Opinião

A paz no Leste da RDC é vital para Angola

Adebayo Vunge

Jornalista

Mais do que uma visão da realidade de então, a célebre frase do engenheiro agrónomo francês, René Dumont, traduzida num livro, “l´Afrique noire est mal partie” (África Negra começou mal, em tradução livre), 1962, assenta ainda hoje que nem uma luva quando olhamos para o que se passa em vários países da região subsariana, de forma particular para a zona mais central do continente.

21/11/2022  Última atualização 06H55

Falo, por isso, de modo particular da República Democrática do Congo (RDC) onde depois da morte de Lumumba, por agitação ocidental, o país não mais se reencontrou e desde que Mobutu ascendeu ao poder parece estar ainda a viver uma maldição. Na verdade, é o que muitos chamam a maldição dos recursos, em particular dos recursos do Norte e Leste da RDC que, volta e meia, é agitada com insurreições e outros movimentos que de conflito com envolvimento de países limítrofes, quando não também sob influência de outras forças.

O recrudescimento do conflito na RDC, nos últimos meses, faz ressuscitar as correntes que defendem uma solução baseada na fractura do país, ignorando assim a partilha de África ocorrida na conferência de Berlim e as fronteiras herdadas do colonialismo, aceites sob as convenções da União Africana. Quando se olha a fundo as reivindicações do M23, fica subjacente essa intenção. A existência de elementos da etnia tutsi na região do Kivu Norte tem sido o pretexto da evocação de um antigo reino único naquela zona e a sua reaproximação ao Rwanda e Uganda poderá ser um passo nessa direcção, e daqui a acusação do envolvimento dos países limítrofes no apoio àquele e outros movimentos insurgentes.

Para já, vale o esforço e a vocação do peace maker que Angola assume, desde Agostinho Neto e José Eduardo dos Santos, agora também no mandato de João Lourenço que não poupa esforços para devolver a paz e a estabilidade naquela região.

Se em termos políticos e diplomáticos Angola assume desse modo um papel importante no continente, o mesmo racional é válido em termos económicos. Angola tem um interesse particular para que a RDC esteja em paz e estável na medida em que a sua aposta no corredor do Lobito pode ser condicionada em termos de resultados ao que se passar ali.

Por outro lado, não podemos ignorar os laços culturais e transfronteiriços existentes entre Angola e a RDC. A capital do Reino do Kongo situa-se em Angola, mas aquela entidade sociopolítica de África tem maior expressão geográfica na RDC. Ademais, a RDC é o país com o qual Angola tem a sua maior fronteira, exceptuando,  obviamente,  a costa atlântica.

Vemos todos, com grande expectativa, os esforços diplomáticos do Presidente João Lourenço, com apoio de outros estadistas para que se consiga um entendimento entre os beligerantes e os seus apoiantes, evitando-se assim ofensivas e contra-ofensivas ao nível militar. A concertação política é então um caminho importante e salutar numa altura em que está prevista para hoje, em Luanda, uma cimeira que poderá juntar Tchisekedi e Kagame.

Os relatos populares de ataques às cidades e vilas de Kivu Norte pelas milícias fortemente armadas do M23 deixam uma grande preocupação. Espera-se que o bom senso prevaleça, mas acima de tudo que os esforços diplomáticos de Angola sejam confirmados com a resolução definitiva do diferendo, permitindo assim a instauração de um clima de paz salutar para todos.

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