Entrevista

“A morte do Presidente Neto marca o fim do cinema angolano”

Francisco Pedro

Jornalista

Natural do Bailundo, Afonso Salgado Costa é operador de câmara desde os primórdios do cinema angolano. Ele revela momentos ímpares em que registava as missões e intervenções do saudoso Presidente António Agostinho Neto, tanto no país como no exterior. Numa altura em que se avizinha o centenário do primeiro Presidente de Angola, o cineasta narra, também, aspectos da sociologia do cinema, sugere saídas para a nova geração dos profissionais da Sétima Arte, sem deixar de criticar a má conservação e a destruição do arquivo fílmico do período áureo do cinema, entre 1975/1985, que reunia factos inéditos da história política, económica, social, cultural, desportiva e até militar de Angola independente. Afirma que a morte de Neto acelerou, acentuadamente, a crise do cinema nacional...

03/10/2021  Última atualização 07H25
Cineasta Afonso Salgado Costa © Fotografia por: DR
Em 2022 Angola festeja o centenário do nascimento do Presidente Agostinho Neto. Há condições para a produção de uma obra cinematográfica mais abrangente, sobre a vida e obra de Neto?
Em 2019, tive uma reunião com Irene Neto, na Fundação Dr. António Agostinho Neto, em que fui convidado para produzir um documentário sobre o centenário do nascimento do Presidente Neto, por isso, a filha ofereceu-me oito cassetes sobre os feitos do pai.


Em resposta, informei que iríamos enfrentar um problema para fazer este filme. Perguntou-me qual? - Não temos arquivo! - Não têm arquivo? Estás a dizer isso a mim, Salgado Costa?
Condicionei: se a camarada Irene permitir, hei-de  telefonar para a  Cinemateca de Portugal. Fiz os primeiros contactos, os funcionários disseram que há muitas imagens de Angola, mas o preço por hora são uns tantos euros. Da camarada Irene Neto a resposta foi: "não temos dinheiro para isso”.
Sugeri solicitar imagens de países visitados por Neto, em África, como Tanzânia, Moçambique, Argélia, Marrocos, e em Portugal nos locais em que esteve preso, Aljube, Caxias... Fiz o orçamento, incluindo caches dos técnicos, atingimos quase meio milhão de euros. "Não temos dinheiro para isto”, foi a resposta que recebi. Como solução, optou-se pela redução das cenas para ficar mais barato.


O que admirava no Presidente Agostinho Neto?
A frontalidade. Se naquela altura fôssemos pedir para fazer um trabalho, com a seguinte proposta: "camarada Presidente, gostaríamos de fazer um documentário sobre a sua vida”. De certeza, iria responder: "- Ah, não!... Vocês agora estão preocupados com a minha vida, vamos nos preocupar com o país” (risos).


Que visão tinha Agostinho Neto sobre a Televisão?
Uma vez, o Presidente chamou a atenção de alguns membros do Comité Central, alertando que aparecer na televisão não era nada de especial, a pessoa que aparece não é superior, apelando ser mais importante saber o que irão dizer para os telespectadores.
Tivemos sempre o apoio do Presidente, incluindo o meu irmão mais velho, Carlos Sousa e Costa. Reunimos várias vezes, acompanhado do Chico Simons e o Manuel Berenguel, ambos da Rádio Nacional de Angola, e numa das reuniões Agostinho Neto disse-nos: "A primeira coisa que têm de fazer com muita força é apoiar a alfabetização, nós não podemos ter um país com tantos analfabetos, porque com analfabetos não vamos fazer nada em Angola”.

 
E que outras recordações guarda de Neto?

Acompanhávamos os encontros do Presidente Neto com os seus homólogos de Moçambique, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe, em que demonstrava ser um estadista preocupado com o cidadão comum. Havia momentos em que convivia quer com a nossa equipa, quer com a de informação, juntando escoltas e dirigentes. Nesses encontros, Francisco Simons (Chico Simons) contava muitas anedotas, agradava o Presidente. Perguntava se tínhamos carro, e queria saber dos nossos problemas. Era um Presidente com um perfil muito humano.
Custou-me a sua morte, sendo que as filmagens das suas intervenções políticas, culturais e sociais, foram, para mim, o grande momento do nosso cinema documental, o resto não sei. A morte do Presidente Neto marca a desgraça e o fim do cinema angolano!


