Opinião

A (re)descoberta da luz ao fundo do túnel

Filipe Zau

Jornalista

As raízes mais profundas de um discurso afro-pessimista têm, naturalmente, a sua origem em teóricos das ex-potências coloniais mas, ultimamente, também em políticos e intelectuais africanos.

16/06/2021  Última atualização 06H00
Alguns académicos do Ocidente apresentam-se como os mais preocupados com a extrema pobreza e a falta de direitos humanos em África, o que, naturalmente, não deixa de ser legítimo e inquietante. Levam-nos, por outro lado, a inferir que os africanos, por si só, são incapazes de se governarem a si próprios, daí a necessidade de uma parceria mundial, o que, na realidade, se justifica para uma mais rápida e eficiente promoção do desenvolvimento.

Elikia M´Bokolo, investigador da República Democrática do Congo, ao prefaciar o livro do investigador português António Custódio Gonçalves, intitulado "Tradição e Modernidade na (Re)Construção de Angola”, critica o facto de as abordagens sobre África e o seu futuro continuarem a pautar-se por opiniões negativas que, de um modo geral, se circunscrevem: "ao desmoronamento do Estado; à fragmentação do território (que havia sido construído com muito trabalho pela colonização e que se encontra agora repartido em enclaves bélico-mineiros; à vida precária dos indivíduos (com poucas garantias de segurança imediata e futura, isenta dos direitos mais fundamentais); ao agravamento das clivagens sociais nos diferentes campos político-militares; ao angustiante estado de pobreza sem fim à vista, onde a capacidade de sobrevivência é levada ao extremo; à etnização das relações sociais e das alterações na vida política.”

Todavia, fugindo à lógica de causa/efeito, omitem-se os séculos de holocausto provocado pelo tráfico negreiro, racismo, assimilacionismo, segregacionismo e interiorização de um baixo sentido de auto-estima nos africanos anteriormente subjugados aos poderes coloniais, o que destorce, em grande parte, as razões que estão por detrás de determinados factos.

 Há intelectuais africanos, que, após as expectativas criadas a partir das suas independências, ao confrontarem-se, hoje, com os baixos índices de desenvolvimento nos seus países, resultantes de conflitos armados, extrema pobreza, corrupção…; passaram a manifestar abertamente o seu desencanto. Quase meio século atrás, África, através do discurso dos seus líderes, parecia capaz de unir todos os seus filhos à volta de uma mesma solidariedade pan-africanista onde o bem-estar e o progresso social só dependeriam de um hino e uma bandeira. Mas tal ocorreu e até o próprio Eden Kodjo, ex-secretário-geral da OUA afirmou, em 1988, que África pode ter "espaço, pessoas, recursos naturais (…) mas África não é nada, não faz nada, nem consegue fazer nada”.

Grande parte das razões para este afro-pessimismo reside, evidentemente, no facto do continente exportar 90% dos diamantes, 70% do ouro e um quarto do urânio que circulam no mundo inteiro, para já não falarmos do petróleo em quantidade e outras riquezas naturais. "Em quase todos os países africanos, o Banco Nacional é uma dependência do Banco Mundial, as Forças Armadas são assessoradas pela ONU, as eleições realizam-se sob vigilância de observadores internacionais, os cidadãos em situação de emergência procuram a ajuda de organizações internacionais, as melhores propriedades pertencem às multinacionais”.

Apesar do continente ter conquistado a independência política não chegou a alcançar a autonomia necessária para gerir a sua própria história e continua tutelado, como se fosse incapaz de andar com as suas próprias pernas. Na realidade, África foi o único continente que não cresceu durante mais de quatro séculos, enquanto a elite europeia ganhava fortunas nos disputadíssimos mercados de Lisboa, de Madrid e, sobretudo, de Paris e Londres.

Segundo o sociólogo guineense Carlos Lopes, em "Compasso de Espera. O fundamental e o acessório na crise africana", África é também o continente onde, "em 1992, a acumulação dos atrasos no pagamento da sua dívida externa já representava 32% das exportações de toda a região sub-sahariana”. Tal facto impede que os países africanos possam investir nos seus programas sociais, nomeadamente, em sectores-chave da educação e da saúde e, sem essa aposta não se processa o desenvolvimento.

Ali Mazrui, do Quénia, foi mais longe, ao admitir a necessidade urgente de "recolonização” como a palavra-chave para o século XXI e como "a maior esperança para África”, apesar do termo "recolonização” ser apenas utilizado em surdina, quer em África, quer no próprio Ocidente, a não ser por alguns nostálgicos periódicos. Para Mazrui, a diferença em relação à anterior colonização residiria no facto de este outro processo ser conduzido pela própria África, com vista à reconstrução do continente em bases políticas, económicas e culturais, tal como foi feito pelos europeus, a seu modo, no século XIX, com investimentos maciços de recursos e energias.

Reagindo, evidentemente, mais a Mazrui do que a Kondjo, o teólogo tanzaniano Laurent Magesa refere que a saída para África não será "recolonizar” mas sacudir dos ombros séculos de dominação e inércia, com o que de pior foi introduzido na mente das pessoas e nas estruturas de poder, inclusive as igrejas, que entraram no continente como parte de todo esse processo. "África parece um corpo inerte, onde cada um vem e debica o seu pedaço”, afirmou Agostinho Neto. Não só a partir dos que vieram ou vêm de fora, mas também (como nos mostram as actuais reportagens noticiosas), a partir dos seus próprios filhos.
Faltam-nos boas práticas educativas para que, ao fundo do túnel, se possa (re)descobrir a luz que ilumina o nosso caminho para o progresso económico e o bem-estar social.

*Ph. D em Ciências da Educação e Mestre em Relações Interculturais

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