Opinião

A ONU e o sapato do camarada Nikita Krushchev

Manuel Rui

Escritor

Nações com sede em Genebra, no intuito principal de preservar a paz, o mundo adormeceu sem adivinhar os pesadelos dos nossos dias. Genebra tem para nós um sabor a colonialismo porque foi nesse lugar que os “outros” repartiram África.

30/09/2021  Última atualização 06H00
Esta Sociedade das Nações tinha um Conselho Executivo integrado pelos vencedores  que, em boa verdade seria o pai do actual Conselho de Segurança da ONU.

A Sociedade não logrou os seus objectivos de garantir a paz mundial, assim, por mor do alemão Hitler aconteceu a 2ª Guerra Mundial com episódios que hoje o cinema regista,  lembro-me, por exemplo, de "o pianista,” mas há outros registos como o daquele soldado objector de consciência que foi obrigado a ser socorrista e a andar sem arma e virou herói por salvar companheiros.

Lembro-me que em Nova Lisboa, meus colegas e amigos, Faria e Artur Miguel, me contarem os filmes de guerra que eu não via, também se ouvia a rádio portuguesa com o correspondente de guerra,  Fernando Peça, uma figura icónica que eu tive a oportunidade de o ver, em Lisboa, já idoso, num restaurante onde só ele tinha direito a guardanapo de pano.

A 2ª Guerra Mundial era o resultado das feridas da Alemanha derrotada. Os países de ideologias autoritárias como o nazismo de Hitler, o fascismo de Mussolini em Itália e ainda o Japão com Hirohito, integraram aquilo a que se chamou o Eixo. Foi preciso a bomba atómica para que o último reduto do eixo, o Japão, se rendesse. Aí, logo em 1945, é fundada a Organização das Nações Unidas, em S. Francisco, nos Estados Unidos.

Agora, aquele Conselho da Sociedade das Nações era substituído pelo maquiavélico Conselho de Segurança integrando a China, Estados Unidos, França, Rússia e Reino Unido. A particularidade é que devendo a ONU ser um órgão de salvaguarda da democracia, nada podem valer as resoluções da Assembleia Geral pois qualquer dos membros do Conselho pode vetar. E foi assim, por exemplo, que  resoluções contra o colonialismo salazarista não passaram. Outra novidade foi o braço armado da ONU.

No entanto, nunca os inventores da ONU haviam de pensar que se pudesse desobedecer às suas decisões como no caso da invasão ao Iraque pelos Estados Unidos.

A última e mais recente Assembleia teve discursos e presenças a registar para o avanço da humanidade e um só caso anedótico do negacionista Presidente do Brasil. Na ONU não se pode entrar sem estar vacinado contra a pandemia mas o brasileiro "furou”…  o Sec. Geral é português, não esquece que o rei bazou com os bolsos engordurados com as cochas de galinha que ele comia esfomeadamente. O brasileiro não podia comer em restaurantes e foi apanhado a comer na rua e bom apetite.

Agora, importa referir o discurso de João Lourenço. Um discurso nacional, continental e universal. Nacional na medida em que postou a forma como Angola se situa, continental porque referiu África como vítima das desigualdades e pouca representatividade nos órgãos da ONU não omitindo a exigência da libertação do ex Presidente da Guiné, tendo implícito a oposição a golpes de Estado tão frequentes em África. Universal porque defendeu a paz e o combate pela melhoria do ambiente.
Para além da sua intervenção, o Presidente de Angola, desdobrou-se em contactos, foi galardoado, obteve boas referências na imprensa e "descobriu” negros americanos descendentes de escravos idos de Angola e convidou os a virem cá.
Emociona me a ideia de que, qualquer um de nós, pode ter a mesma remota ancestralidade desses descendentes daqui. Era bom que viessem com blues para o Belo organizar um recital. Tem coisas que só tem um lado. Quando Angola ganha somos todos. Esta honrosa representação de Angola na ONU merece o consenso nacional.

Outra intervenção de registo, por vídeo, foi a do Presidente sul africano Cyril Ramaphosa quando chamou a atenção para o facto de se comemorar o 20º aniversário da Conferência Mundial de Durban contra o Racismo como instrumento base para eliminar o racismo e outras formas de intolerância, o sexismo, a xenofobia, homofobia, "rebaixa-nos a  todos.” O Presidente sul-africano alertou para as mudanças climáticas, a paz e a segurança e a proteger os mais marginalizados. E com coragem disse:
"Acima de tudo, devemos fechar as feridas da pobreza, da desigualdade e do subdesenvolvimento que estão a impedir as sociedades de realizarem todo o seu potencial.”

Ainda afirmou a solidariedade para com Cuba e, curioso para quem se lembra,  parece que Ramaphosa se inspirou no célebre discurso que Fidel Castro produziu na ONU. Ambos tocando as mesmas questões e com uma poética que merece a minha lembrança e a minha vénia.

Antes, porém, todavia, contudo, as preposições da ONU, com ou sem capacetes azuis, é um pântano que necessita de ser despoluído até que haja igualdade entre os países que a integram num tempo em que até se fala em facada pelas costas por causa de submarinos atómicos para a  Austrália servir de tão pão contra a China…

Penso e recordando o "tavariche” Nikita  Krushchev que na ONU, visivelmente irritado, com as faces vermelhas, tirou o sapato para batendo com ele na mesa várias vezes para calar quem ofendera o seu país.
É preciso mais sapatos na ONU.

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