Como registaram as exéquias do Presidente Neto?
Filmámos tudo, desde a chegada da urna ao país, no Aeroporto Internacional 4 de Fevereiro, ao cortejo fúnebre até ao Salão Nobre do Governo Provincial de Luanda. Milhares de pessoas não acreditava no que viam, ficaram conscientes, apenas, quando assistiram o filme documental sobre a morte de Neto, por causa do impacto das imagens de dirigentes e da população a passar para cumprimentar, enfim, aquelas situações de óbito, foi quando Angola de Cabinda ao Cunene acreditou na morte do Presidente António Agostinho Neto.
Além das nossas emoções, ficávamos emocionados ao vermos a reacção das pessoas. Registamos o luto a nível nacional, parecia que as pessoas estavam malucas, senhoras, mais velhos, jovens, enfim. Filmei depoimentos de mães ao pé da urna, cenas de mamãs a lamentar pelas ruas de Luanda, tivemos de ocultar algumas imagens porque o impacto era muito forte.


Foi fácil produzir esses registos?

Claro que não foi fácil filmar as exéquias do Presidente Neto, foi algo problemático. Nós do Laboratório e os da TPA, incluindo os fotógrafos, enfrentámos uma azáfama diária: ficámos de plantão a partir do aeroporto, depois no Governo Provincial de Luanda, muito antes de seguir para o Palácio do Povo. Foram 4 ou 5 dias de loucura, jamais pensávamos regressar à casa. Ninguém ousava em pedir ou tentar sair para ir em sua casa, jamais, pois toda a logística era garantida no local, as refeições (sandes), água e gasosa, nada de cerveja. A emoção foi de tal ordem que as pessoas perderam o norte.
Ficamos vários dias no Laboratório, sem dormir, para montar os documentários para serem emitidos, porque tínhamos cenas muito fortes, inéditas.
Naquela altura, afirmei que era o princípio da morte do cinema angolano, do próprio Laboratório e demais estruturas do nosso cinema. A partir daí começamos a não ter apoios, não se extinguiu de súbito,  não, foi lento. As produções já eram intermitentes, começamos a sentir que a coisa estava a morrer… E morreu!


O que se fez para inverter a triste realidade?
Não acredito em fragilidades dos governantes, dos secretários de Estado da Cultura ou dos ministros da Economia que foram chamados a atender o sector. Para mim, as estruturas do cinema foram reduzidas a zero, naquela altura, de maneira intencional. Talvez alguma mente qualquer houvesse pensado: basta ter televisão e está tudo bem. Não basta, porque há regiões do país em que não há televisão, aí a solução é o cinema móvel, tal como se fazia em Moçambique. Por exemplo, em período de eleições, a propaganda pode ser feita através de projecções nas comunidades, e isso faz-se, também, com o arquivo de cinema, pois ajuda muitas vezes o trabalho ideológico.


Que importância atribui ao acervo cinematográfico do período monopartidário?

Os sociólogos estudam as mutações sociais e comportamentos para vislumbrarem soluções, socorrendo-se, várias vezes, de arquivos fílmicos. Por isso, as cinematecas servem de espaço onde se estuda a cultura dos povos, desde a maneira de vestir, alimentação, evolução das cidades, tudo isso faz parte das pesquisas absorvidas com base nos filmes. Aqui em Angola, tentou-se introduzir o cinema russo, checoslovaco, e polaco, têm excelentes filmes, mas não conseguiu atender aos anseios ou preferências dos cinéfilos, embora fosse visto, o público já estava habituado com o cinema norte-americano. Nem o cinema francês vingou. Podemos notar nas ruas, os jovens falam de rock, rap e hip-hop, de Rambo, fenómenos típicos da cultura ou dos filmes americanos.


