Opinião

A pulga vira elefante

Manuel Rui

Escritor

Eu saí da viatura apoiado na bengala, o motorista tirou o carro de rodas elétrico, sentei-me, ele ligou, subiu até ao pé das cadeiras. Logo uma mais velha me perguntou, hoje não vem a sua crónica. Não sei, ainda não vi, o jornal e outras coisas estão na bolsa de trás da cadeira.

20/06/2024  Última atualização 09H30

Enquanto o motorista foi parquear o carro vi na televisão que o treinador da seleção de futebol tuga a falar que se ganhasse o europeu ia a Fátima agradecer, desatei a rir, em vez de ir pedir primeiro só ia se ganhasse, caso perdesse adeus santa dos milagres…e se o treinador de França for pedir a Lourdes?

Fomos com o motorista com dois dedos a guiar a cadeira, ele domina os corredores e num instante estamos na fisioterapia. O carrinho entrou. O fisioterapeuta brasileiro sempre delicado, ligou os elétrodos no meu braço direito, regulou a máquina e começou a tortura de choques para quarenta minutos. O médico ainda colocou um saco de água quente por detrás das minhas costas e uma almofada sobre as minhas pernas para eu poder ler.

O motorista viu a capa do jornal e disse que não tinha a crónica. Depois desfolhou e desatou à gargalhada. O doutor não devia ter escrito mentira, mas podia escrever não é verdade. A crónica está no meio. E ria-se quando logo começaram as ligações, tudo de gargalhada até eu mandar desligar o telefone e lembrar-me das manipulações de Chomsky.

Quando cheguei a casa abri o computador e vi no Jornal Novo: Embaixadora de Angola em Portugal recusa-se a participar na cerimónia oficial do dia de África- Maria de Jesus Ferreira acusa Luzia Moniz de "ativismo” contra JLO e Governo de Angola. Incluso produziu uma nota verbal dirigida às 15 embaixadas africanas acreditadas em Portugal que Angola comunicando que não estaria presente pelo facto da jornalista Luzia Moniz também ter sido convidada para a referida comemoração. Caramba! E se a jornalista entrar num avião Maria de Jesus não embarca?

Luzia Moniz é jornalista, socióloga e ativista …e Ex delegada da Agência Angola Pres. Ela é presidente da Plataforma para o Desenvolvimento da Mulher Africana e procede à abertura da solenidade comemorativa do Dia de África desde 2017.

Conheço a Embaixadora e admiro a sua ascensão meteórica degrau a degrau até à ONU, salvo erro e agora em Lisboa. A diplomacia é o trono da palavra, da aproximação. Quem acompanha o grande publicista F. Zacarias, compreende que cada vez menos um chefe de Estado nos Estados Unidos conversa com um senador da oposição ou com um juíz ou mesmo almoça ou janta. Não agora, com os populismos que vão de Trump a Putin, vive-se no império do ódio.

A embaixadora não podia impor como não conseguir impor que a jornalista fosse afastada pois ela seria e foi, como em outras vezes a escolhida para o discurso de abertura. Ela já era conhecida, mas a embaixadora querendo dar uma de elefante virou pulga pois agora todo o mundo fala em Mariza Moniz como um elefante da liberdade de expressão e de imprensa. Maria de Jesus que também nos honra por ser Brigadeira das Forças Armadas e não haverá muitos países com mulheres num posto militar tão elevado, desta vez, deu uma flechada nos pés. A diplomacia, prima pela elegância, a palavra de proximidade evitando sempre a exclusão. Depois apoia-se em base legal. Um jornalista que usa a sua profissão e comete crimes contra outrem, pessoa individual ou coletiva deve ser remetida à barra dos tribunais. Só que não há delitos de opinião. A Embaixadora até podia ter mandado o adido cultural ou mesmo não indo evitar esse pandemónio de raiva excluindo-se de quinze países. Parece que foi a única falta.

Se fosse eu, falava com Mariza, se gosta das nossas praias, se gosta da nossa comida, do nosso luar, da nossa música. E já seria qualquer coisa em que se estaria de acordo. Depois, o resto, podemos ir conversando. Errar é próprio do ser humano. E é a conversar que as pessoas se devem entender com respeito pelo contraditório. A mim já me incomodaram por chamar príncipe da paz a JLO.

Mas o porque é que os países africanos são chamados à colação pela embaixadora de Angola por causa de uma jornalista? Desta vez a festa foi organizada pela embaixada da Equatorial dos Obiang da corrupção. E então? A festa de África é a festa da familia africana, como nas famílias onde nas festas não tem bons nem maus. É só familia. A festa era do nosso berço, berço da humanidade, vitima de muitas exclusões.

Quando o vice-rei das Índias bradava para Ghandi dente por dente olho por olho, Ghandi respondeu: olho por olho fica o mundo todo cego.

Resta-me convidar a Embaixadora Jesus, como eu a tratava com amizade, e a jornalista Mariza para um almoço em minha casa, aqui em Luanda. A TAAG que aguente o transporte.

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