Opinião

“A orgia” à angolana

Adriano Mixinge

Escritor e Jornalista

Antes do meio da manhã de sábado passado, já sabíamos que, à noite, iríamos ver a quinquagésima nona obra produzida pela Companhia Elinga Teatro, no palco que, desde há alguns anos, ela tem na Baixa de Luanda: “A Orgia” de Enrique Buenaventura (1925-2003) com direcção e cenografia de José Mena Abrantes, figurinos de Anacleta Pereira e de Cláudia Bezerra e luzes de Paulo Cochat reuniu ali um grupo de umas trinta pessoas, durante pouco mais de uma hora.

31/08/2021  Última atualização 08H00
De repente, apagaram-se as luzes, a obra começou e ela poderia ter uma sinopse parecida a esta: uma velha aristocrata, imponentemente representada pela actriz Anacleta Pereira, recebe em sua casa três mendigos – cada um deles é um ex-qualquer coisa - e uma anã – em representação do poder eclesiástico - e com eles, nos dias 30 de cada mês, organiza uma festa/orgia/bacanal em que rememoram a trajectória passada que tiveram para, só depois, mais tarde, quanto mais tarde (ou mesmo nunca) serem agraciados com um jantar.

Contracenando com a velha aristocrata aparece o seu filho mudo, - o actor Honório Santos -, que emite sons próximos entre a fala e a onomatopeia, ao longo da abertura da obra e fá-lo com tanta fidelidade que impressiona: a mãe e o filho acabam dando-nos uma óptima lição de amor, mas, também, de teatro puro e duro, pelos gestos, pela maneira em como interagem, pela beleza decadente que, de certa forma, ambos encarnam. A riqueza provoca afectos e discórdia e, talvez por isso, a velha aristocrata recorda-nos que só foi possível preparar os manjares e as bebidas que se consumiriam na orgia, porque a ela utiliza parte do dinheiro que o seu filho mudo e avarento escondia.

Ao chegar ao lugar da orgia, cada mendigo deseja ser recompensado com uma remuneração por "entrar no jogo” de satisfazer a velha aristocrata que vive entre a alegria de algum dia ter sido lisonjeada pelo Príncipe da Inglaterra, a nostalgia e o desencanto face ao que já não é e as carências e a recordação de um tempo em que foi endinheirada.

Mas, de um modo geral, a forma em que a actriz Cláudia Bezerra e os actores Madaleno da Fonseca e Virgílio Capomba representam os mendigos e a anã, representada pela actriz Bernardete Mu-kinda a fazer de Bispo, é digna de realce: a crítica social e a crítica da corrupção são frontais. Toda a peça é, na justa medida, grotesca e caricatural, o que nos contam não tem graça absolutamente nenhuma: dói ver aquelas personagens que vivem no submundo e a gerir as suas desgraças, sem ninguém saber muito bem o "porquê” do destino que o maniata.

Na peça de teatro "A Orgia” há uma série de episódios que não nos deixam indiferentes. Um deles é quando as personagens interpelam os espectadores: um par de binóculos servem para entre a chacota, os risos e os insultos, a obra trasvazar os limites do palco e ir ao encontro do público, no momento e lugar em que está a ser representada, um momento incómodo como muito dos momentos que vivemos, no nosso dia-a-dia, mas que, na peça, os actores sublinham comentando o que vêem e sabem sobre quem está na plateia.

Assistindo a peça de teatro dirigida e encenada cuidadosamente por José Mena Abrantes vem-nos à mente uma série de evidências, sobre a actual situação do nosso país. Sabemos que já houve tempos piores, mas ainda assim a bacanal não cessa: é só sair à rua para dar-se conta dos excessos, do viés orgiástico do nosso dia-a-dia, nas ruas, nos bairros, nos musseques e na periferia da cidade, em quase todos os sítios.

Quando decidimos ir ver a obra, nós não sabíamos que a frase "o teatro é uma maneira de ensaiar a vida” fosse do dramaturgo colombiano Enrique Buenaventura. No nosso caso, pensando bem, podemos dizer que o nosso dia-a-dia faz-nos pensar mais bem o contrário, "a (nossa) vida é uma maneira de ensaiar o teatro”.

Ir ao teatro é ainda um luxo que poucos têm, porque a vida não deixa outra escapatória: há muita gente abandonada e atirada nas valas comuns da vida, há muita gente perdida e a rastejar, há muita gente a fazer de conta que faz qualquer coisa, há muita gente ocupada em sobreviver, há muita gente a trabalhar e a dar no duro e a fazer tudo para que as coisas melhorem, mas, também, há muita gente disponível, com atitudes doentias.

Se isso fosse pouco, temos mais: há muita gente a oferecer-se para tudo e para nada, há muita gente a pedir tudo e mais alguma coisa simulando muitas vezes formas educadas, mas, noutras, nem se podem conter e o fazem com alguma veemência como se, face ao caos e a escassez, não houvesse outras alternativas. Há muita gente que adora este vai-e-vem, entre o bem e o mal da grande orgia da vida.

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