Que leitura faz do cinema africano?
A Nigéria, inteligentemente, é dos países que mais filmes produz, e jamais chegaremos ao pé deles, porque infelizmente nós não copiamos as coisas boas. A Índia é a maior produtora de cinema no mundo, porquê? Os indianos perceberam que através do cinema conseguem dialogar com a população - mais de um bilião de pessoas. Estamos a espera de quê?
Se o cinema fosse prioridade em termos culturais ou mesmo políticos, pois no meu entender deveria ser uma prioridade, porque pode-se utilizar o cinema para governar de maneira estética, sem a necessidade do contraditório porque cinema é arte, diferente do jornalismo. Os politólogos sabem bem como é que se faz um filme. Reparem no cinema americano. A arte abre a mente de milhares de pessoas.


Os documentários "Jornal da Actualidade” são os maiores feitos da sua geração?
A marca do Laboratório Nacional de Cinema, naquela altura, era realmente o Jornal da Actualidade, única produção regular que gerava algumas receitas - dava dinheiro ao cinema. Trabalhávamos como órgão de informação ligados directamente ao DIP - Departamento de Informação e Propaganda do MPLA, sendo director o Tany Narciso, que nos dava todas as orientações. Nunca ninguém veio cá com censuras, nós filmávamos, fazíamos o Jornal da Actualidade, eram exibidos nas salas de cinema e também arquivadas no Partido, que nos pagava por esse trabalho, garantindo assim a continuidade desse cinema de feição documental. A exibição nas salas de cinema ocorria antes dos filmes em cartaz, do filme principal.


Dedicavam mais atenção aos factos de natureza política?
Não! Reportávamos tudo. Embora tenha sido a visita do Presidente Fidel de Castro o Jornal de Actualidade do qual se falou muito, aqui em Angola. Após a exibição no Cinema Restauração houve um forte alvoroço.
Revelar o filme, montar, manter o som e o colorido, conferiu uma arte exuberante ao filme, e o Presidente Agostinho Neto mais tarde felicitou-nos, porque, também, estava muito ligado ao cinema, quer dizer, percebia que era necessário, pois a TPA no interior do país não existia, era Luanda e pouco mais, eram poucas as províncias. Andávamos com os carros de projecção móvel, eram do DOR, depois passaram ao DIP.


Como conciliavam cinema documental com as emissões da então Televisão Popular de Angola?
A televisão "queimou” o cinema... Além dos problemas que nós desconhecemos houve uma disputa hegemónica entre televisão e cinema, o que é lógico! Com a independência recém proclamada, quem é que sabia gerir um país? Era muito complicado!
A televisão virou-se também para fazer cinema, um contrasenso, assim afirmavam, naquela altura, alguns responsáveis, e eu concordo, embora não percebesse nada daquilo, cheguei à conclusão de que nós podíamos complementar a produção feita pela TPA, que já dispunha de uma máquina de revelar positivo em película. Filmávamos e os negativos, depois de revelados pelo Laboratório Nacional, eram entregues à TPA para passar em positivo, porque só tivemos equipamentos para revelar a cores mais tarde. Apesar disso, começou uma disputa entre profissionais do Instituto de Cinema, do Laboratório de Cinema e os da TPA.


"Deixamos de ser patriotas”


Que memórias tem da Cinemateca Nacional?
O arquivo da Cinemateca Nacional guarda mais de 50.000 metros de película, entre jornais da actualidade, documentários artísticos, co-produções de ficção, e não sei o quê mais. É muita película, não é brincadeira.
Nas minhas visitas à Cinemateca, pedia ao Magalhães jornais da actualidade sobre a visita do Presidente Neto à Polónia, e à Jugoslávia, onde encontrou-se com o seu grande amigo, o Presidente Josip Broz Tito.
Andamos preocupados com comida, salário, isso é um facto, mas infelizmente a cultura não entrou na cabeça das pessoas porque não houve preocupação de se agarrar na cultura com força, fazendo dela um meio para elucidar – abrir - os olhos das pessoas, não se fez isso, matou-se a cultura. Fico muito irritado com isso, há uma coisa que nós angolanos andamos a esquecer: deixamos de ser patriotas!


