Cultura

A mulher que liderou o movimento “antonianismo”

Rui Ramos

Jornalista

Kimpa MVita, Beatriz nasceu em Kibangu, no então Reino do Kongo, uma região montanhosa localizada na actual República de Angola, por volta de 1684. Pouco se sabe do seu núcleo familiar, mas ela cresceu durante um período de fragmentação e guerra civil.

31/07/2022  Última atualização 13H38
© Fotografia por: DR

Havia relativa estabilidade do Reino do Kongo no século XVI devido à invasão portuguesa para o sul de Angola nos anos de 1660, após a vitória na Batalha de Mbwila (1665). No final do século XVII, o antigo Kongo estava dividido e disputado por linhagens. O pai de Kimpa MVita serviu como oficial no exército do Rei Álvaro X, um dos pretendentes na disputa política. No meio deste quadro político caótico, ela ganhou fama devido às suas visões. De acordo com o capuchinho italiano Bernardo da Gallo (falecido em 1717), que falou com ela antes de ser executada, Kimpa contou-lhe ter entrado em transe espiritual no qual crianças brancas misteriosas vinham até ela e lhe davam um copo com alecrim.

Alguns membros da sua família consideravam que ela tinha um dom particular e devia ser a próxima nganga marinda, uma conexão divina do movimento religioso kimpasi que obteve muito apoio entre os congoleses da época.

Nos seus momentos de transe ela parecia incorporar o espírito de Santo António, motivo pelo qual os seus seguidores ficaram conhecidos como "Antonianistas”, e o movimento que ela liderou recebeu o nome de "Antonianismo”, movimento religioso de natureza sincrética: misturava elementos do cristianismo com práticas religiosas africanas.

Kimpa MVita dizia ser uma reencarnação de Santo António de Pádua e que tinha sido enviada para criar uma nova igreja no Kongo.

Afirmava também que Jesus era negro e que tinha nascido no Kongo. Em 1704, Kimpa MVita anunciou a necessidade de medidas no reino, dirigiu-se à corte e defendeu a mudança da capital do governo junto do rei Pedro IV do Kongo. Aconselhado por Bernardo da Gallo, este mandou prendê-la. Ela foi considerada herege e bruxa e, por influência dos frades capuchinhos, foi queimada viva em Julho de 1706, mas pensa-se que o seu bebé tenha sobrevivido.

A experiência mística e as consequências sociais do movimento "Antoniano” liderado por Kimpa MVita constituem episódios importantes do enraizamento do cristianismo na sua forma africana, antecipando diversas tendências dissidentes e formas locais posteriores de manifestação religiosa, como o Kimbanguismo e o Tocoismo. Ela é admirada e lembrada como líder espiritual e política até hoje. Kimpa MVita criou novas versões das orações "Avé Maria" e "Salvé Rainha". Mas esta era uma versão que não agradava à Igreja Católica.

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