Opinião

A política e as ideias na Academia Angolana de Letras

Adriano Mixinge

Escritor e Jornalista

Começaram a acontecer online, via a plataforma Zoom com o ID 6985716385 e a senha de acesso AAL2022 e em tempo de pandemia da Covid-19, daí que até agora tenham um lado familiar e intimista em consonância com o à vontade com que, normalmente, estão todos.

28/06/2022  Última atualização 11H06

Aparecem detrás do écran, sentados nas suas poltronas ou cadeiras, no escritório que têm nas suas casas ou, pura e simplesmente, num lugar com um mínimo de privacidade que os permita participar na conversa: nunca são muitos, mas parecem resistentes: dá gosto vê-los a pensarem, diferentes.

Querendo ou não, todos aqueles que não perdem uma das conversas na Academia Angolana de Letras (AAL), por intermédio das câmaras, tornam-se partícipes das coisas, atitudes e vozes que antes eram exclusivos das vidas privadas dos intelectuais, professores universitários, jornalistas e escritores, angolanos e estrangeiros: o ambiente costuma ser agradável, podemos nelas ver um grupo significativo de investigadores e especialistas que estão ligados à literatura angolana dos últimos trinta anos.

Neste mês de Junho, tive a oportunidade de moderar duas das conversas na Academia Angolana de Letras, nomeadamente, primeiro com o jornalista, analista político e escritor Ismael Mateus (Luanda, 1963) e, depois, com o engenheiro, docente universitário, político e poeta Conceição Cristóvão (Malange, 1962): sem complacência nem paternalismo, ambos contaram-nos coisas curiosas sobre as suas vidas, as suas ideias, as suas posturas e as suas trajectórias.

Na conversa com o Ismael Mateus adoptei as vestes de jornalista e para além das questões que, via nota de imprensa, a academia divulgou a propósito da participação dele, concretamente, o facto dele ter falado sobre clivagem que existe entre acultura e a incultura em Angola ou, também, sobre a necessidade de Angola adoptar para além do português por uma língua bantú por região do país e, também, pela língua inglesa se quisermos realmente estar num mundo globalizado sem perder os saberes endógenos, ele fez ao menos dois comentários curiosos.

O primeiro dos comentários curiosos do Ismael Mateus foi quando perguntado directamente sobre o assunto, disse-nos, para nossa alegria, que estaria disponível para moderar um debate público entre todos os candidatos dos partidos políticos às eleições gerais de 24 de Agosto próximo. E o segundo é que concordou connosco que o militante Adão de Almeida do MPLA e o Liberty Chiaka da UNITA são políticos promissores. Porém, sublinhou, é preciso que ambos – excepto a deputados - "não sendo ainda candidatos a nada”se dêem a conhecer mais, uma vez que os cidadãos precisam de saber que ideias próprias e que visão de futuro  têm para Angola.

Na conversa com Conceição Cristóvão teve uma postura mais do costume e esteve animada, por um lado, pelas participações e comentários sendo que um dos que mais debate gerou foi o de João Fernando André a propósito da história das brigadas jovens de literatura em Angola, um debate que se prolongou depois num âmbito mais restrito entre escritores. Porém, curioso foi, por um lado, ouvir o escritor falar sobre a inspiração cristã do seu nome por ele ter nascido, em Malanje numa capela consagrada a Nossa Senhora da Conceição.

Por outro lado, Conceição Cristóvão na sequência da questão sobre se a política tem mais de poesia ou se a poesia tem mais de política, reinvindicou o papel dos intelectuais e recomendou a leitura de dois textos sobre o assunto, nomeadamente, "A Demissão dos Intelectuais” de Alain Caillé e "O Poder das Ideias” de Isaiah Berlin, sem deixar de mencionar o facto de que, entre outros, está a trabalhar neste momento no livro "Desconstruindo os Sentidos”, com reflexões e ensaios em que assume as suas responsabilidades enquanto intelectual.

Enfim, a impressão com que ficamos é que há, pois, qualquer coisa de fresco e arejado na Academia Angolana de Letras com a nova direcção e, particularmente, sob a presidência do sociólogo Paulo de Carvalho, que tem sabido ser um anfitrião vivaz: quando necessário, ele anima o debate, faz esclarecimentos, estimula o pensamento e a circulação de ideias tornando, passo a passo, as conversas num espaço de referência, digno de ser estimulado e apoiado.

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