O assunto arquivo não é recente?
Estive no quintal da LAC e zanguei-me, há três anos, estava lá um contentor com quase tudo o que nós fizemos. Uma das funcionárias da Cinemateca disse-me: Salgado, isto aqui dentro  não está menos de 40 graus, os aparelhos de ar condicionado não funcionam. E os humidificadores, estão aonde? – perguntei. Pedi que abrissem uma das latas, constatei que negativos e positivos estava tudo misturado e já cheirava a vinagre.
Lembrei-lhes que, não há recuperação possível de uma película de cinema que cheire a vinagre, não há hipótese nenhuma de recuperação. Portanto, as milhares de latas que estavam dentro daquele contentor foram todas para o lixo. Acabaram com a Cinemateca Nacional, porque oficialmente não existe desde 2017. Quem deu essa ordem deveria estar preso!


Na sua opinião, que solução para salvar o arquivo fílmico da época monopartidária?

Os governantes podem seguir o  exemplo de alguns países africanos, sobre acordos entre Estados. Por exemplo, com Portugal pode-se garantir contrapartidas, depois do processo de digitalização, dão-nos as cópias, o que  é restritamente angolano fica somente aqui no país.
Há muita imagem que a RTP tem, além da do tempo colonial, da guerra colonial, incluindo de Angola independente, podem ser adquiridas desde que haja interesse do Estado angolano.
Sei que há angolanos que compraram a Tobis Portuguesa, mas o arquivo permanece em Portugal, compraram apenas as instalações, desejavam comprar o arquivo mas o Estado português não aceitou, é normal, é a demonstração de que o Estado está preocupado com o arquivo (memória nacional). Os portugueses se quiserem fazer um documentário a favor de Angola, contra Angola, fazem porque têm um vasto arquivo e nós não temos nada, porquê?
Não podemos ignorar que o arquivo de cinema (película) pode permanecer intacto mais de 100 anos, comparando com o digital ou da televisão, dura muito mais, contrariamente ao da televisão que, passados 30 anos, perde qualidade ou começa a extinguir-se.
Quando se fala da proclamação da independência, as imagens são as de película, por isso nota-se a qualidade cromática conservada. Está provado que a película tem, no mínimo, 150 anos de conservação e permite recuperações científicas, tanto do som quanto da cor e textura.


Quando se fala de cinema angolano, o que é relevante mencionar?

Alguém acabou com o cinema, alguém orientou, nem adianta dizer que foram os homens do IAC ou nós do Laboratório, é mentira! Não sei se é medo da Cultura, daquilo que o cinema pudesse dar ou se era um problema economicista, em que há quem defenda: "não podemos gastar dinheiro porque não sei quê”. Eu garanto que o dinheiro da Cultura gasta-se, mas recupera-se. Como é que querem que haja identidade patriótica, se não existe identidade cultural?


Do cine Miramar para embaixada da China. Que comentário faz?

Ouvi que será a futura embaixada da República Popular da China. Como assim? Há quem diga que se trata de uma sala privada. Pergunto: aonde estão os donos? Os donos eram "tugas”, "bazaram” todos e o Estado confiscou as salas de cinema.
Na minha óptica, o Executivo deveria fomentar emprego para jovens, nesses espaços, sem deixar de atender a sua natureza. Não tenho dinheiro, senão, garanto que arrendava o Miramar, compraria uma máquina de projecção pondo-a no circuito internacional, tal como fazíamos antigamente.


