Opinião

A nova cena literária angolana (1)

João Melo

O que está a suceder presentemente no domínio da literatura em Angola? É o que me proponho a apresentar, de forma resumida, nesta semana e na próxima. O período a que pretendo circunscrever-me são os últimos vinte e dois anos, isto é, do ano 2000 até hoje. A nova cena literária angolana, portanto, corresponde, em termos temporais, à literatura do século 21.

21/09/2022  Última atualização 06H00
No artigo de hoje, falarei dos autores que começaram a publicar no início do presente século, independentemente do ano em que nasceram e do país onde vivam (em Angola ou na diáspora). O jornalista Isaquiel Cori, editor do Jornal de Angola, levanta uma dificuldade para proceder a um levantamento rigoroso a respeito, pois muitos dos novos autores, se não mesmo a maioria, tem publicado os seus livros em edições do autor, que nem sempre chegam ao conhecimento do público tradicional. Note-se que isso deve-se, entre outros factores, ao declínio das editoras em Angola. Além da publicação por conta própria, os jovens passaram a usar igualmente as redes sociais, sobretudo o Facebook, para divulgar as suas produções.

O desejo de publicação a qualquer custo e de sucesso imediato – note-se - é um traço comum à grande maioria dos escritores ou candidatos a escritores desta geração, o que não deixa de ser um sinal dos tempos neoliberais que vivemos no mundo. Isso é nefasto para a literatura, explicando a tendência para a superficialidade e a ligeireza da maioria dos livros publicados recentemente pelos referidos autores, divididos entre uma certa literatura cor de rosa e apressadas obras "inovadoras”, caracterizadas por um formalismo inócuo. Os já mencionados casos de plágio são fruto também desse afã de publicar e de alcançar o êxito a toque de caixa.

Entre os novos autores publicados a partir do ano 2000, e daqueles que li, o meu preferido, à larga distância dos demais, é o poeta Nok Nogueira, seguido de Adriano Mixinge, historiador de arte e escritor (devia escrever mais). Para elaborar este texto, entretanto, realizei uma breve consulta a um pequeno grupo de escritores e editores locais e parece haver uma coincidência em torno dos seguintes nomes: Nok Nogueira, Gociante Patissa, João Fernandes André, Adriano Mixinge, Job Sipital, Mwene Vunongue, Tchiangue Cruz e Benjamim Mbakassy.

A esses nomes de autores habitualmente residentes e publicados em Angola, junte-se, necessariamente, os nomes de autores angolanos residentes no estrangeiro e que também começaram a publicar no novo século: Djaimilia Pereira, Kalaf Epalanga e Yara Monteiro, que dispõem de outras condições de trabalho, divulgação e acesso ao mercado, inclusive internacional.

Uma nota final impõe-se, para realçar um ponto que tenho levantado habitualmente: a necessária e intrínseca relação entre educação e literatura, para o surgimento de novos valores literários em Angola. A degradação do Sistema Nacional de Educação, sobretudo desde os princípios dos anos 80, impede objetivamente o surgimento e desenvolvimento de novos valores literários, comparáveis àqueles que integram a primeira e talvez a segunda geração pós-independência. Têm surgido, é verdade, alguns nomes promissores, mas uma, duas ou apenas três andorinhas não fazem a primavera.

De facto, como pode a literatura (e as artes em geral) florescer, num quadro de rebaixamento qualitativo do sistema educacional, a partir do ensino primário, de escassez de livros e de livrarias e de oferta cultural em geral, incluindo o desconhecimento ou falta de acesso ao que se produz no exterior? Obviamente, apenas um bom nível académico não faz um escritor (é preciso um ambiente cultural propício, experiência de vida e, sobretudo, talento criativo, algo que nem toda a gente possui ou é obrigada a possuir). Mas, repita-se, sem boa formação académica e sem cultura geral, nada feito.

 

* Jornalista e escritor

Comentários

Seja o primeiro a comentar esta notícia!

Comente

Faça login para introduzir o seu comentário.

Login

Opinião