Opinião

A pré-campanha eleitoral e a rentrée de Bento Bento

Filomeno Manaças

Com o regresso, em Luanda, do veterano político Bento Bento ao comando do MPLA, o partido maioritário fez-se à estrada com outra dinâmica. O mergulho no ambiente de pré-campanha eleitoral, de disputa pela simpatia do eleitorado da maior praça política do país, fez de Luanda, particularmente nos fins-de-semana de maior intensidade da actividade político-partidária, uma cidade agitada pelas bandeiras com as cores vermelha, preta e amarela.

03/09/2021  Última atualização 05H25
Sabia-se que ia ser assim. Que estaria de regresso um MPLA com uma acção afirmativa, com um discurso de forte crença em mudar as coisas, de plena convicção na vitória nas eleições de 2022, apesar de a pandemia da Covid-19 ter travado aquele ímpeto com que se iniciou o mandato neste novo Executivo. 

As organizações de base e intermédias voltaram a ter o que fazer e programar. Discute-se a renovação dos métodos de trabalho e a questão da meritocracia, com foco na necessidade da maior formação política do país continuar a ser a locomotiva de mudanças iniciadas com o combate frontal e assertivo à corrupção e a outros males de que Luanda padece. 

O MPLA sabe que não tem tarefa fácil. A pandemia veio piorar a situação, que já era de si grave. Os níveis de pobreza aumentaram, o desemprego também aumentou, as reclamações em relação ao preço da cesta básica estão na ordem do dia, o saneamento básico é um problema, em algumas zonas o abastecimento de água é preocupante. Mesmo com tudo já montado, a tubagem instalada e a canalização feita para o atendimento ao domicílio, o líquido não corre nas torneiras há já muito tempo. O fornecimento de energia precisa chegar ali onde ainda não há e é preciso melhorar a iluminação pública.

São muitos os problemas, mas Bento Bento e os militantes em Luanda não cruzam os braços e não viraram a cara à luta. Estão dispostos a mostrar que há uma nova era e que as coisas vão melhorar. Que este MPLA é diferente daquele período em que não se combatia a corrupção, o nepotismo e a impunidade; em que se deixava que as coisas se arrastassem, sem soluções.

Os encontros com membros da sociedade civil estão, por seu lado, a permitir aprofundar o conhecimento das situações. Um MPLA aberto às discussões e inclusivo é, com certeza, uma fortaleza de ideias, de conhecimentos e de experiências que podem contribuir para que Luanda entre numa rota de mudanças susceptíveis de relançar a esperança em dias melhores. Esse é o lado da mobilização político-partidária, que procura resgatar a mística de que o MPLA é aquela máquina que, quando quer e entra em funcionamento, faz as coisas acontecerem e Angola vai p’ra frente.

O eleitorado está na expectativa. Tem pressa. Quer soluções. Este é o lado da governação, da materialização das promessas eleitorais, da apresentação de resultados. O inventário dos problemas, das situações, está feito. As soluções vão aparecendo, umas atrás das outras. À medida que o tempo passa, vamos vendo as coisas a se comporem. Segunda-feira, 23.08, o Presidente João Lourenço visitou a fábrica têxtil Nova Textang II. Há cerca de dois anos, estava paralisada e, hoje, está a funcionar. Emprega 180 trabalhadores e, em conjunto com outras duas, no Dondo (Cuanza-Norte) e em Benguela, está engajada no fomento da produção de matéria-prima no país. Os camponeses da Baixa de Cassanje, em Malanje, vão voltar a produzir algodão. Isso só é possível porque há um novo paradigma de governação, que aposta na diversificação da economia e valoriza a produção local, em vez de privilegiar as importações que asfixiavam a indústria têxtil nacional. 

Está de pé, portanto, o compromisso de mudar o país. É certo que outros projectos deverão conhecer, nos próximos tempos, à luz do dia. Afinal de contas, apesar da pandemia, várias obras estruturantes, que vão ter impacto significativo na vida das populações, como é o caso das destinadas ao combate à seca no Cunene, não deixaram de ter continuidade. 

Embora a Covid-19 tenha encalhado outras tantas iniciativas, porque obrigou a desviar recursos que bem poderiam servir para acelerar a sua conclusão - não fosse isso, de certeza que o ambiente político hoje seria bem diferente -, ainda assim, o que foi feito no sector da Saúde poderá, na era pós-pandemia, sofrer reconversão e ajudar a melhorar a assistência médica no país.

Neste período de pré-campanha eleitoral, em que é forte a pressão sobre o Executivo, há quem não olhe para o investimento feito para combater a Covid-19 como um ganho. Mas toda a gestão feita na luta para tornar mínimos os efeitos da crise sanitária mundial sobre a economia nacional e preservar a sociedade da catástrofe que se abateu sobre vários países, com o cortejo de centenas e milhares de mortes diárias, não pode ser ofuscada por nenhuma campanha política. 

 Ao contrário de outras realidades, onde o impacto da pandemia levou os eleitores a mostrarem o cartão vermelho às autoridades, pelo modo como geriram a crise, no caso de Angola, pode-se dizer que o Executivo passou com distinção neste teste difícil. O país tem sido uma referência positiva na luta contra a pandemia provocada pelo vírus SARS-CoV-2. Com o início da campanha de vacinação massiva da população e, agora, o fim da cerca sanitária sobre Luanda, decidido terça-feira, abre-se um novo capítulo no combate à Covid-19.

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