Entrevista

“A população do Huambo pode sim estar optimista de que as perspectivas são de melhorias”

Agostinho Chitata

Jornalista

A governadora da província do Huambo afirmou que é preciso prestar atenção especial ao sector agrícola pois é, de facto, um dos grandes pontenciais que a província tem, apesar da última campanha agrícola ter sido pouco conseguida devido à estiagem. Lotti Nolika prevê, com as acções que estão a ser realizadas, como o reforço da capacitação dos agricultores, uma boa campanha agrícola

29/11/2021  Última atualização 06H50
© Fotografia por: DR
"A vida faz-se nos municípios". Um conceito que parece de aplicação fácil na província do Huambo...
Devo reconhecer que as condições geográficas e das infra-estruturas rodoviárias no Huambo facilitam a materialização deste conceito. Primeiro, porque estamos ligados por estradas asfaltadas em relação a todos os municípios do Huambo e, segundo, porque existe uma concentração da população a nível de todos os municípios. Portanto, não temos populações muito espalhadas. Acredito que essas são condições mais do que suficientes para materializar a divisa de que a vida se faz nos municípios. Além disso, vai-se criando, na medida do possível, capacidade de resposta local a nível dos municípios, quer no que diz respeito à saúde, educação e  produção agrícola, quer na formação profissional.
Logo, há sim condições efectivas para se materialização deste desiderato e tanto quanto saibamos a vida no Huambo vai-se fazendo nos municípios. Podemos aprimomorar e reforçar cada vez mais as capacidades das autoridades locais: apostar cada vez mais na desconcentração administrativa e creio que estamos num bom caminho.



Estamos a menos de um ano das eleições gerais, já é possível fazer um balanço do que foi à aplicação das políticas, programas e estratégias na província do Huambo?

Qualquer balanço que se faça neste momento será provisório e, certamente, pecar por defeito. Todavia, numa lógica preliminar, fazer um balanço positivo porque há uma série de acçãoes estruturantes que vão ganhando corpo no que diz respeito ao reforço da capacidade de resposta no sector da Saúde com a construção de 26 unidades sanitárias de várias típologias, 8 residências para técnicos e 510 novas salas, a nível dos municípios, no quadro do PIIM, decorrem ainda trâmites concursais do Hospital Pidiátrico do Huambo, Hospital Geral do Bailundo e na fase final estão os hospitais da Ecunha e do Chilume que vêm aumentar a capacidade de resposta do sector da Saúde.
Estamos também a apostar muito seriamente a nível da oferta formativa com a construção de escolas a nível do PIIM. Estão em fase de conclusão, um total de 46 escolas de diversas tipologias, que concluídas, teremos 393 salas de aula.
Demos avanços consideráveis no tópico referente à produção agrícola, temos estado a dar passos muito firmes para resgatar o título de celeiro nacional.
Estamos timidamente a dar alguns passos a nível da indústria e temos uma população mais estruturada profissionalmente, melhor capacitada e, apesar de todo o contexto adverso, fruto da crise económica e financeira e  da recessão a que estamos mergulhados há quase 5 anos consecutivos e agora com o agravamento da Covid-19, creio que realisticamente é possível fazer-se um balanço provisório.



O sector da Agricultura parece ser o apontado como o mais assertivo sob o ponto de vista de realizações, a julgar pelo que o Huambo representa neste sector: terra boa para desenvolver a agricultura, até a pecuária e possui uma população, tradicionalmente, camponesa. Como foi o ano agrícola desde que assumiu o cargo de governadora provincial?
É de facto um dos grandes pontenciais que a província tem. O sector agrícola deve ser um daqueles que deve merecer toda a nossa atenção e creio que temos estado a dar passos consistentes, apesar da última campanha agrícola pouco conseguida, fruto da estiagem. Estamos em crer que, com as acções que  temos estado a implementar, com o reforço da capacitação dos próprios agricultores,  poderemos ter uma campanha agrícola mais airosa, desde que não falte de novo chuvas.



Entretanto, não só da agricultura vive a província. Programas e projectos de impacto social e económico, e não só, destaque para a estratégia de combate à fome e à pobreza, assim como à realização de acções visando à geração de empregos para a juventude, dominaram a agenda provincial. Quais foram as principais acções realizadas e se os níveis foram satisfatórios?
Nós não devemos dissociar a província do Huambo daquilo que é o contexto macro-económico, daquilo que é o contexto social do país. Houve claramente uma desaceleração muito grande no que diz respeito ao crescimento económico. O nosso PIB decresceu e é normal que isso reflicta no número de empregos e, consequentemente, no rendimento das famílias e dos cidadãos, como na capacidade financeira das pessoas. Portanto, o Hu-ambo não está desassociado a isto. Todavia, não podemos adoptar atitude da avestruz, enterrar a cabeça por baixo da areia. Portanto, os sinais que temos estado a receber são animadores. No útimo trimestre, registamos um crescimento por quase dois pontos percentuais, relativamente ao período homólogo. E nós, neste particular, além da aposta na agricultura, temos estado a virar-nos por captação de investimento privado, quer no que diz respeito à dinamização do Pólo Insdustrial, quer em outras áreas.



