Opinião

A pré-campanha eleitoral é procissão ainda no adro

Filomeno Manaças

Os períodos de pré-campanha eleitoral são praticamente de testes e de afinação das máquinas partidárias. São momentos de ensaios que nos mostram como as formações políticas poderão fazer evoluir as suas máquinas durante a campanha eleitoral.

19/08/2021  Última atualização 21H04
As demonstrações de força, da base de apoio, sucedem-se e isso permite fazer uma avaliação dos meios empregues, dos argumentos esgrimidos e da forma como os actores entram em cena.

Para algumas formações políticas a pré-campanha eleitoral pode começar muito mais cedo, enquanto outras preferem lançar-se ao terreno um ou dois meses antes do início da campanha eleitoral propriamente dita. Essas decisões dependem, muitas vezes, dos objectivos e da capacidade financeira da força política que entra na disputa eleitoral. Em eleições, quem entra em campo mais cedo não o faz apenas para atarefar o adversário. Uma avaliação do contexto e dos objectivos a atingir é importante.

O contexto do país é marcado pelos efeitos da crise sanitária mundial, provocada pela pandemia da Covid-19, que veio juntar-se às dificuldades económicas e financeiras que vinham de trás, com a baixa do preço do petróleo, e uma má gestão do erário que o novo Executivo, mal entrou em funções, começou a combater.

Um cenário, portanto, que, em certa medida, favorece quem está na oposição. Por isso, o novo líder da UNITA, olhando para ele e tendo em conta a necessidade de projectar a sua imagem, mas apercebendo-se de que só com a sua formação partidária e de forma isolada pouco ou nada conseguiria, decidiu avançar para a concretização de alianças com outros actores políticos.

A Frente Patriótica Unida, recentemente lançada por Adalberto Costa Júnior, Abel Chivukuvuku e Filomeno Vieira Lopes, é o corolário desse pensamento, cuja expressão pública teve lugar pela primeira vez no rescaldo dos acontecimentos de Cafunfo, quando as duas primeiras figuras e o então presidente do Bloco Democrático, Justino Pinto de Andrade, deram a conferência de imprensa conjunta que marcou o arranque do projecto. Plantar em tempo de crise é a estratégia que tem vindo a ser seguida pelas formações e sensibilidades políticas reunidas nesse conclave, já que não há como desvalorizar os esforços de combate à corrupção, ao nepotismo e à impunidade. O objectivo é claro: a formatação, já, do pensamento da maioria do eleitorado.

É ponto assente que, em cada eleição, o mapa da composição do eleitorado muda. Uma das mudanças mais importantes diz respeito à distribuição dos eleitores por faixa etária. O mapa do eleitorado para o pleito de 2022 não será o mesmo que o de 2017. Quem, nesse ano, não pode votar, porque não estava habilitado devido à idade, já poderá fazê-lo em 2022, porque já terá completado 18 anos.

Ou seja, quem, em 2017, à data das eleições tinha apenas 14, 15, 16 ou 17 anos, já poderá exercer o seu direito de voto em 2022. Por outras palavras, isso quer dizer que, à semelhança do que acontece com o crescimento demográfico em Angola, onde a nossa pirâmide, na base, é maioritariamente jovem, continuaremos a ter também reflectida no mapa eleitoral essa realidade. E será sempre assim, enquanto se mantiver a taxa de crescimento demográfico na ordem dos 3.1 por cento.

Outra mudança importante inscreve-se no plano da sociologia, ou seja, dos factores que determinam a forma predominante de pensar das diferentes faixas etárias que compõem o mapa eleitoral, que também vai conhecendo, no topo da pirâmide, a cada eleição, uma renovação da sua população.

As pré-campanhas eleitorais são isso mesmo: uma procissão no adro. Pela frente, há ainda muito caminho por percorrer e a ser preenchido por uma série de acontecimentos e factos políticos que vão pautar, que vão definir o ambiente eleitoral final. Por isso, quando se diz, em tempo de pré-campanha eleitoral, que, se as eleições fossem hoje, a formação X ganhava, a Y ficaria em segundo lugar e a Z em terceiro, não passa disso mesmo: uma mera avaliação de circunstância que não deve ser tida como juízo final, porque este só acontece no Dia D, o da deposição, pelo eleitor, do voto na urna.

Ainda é, pois, muito cedo para se poder tirar qualquer conclusão quanto ao seu desfecho. Até Agosto do próximo ano, contam-se 12 meses. A única certeza que por enquanto se tem é a de que - conforme admitiu há dias a vice-presidente do MPLA, Luísa Damião - a disputa eleitoral de 2022 será muito forte, vai contar com a participação de muitos jovens, alguns deles votarão pela primeira vez. Temos uma juventude pragmática, uma boa parte desconhecedora das referências políticas históricas do passado recente do país e vulnerável aos efeitos corrosivos da situação económica e financeira e da pandemia.

Nestes tempos de pré-campanha eleitoral, vamos acompanhando a euforia das mobilizações político-partidárias, o "aquecimento dos motores”, com o MPLA a responder às iniciativas da oposição e a empenhar-se para desconstruir a narrativa segundo a qual a alternância no poder é a única solução para o país.

E porque em tempo de crise não se gastam munições em vão, porque os recursos devem ser empregues criteriosamente, é de esperar que, lá p’ra frente, vejamos muitas coisas a acontecerem, que o actual quadro sofra alterações substanciais, que deverão marcar o início de uma descolagem para um voo que se quer seguro, sustentado e promissor.

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