Cultura

A poesia ao serviço da sociedade

O poemário contém duas secções. A primeira contém a maior parte dos textos da obra. É a secção cujo título é “Até Depois”, que carrega textos que abordam várias temáticas voltadas aos dramas de Luanda e do homem angolano.

16/01/2022  Última atualização 08H35
© Fotografia por: DR
Aproveitando-se do verso branco, da ironia e do sarcasmo, o eu-lírico leva o leitor a reflectir sobre o país.  Na página 71, o escriba apresenta-nos um poema que compara a cidade de Luanda dos tempos passados e a da actualidade. Trata-se de uma crítica social das novas escolas privadas que vão surgindo um pouco por toda a Luanda, com nomes de indivíduos que nunca fizeram nada em prol da ciência: 

"Cidade antiga / de história e de memória / de intelectuais brilhantes // No século XXI / os colégios kaluanda são finíssimos / levam os nomes dos filhos e das filhas…/ dos donos.../ não há história em Angola para ir buscar”

Dito de outra maneira, o sujeito poético pretende que os nomes das escolas, dos bairros e das ruas de Luanda sejam atribuídos em homenagem àqueles que contribuíram para o bem da pátria. Nomeadamente, juristas, professores, artistas, atletas e políticos. Na prosa poética da página 69, há um poema com laivos de lamúrias da falta de oportunidades que muitos angolanos infelizmente têm sofrido. O pior é que, muitas vezes, aniquila-se os desejos de certos indivíduos somente por terem a cor com mais ou menos melanina: 

"Nunca me recusaram bolsa por ser filho de / colono...???!!! / mente rasteira a dos malabaristas”
O sujeito poético da página 73 apresenta o sofrimento das zungueira e a desumanidade de muitos dos ditos fiscais, que têm espancado as senhoras que saem à rua para ganhar «o pão que o diabo amassou». Vai mais longe o eu-lírico ao problematizar os dramas da limpeza, da zunga e dos fiscais. Faz o leitor pensar em práticas neocolonialistas e de trabalho forçado, pois o fiscal, muitas vezes, só exerce tal papel para garantir o seu provento e apropria-se do negócio das zungueiras devido à pobreza espiritual e económica:  "Porrada nos vendedores / para limpeza da cidade / está na moda / hoje mais que nunca / neste canto dos novos contratados”

Na página 78, o sujeito lírico ilustra o tipo de cantores e de jovens que existem em grande quantidade na  sociedade das terras de Cordeiro da Matta: jovens e cantores que não se interessam pelos assuntos endógenos, políticos e até ontológicos.

Em grande parte, muitos deles evitam falar ou cantar assuntos que tocam os políticos porque temem represálias e porque são amigos da fama fácil e banal. No poema com marcas dramáticas, percebe-se isso ao lermos as palavras de um jovem que almeja ser cantor a um letrista: "Kota /  me faz só uma letra / fixe / daquelas para cuiar / para bater / para eu ficar famoso / na boca do povo / política não, kota / quero lá saber da política // Depois / nada de cumbu / nem rádio / nem fama”

Na página 79, o eu-lírico exorta os homens a não se corromperem, ainda que for  por causa de ofertas. O leitor coevo deverá sintetizar o poema em duas palavras: dignidade e ética. Vivemos numa sociedade onde os valores morais e o silêncio das pessoas têm sido comprados. Ora, o que tem preocupado já não é a acção dos malfeitores, mas o silêncio daqueles que poderiam ser a boca dos que não têm boca: escribas, jornalistas, deputados, juristas, professores, pastores, padres, cantores e outros fazedores de opinião e membros da sociedade civil. Alerta o eu-lírico da página 79:
"Não aceites nunca / a negação de ti própria / ainda que as ofertas / ultrapassem / tudo quanto sequer imaginas”

Na página 90, o eu-lírico de Carlos Ferreira crítica o exagero no uso da internet. Se, por um lado, nos tem facilitado a comunicação, por outro, tem sido um meio de distanciamento físico e  quase que social. A sociedade virtual tem sido um meio de conteúdos duvidosos, de pirataria e de algumas coisas que não abonam o intelecto do homem:
"net net ponto net sozinhos e virtuais confessamos / a nossa impotência // estamos todos arquivados na Microsoft / somos felizes aleluia aleluia.www.foiistoquefizemosdavida.com”

Na penúltima página da primeira secção do livro, 92, o eu-poético preocupa-se com a questão do apagamento da memória que tem sido praticado por um grupo de pessoas da sociedade angolana e não só. Boa ou má, a história de um país ou de uma região deve ser mantida para que os seus actuais e futuros membros tenham noção do bem e do mal legados pelos governantes e não só. Assim, um dos meios de se aprender com o passado é tendo acesso à memória. Questiona o eu-lírico: "quem quer inventar o que fomos / quem quer trafulhar a história // quem quer trocar as voltas aos outros / quem é que anda a apagar a memória?”

O último poema do caderno mais volumoso da obra é mais uma crítica aos que venderam o seu silêncio, aos que se calaram diante das várias dificuldades que a maior parte da população angolana e mundial enfrentam. É uma crítica aos "catalogados / numerados / seleccionados / desgraçados / mas bem pagos.”

Nas mais de 100 páginas do livro, a segunda secção ou parte ocupa apenas um total de 13 poemas. São 13 poemas dedicados a nomes bem-conhecidos na instituição literatura angolana e na música do país. Poemas dedicados a Luandino Vieira, Viriato da Cruz, Raul David, António Fonseca e Paulo Flores. Ressalta-se o facto de o poeta dedicar dois poemas à sua amiga de longa data, Irene Guerra Marques. Para que o leitor conceba os laços que ligam o poeta à professora, convém ler primeiro o poema da página 112 e depois o da página 108. Na 112, diz o eu-lírico: 

Assim, embora contendo menos textos, a segunda secção é mais poética do que a primeira. Dos poemas dedicados, aquele cujo sujeito dedicado é o escritor António Fonseca funciona como um testemunho dos feitos daquela que é considerada como a "Geração das Incertezas” ou da Revolução (Kandjimbo/Feijóo J.A.S). Confirma o sujeito poético de Cassé a António Fonseca: 

"Cavámos / companheiro / ainda queríamos cavar mais fundo // pouco importa o que fizemos / ficará apenas / o eco de algumas vozes / já sem campo para lavrar.” Portanto, o poeta, jornalista e letrista Carlos Ferreira, Cassé, reúne neste poemário um conjunto de textos escritos em Luanda, de 2003 a 2006 e não só. Os poemas da primeira parte do livro são menos conseguidos esteticamente, mas possuem mais substância.

A maior parte dos poemas tende a ser prosa poética. Mais do que fazer arte, o poeta de "Até Depois” critica os actos negativos que sucedem na sociedade angolana e mundial, como o apagamento da memória, o silêncio dos que deviam denunciar o sofrimento dos menos favorecidos e os problemas que o homo sapiens vai enfrentando devido ao mau uso da internet. O poemário serve também como um lugar de reconhecimento de certas figuras ligadas a cultura angolana e ao escritor.

João Fernando André

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