A questão da energia eléctrica e da água...
...o fornecimento de energia eléctrica já está em fase de estabilização a partir de Laúca e a questão da água no casco urbano já é uma realidade, porque cobre cerca de 100 por cento. Portanto, creio que são condições mais do que suficientes para alavancar outros sectores.


No seu entender, governadora, o que teve na base de alguma abordagem feita, referimo-nos ao país, relativamente à escassez alimentar e de alguma assistência às famílias e às empresas? Ou a realidade com o Huambo é diferente?

Caro jornalista, toda a mundança é perturbadora.  É normal que com as transformações estruturais que se vinham resgistando, com as reformas estruturantes, é normal que isso se estivesse reflectido naquilo que é a capacidade de rendimento das famílias e dos cidadãos. Tal como me referi, esta apreciação sobre alguma escassez tem de ser encarada na perspectiva holística.
Nós temos estado a registar ciclos consecutivos de recessão, portanto o país, desde o ano de 2015, tem vindo a registar um crescimento negativo.


E em relação a este ano?
Felizmente, a perspectiva é que neste ano voltemos a crescer,  embora numa percentagem modesta de 0.2, mas é um bom indicativo. E as perspectivas para 2022, são muito mais animodoras. Vamos crescer além de 2.4, 2.6 por cento. Portanto, é normal que isto se reflicta directamente na vida das pessoas, dos cidadãos. E o Huambo não fica de parte.



Para o próximo ano governativo, último, antes das eleições gerais, o que ainda a população local pode esperar para renovar as esperanças num Huambo cada vez melhor?
Creio que o próximo ano nos apresenta perspectivas muito animadoras. Primeiro, porque grande parte dos projectos estruturantes poderão conhecer o seu termo e sua concretização ao longo do próximo ano. Portanto, temos aqui uma perspectiva de conclusão de projectos estruturantes que vão  impactar directamente na vida dos cidadãos, quer no sector da Educação, da Saúde, quer mesmo no sector Social, em geral e, depois, as perspectivas mais transversais, a nível do país, são bastante animadoras. O país vai voltar a crescer e, portanto, creio que a população do Huambo pode sim estar optimista de que as perspectivas são de melhorias, agora isso não vai acontecer como que um passo mágico. As soluções não resultam com este nível de automatismo, obedecem a processos próprios e aos timings.O que eu espero, é que a população do Huambo acompanhe o nosso optimismo, porque estamos muito confiantes em que, o próximo ano, nos apresente perspectivas muito animadoras.


Mantém um forte optimismo sobre o futuro da província, além de governadora, é primeira secretária provincial do MPLA. Acha que a missão política do seu partido correspondeu às expectativas locais?

Se atendermos as difíceis condições em que o mandato esteve mergulhado desde o príncipio, as várias adversidades pelas quais passámos como país, como nação, e até o mundo, em geral, eu quero crer que sim, podemos ficar descansados, porque fizemos tudo o que  esteve ao nosso alcance para o bem das populações. Não teremos atingido todos os objectivos, não teremos sido eventualmente sempre felizes nas opções e nas escolhas que fizemos, mas  animou-nos sempre o desejo e o interesse da resolução dos problemas  do povo. Portanto, sim. Neste particular, eu quero crer que se tivermos que avaliar com realismo, a missão do meu partido correspondeu às espectativas.


 O que foi feito neste domínio político e as próximas acções vão justificar o slogan: " Melhorar o que está bem e corrigir o que está mal"...
Não tenho dúvidas, este foi o nosso lema de actuação. Tentamos corrigir as coisas menos boas e tentamos melhorar as coisas que estavam razoável-mente estabilizadas.



Localmente, o que se corrigiu e o que se pode ainda melhorar?
Como já tive oportunidade de referir, não existe fórmulas  mágicas. Entretanto, as aspirações das populações estão mais  ou menos identificadas e passam pela satisfação das necessidades básicas, aposta que possa ocorrer, seria no sistema de saúde, educação, combate cerrado à pobreza, não na lógica simples redutora do betão da construção de infra-estruturas, mas na lógica que tenho como foco, o homem, a pessoa, o ser humano, melhorarmos os níveis de transparência de boa governação. Creio que a serem levados  a sério, esses elementos poderão, claramente, conduzir o Partido a renovar a confiança que lhe foi depositada em 2017.



Em termos políticos, como estamos sob ponto de vista da concretização, grosso modo, de um Estado de Direito e Democrático?
A concretização do Estado Democrático e de Direito é um processo que tem o seu nível de maturação e que obedece as suas  etapas. Felizmente, temos vindo a fazer o caminho. Angola assumiu o regime político de multipartidarismo, em 1991. Fez as primeiras eleições livres e justas em 1992. Houve aquele interregno até à realização das segundas eleições gerais em 2008, por razões que bem conhecem e nem adianta aqui referir. Portanto, de lá p’ra cá, temos vindo a consolidar o Estado Democrático e de Di-reito. Isto é visível, na maior liberdade que os cidadãos têm de se expressar, na liberdade de imprensa, de circulação e em tantas outras componentes e que objectivamente é possível avaliar esta consolidação e este crescendo do Estado Democrático e de Direito.



