Opinião

A necessidade de valorização do professor como interventor social de excelência

Filipe Zau

Jornalista

Em era do conhecimento, frequentemente se fala da necessidade de os sistemas educativos, nos seus três níveis de aprendizagem e nas diferentes vertentes de formação, terem de abranger um número cada vez mais vasto de crianças, adolescentes e adultos de ambos os sexos.

13/10/2021  Última atualização 09H40
Nos dias de hoje, com o desenvolvimento da sociedade de informação, o sistema educativo contemporâneo passou a estar desajustado da actual situação de mudança. Como resultado desta brusca aceleração, John Naisbitt, em «Macrotendências», aponta alguns sinais, que reflectem esse mesmo desajustamento, dos quais apresento os seguintes exemplos:

Nos EUA, em 1983, o relatório da Comissão Nacional para a Qualidade do Ensino, significativamente intitulado «Uma Nação em Risco», refere que "a presente geração, de finalistas do liceu, é a primeira na história da América a concluir o curso com menos conhecimento do que os seus pais”. Em consequência do desajustamento do sistema educativo em relação à mudança, nos princípios da década de 80, as estimativas do número de analfabetos funcionais nos Estados Unidos variava entre 18 e 64 milhões.

De acordo com esses estudos, esta numerosa população não sabe ler nem escrever suficientemente, nem fazer cálculos simples que lhes sirvam minimamente para a sua vida quotidiana. As taxas de absentismo e abandono no ensino secundário aumentam dramaticamente a partir dos anos 70, tendo como consequência um afluxo crescente de jovens à procura do primeiro emprego, impreparados para um correcto desempenho das tarefas exigidas na vida activa. Para agudizar a crise, há invasão dos postos de trabalho pelos computadores, obrigando os titulares a uma familiarização mínima com estas ferramentas da sociedade de informação. O sistema educativo não conseguiu responder ao mesmo ritmo, correndo-se sérios riscos de estar a criar uma geração de analfabetos informáticos.

Esta dicotómica situação provocada pela aceleração da mudança e já constatada nos EUA existe também em outros países, tal como testemunha o relatório anual de 1999 da UNICEF: "Cerca de 1.000 milhões de pessoas vão entrar no século XXI sem os conhecimentos necessários para ler um livro ou assinar um nome, e muito menos para manejar um computador ou compreender um simples formulário. (São analfabetos funcionais do mundo e o seu número é cada vez maior. "Apesar da Declaração Universal dos Direitos Humanos, com 50 anos de existência e da Convenção sobre os Direitos da Criança de 1989, cerca de 855 milhões de pessoas – perto da sexta parte da humanidade – serão analfabetos funcionais nas vésperas do novo milénio.”

Esta diminuição de qualidade do ensino que se verifica um pouco por todo o mundo, quer ao nível primário, quer ao nível secundário dos diferentes sistemas de educação, reflecte-se, obrigatoriamente, de forma negativa nos processos de acesso ao ensino superior, mesmo quando são criados filtros, que procuram garantir um nível de qualidade adequado aos diferentes cursos das Instituições de Ensino Superior, sejam elas públicas ou privadas. Para uma melhor análise e contextualização dos problemas ligados aos processos de inclusão e avaliação do ensino superior em África, optei por dar a conhecer as conclusões da Reunião Regional Preparatória da Conferência Mundial sobre o Ensino Superior, realizada em Dakar, em Abril de 1997.

Neste fórum foram identificados onze problemas, que definem a chamada crise estrutural e conjuntural do ensino superior em África: parcos recursos financeiros e desequilíbrio entre orçamentos destinados a obras sociais e os orçamentos alocados ao ensino e à pesquisa; deterioração das infra-estruturas e falta de manutenção; remuneração insuficiente do corpo docente e dos investigadores universitários; desequilíbrios entre as capacidades instaladas e o aumento do número de estudantes; desequilíbrio entre a actividade de ensino e a actividade de pesquisa (em detrimento da última); desequilíbrio entre o número de estudantes da opção científica e tecnológica e os da opção humanidades; orientação dos programas de ensino fazendo ênfase na transmissão e restituição dos saberes em detrimento do saber-fazer e da resolução dos problemas prementes da sociedade; planos de estudo desajustados e duração demasiada do tempo das épocas de exames; insuficiência de planificação e da gestão provisional das actividades de ensino superior e da investigação; ausência ou insuficiência de formação pedagógica dos docentes e da formação em gestão universitária dos corpos directivos e responsáveis administrativos das instituições de ensino superior; desequilíbrio no género, com prevalência de estudantes do sexo masculino.

Não há ensino de qualidade, nem reforma educativa, nem inovação pedagógica, sem uma adequada formação de professores”, diz-nos António da Nóvoa, em «Os professores e a sua formação». Também não basta ter uma boa proposta curricular, estabelecida em toda a sua verticalidade e horizontalidade para os diferentes cursos a leccionar e ter docentes muito doutos do ponto de vista epistemológico, se do ponto de vista pedagógico e ético-profissional os mesmos não revelarem ser bons profissionais da docência.

Nos países em desenvolvimento, como é o caso de muitos dos países africanos, apesar do importante papel que o professor representa como interventor social de excelência, o défice de professores/formadores, quer em número, quer em qualidade, é gritante, porque, para além de mal remunerado, é, lamentavelmente, pouco reconhecido. Daí que os países africanos percam, todos os anos, grande parte dos seus técnicos docentes, frustrados pelo baixo nível de salário.

* Ph. D em Ciências da Educação
 e Mestre em Relações Interculturais

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