de África e o número incontável de vidas que estes processos consumiram, aos quais se somaram as guerras civis que tiverem e continuam a ter lugar como palco o berço da humanidade, terão sensibilizado algumas lideranças do continente que, não obstante estando em  minoria, poderão, com a firmeza que delas se espera, promover um processo de multiplicação de práticas idóneas com o condão de  “contagiar” todo um continente carente de esperança num  futuro melhor.
A natureza esgotável das riquezas naturais de que África é um grande depósito, bem como o receio fundado de “derrapagem” de algumas economias do continente quando o económico norte estiver num estágio avançado da mudança de fontes de energia constituem sinais suficientes para desafiar as comunidades de intelectuais honestos, os quais devem se tornar nos mais influentes aliados dos poderes públicos, a gizarem estratégias de redireccionamento das exportações de matérias-primas como o petróleo, transformando produtos como este em agentes de mudança do sector industrial. De todo o modo, tal não poderá ser feito sem que o continente se posicione a uma só voz no plano internacional em matéria de alterações climáticas.
As classes políticas têm em mãos o desafio da integração económica que passará necessariamente pela consolidação das organizações continentais e regionais como a União Africana, a SADC, a CEDEAO, a CEAC e demais instituições, bem como pela “inevitável” criação da moeda única. Sem isso a reinvenção de África como um todo jamais será, a nosso ver, uma realidade.
Os desafios impostos pela recepção do direito de criação ocidental, pela adopção de modelos de organização política concebidos na Europa, pelo desenvolvimento da vida das comunidades assentes em mecanismos de solidariedade orgânicas, considerados hoje como direitos adquiridos e sobre os quais as gerações de africanos nascidas no pós-independência e não só acreditam, não deixarão ao continente africano e às suas lideranças outra saída que não passe pela…REINVENÇÃO DE ÁFRICA.

 

 

 

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