E reina satisfação desta conquista?
Temos que continuar a apostar no fortalecimento das instituições, sobretudo na realização da justiça. Temos que continuar a resolução dos seus problemas e, por isso, podemos sim afirmar que, de forma geral,  há consolidação de facto mas não é um processo concluído, é um processo em construção permanente.



Este processo de construção permanente, será que é desta forma que vê a oposição?
Creio que não é elegante na posição em que me encontro avaliar a prestação e a performace da oposição. Por isso, e com o devido respeito, vou  excusar-me de responder essa  questão. Creio que cada cidadão tem  o seu juízo em relação aos acontecimentos que temos estado a registar. Creio que o cidadão tem maturidade suficiente para fazer a sua avaliação. E, no final, tomar a decisão em função da avalição que quiser.


Muito bem. Mas, entretanto, sejam quais forem os próximos resultados, o mais importante é olhar-se para o país e trabalhar para a concretização dos seus nobres anseios. Acha que os concorrentes estão preparados para ganhar ou perder?
Bem, esta pergunta não deve ser feita a mim. Tal como referi, eu não posso responder pelos nossos concorrentes. Posso afirmar que a máquina do nosso partido está a ser afinada. As estruturas, da base ao topo, estão devidamente alinhadas com o firme propósito de nos apresentarmos ao próximo pleito, com programas, propostas concretas e nos submetermos ao crivo da população.


Voltando para o sector económico, o Huambo parece reunir condições para que tudo dê certo, mas tudo indica que ainda não "engatou", ou é uma apreciação desajustada?
Creio que sim, não se pode desconsiderar os avanços que foram feitos nos últimos anos. É bem verdade que o nosso tecido ficou largamente prejudicado, como consequência da guerra e esta foi  uma das províncias mais afectadas. Ainda assim, Roma não foi construída em um dia. Logo, creio que é injusto considerar os avanços feitos e as conquistas que foram alcançadas. Huambo tem efectivamente um grande pontencial agrícola, pontencial hídrico e  mercados por causa da densidade populacional. Daí, voltar a reforçar o quanto optimistas estamos.

"Há determinados marcos que as pessoas da minha geração se podem orgulhar”

A governadora consegue ler satisfação no rosto dos seus governados? Se sim, o que a motiva para uma leitura positiva?
Caro jornalista, infelizmente nem todos os dias são santos e não se pode agradar a gregos e troianos. Existem determinadas  acções que vão agradar uma franja considerável na população. Mas, é muito provável e  normal que não agradem a outros.
Logo, isto faz parte do jogo democrático, da natureza humana. Agora consigo, sim, notar em cada gesto que toca directamente  na vida dos cidadãos, em cada gesto que impacte directamente na vida dos cidadãos , consigo sim notar satisfação. Isto é que  nos anima, a mim e aos meus colegas, a trabalhar no limite das nossas capacidades, das nossas possibilidades, resolvermos os problemas do povo.


"Huambo cidade vida". Sente-se isto agora, ou se sentiu noutro tempo, em que a indústria local estava "oleada", havia investimento e um sector financeiro, digamos assim, mais disponível a servir a indústria e a economia de forma geral...

Devolvo esta pergunta para si caro jornalista, está aqui há alguns dias qual é a avalição que faz?


A avaliação da governadora é mais sólida e persuasiva. Entretanto, temos um modelo económico que serve os nossos anseios ou as autarquias já devem entrar na agenda das prioridades...

Não existe modelos económicos perfeitos. E nós, enquanto país, adoptámos o modelo de economia de mercado. Embora com fortes preocupações sociais e  a inclusão das populações mais desfavorecidas, portanto, grande parte dos países do mundo até aqui têm optado por este modelo e creio que vai de encontro aos nossos anseios. Agora, é verdade que temos sim de apostar, quer na desconcentração administrativa, quer na descentralização administrativa. Todavia, isto não acontece por um passo de magia, pois obedece a um processo rigoroso e à preparação de condições logísticas, materiais e legislativas, para que avancemos por ali.


Que país gostaria que a sua geração política deixasse?

Há determinados ganhos e marcos que as pessoas da minha geração e anterior se podem orgulhar: a conquista da Indepedência Nacional é  um dos ganhos que a minha geração pode, efectivamente, se orgulhar por ter sido partícipe directo na conquista da paz, por ter lançado as bases para a construção de um Estado Democrático e de Direito, a construção de uma sociedade livre e participativa. E mais do que isso, podemos nos orgulhar por nunca termos alienado a nossa liberdade e termos deixado, à mercê dos estrangeiros  e  terceiros, a condução dos destinos dos nossos problemas e  interesses.


São conquistas inegáveis, no seu entender?
Admito que sim. Para nós, são valores e  conquistas inegáveis que a minha geração e a geração que me antecedeu fizeram. Agora, a nossa expetactiva é que possamos deixar um país melhor do que aquele que nós encotrámos todos. Todos os dias, trabalhamos neste sentido.


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