Saudades do Miramar, Restauração e outras salas de cinema?
Ir ao cinema estreita as relações interpessoais, implica uma certa conexão entre as pessoas que se juntam no vai e vem e sentam umas ao lado de outras. Conhecemos mais pessoas, conversamos coisas diferentes das do bairro, um mundo indispensável para o crescimento cultural. Cinema tem uma função que não é só espectáculo, sentar e ver filmes e acabou... No Karl Max, lembro-me ter ido com a minha mulher e as minhas filhas e no fim do filme levei bafos, porque aquilo não era um filme para crianças, embora não fosse pornográfico, tinha cenas muito aborrecidas...


Rui Duarte de Carvalho. Como caracteriza esse cineasta angolano?

Gostava muito do Rui Duarte, alguém muito difícil, extremamente difícil, mas era uma pessoa honesta. Era muito avançado, quer dizer, era avançado para Angola, no pensamento. Tinha uma maneira de pensar profundamente, diferente de nós. Estava muito avançado, por isso as pessoas não o compreendiam muito bem, e chegou numa fase em que decidiu não falar de cinema.


Conhece as razões para Rui Duarte negar, eternamente, falar de cinema?

Queimaram-no. Foi assim que o Edmundo Gonçalves dizia. Não posso revelar, agora, não é cordial da minha parte entrar em pormenores. Tenho dito que no cinema e na televisão há muita inveja, muita intriga, no jornalismo também. Quando estamos a fazer um trabalho, há sempre um pássaro ali ao lado, pronto a estragar...


Tem algum ídolo neste campo, de câmara-man?
Um mexicano considerado o melhor operador de câmara do mundo, há muitos anos... era um grande craque, além de filmar, era craque na maneira de pensar tecnicamente, inclusive na interacção com realizadores e montadores. Muitas vezes contrariava os realizadores opinando no que resultava e não resultava, é deveras importante as pessoas saberem o que devem fazer.
Gostava muito do Santiago Alvarez, vi vários trabalhos dele e quando pretendo rever entro no Youtube para ver a maneira de trabalhar, além da personalidade dele.


Como caracteriza a arte de filmar?
Filmar uma pessoa é diferente de filmar um boneco. O operador de câmara tem de ir com a câmara, penetrar na boca e chegar ao coração. Não é fazer bonecos, não é entrar com a câmara no interior do homem, pelo contrário, as pessoas jamais irão entender a mensagem que se pretende e obter respostas. Não se resume ao desejo de fazer um filme, o cinema impõe uma arte complexa.


Que análise estética faz das produções do vosso tempo?
António Ole tem produção boa do ponto de vista estético. É um dos melhores realizadores angolanos, aliás, basta ser o excelente pintor que é. Asdrúbal, um realizador muito realista, e muito crítico naquilo que pretende fazer, a chamada de atenção com as imagens que selecciona, o tema, enfim. Aliás, ele tem um filme que foi proibido, até hoje. "Filhos da rua” foi proibido na época monopartidária e isso o deixou muito aborrecido. Tentei com o director do DIP pôr o filme cá fora mas sem efeito.


Quais foram as razões da censura a "Filhos da rua”?
Se vocês virem o filme, darão conta do que acontece hoje com as crianças de rua, hão de perceber esse fenómeno e a sua origem. Se as pessoas tivessem visto o filme facilmente iriam perceber como travar, essa é a visão crítica ou chamada de atenção do Asdrúbal. Crianças a dormirem ali na Maianga, dentro dos esgotos, não é de hoje. Não entra na cabeça de ninguém, este país não tem que ter crianças assim, não tem!


Na vossa época havia muita censura?
Um colega, o Fernando, fez quatro projectos de filmes documentais, sobre a cultura Cabinda, teve censura e não consolidou o projecto, proibiram-no. O Instituto de Cinema cortou! Embora ele não fosse controverso em questões políticas, era uma pessoa calma, um pouco esquisita. Questionava se eu era capaz de perguntar ao director porque motivo  não o deixavam fazer os filmes em Cabinda. Com receio, preferi não perguntar para evitar ouvir bafos. Infelizmente qualquer partido, em quase todos os países africanos ou não, politizaram demasiadamente as pessoas, um problema que continua até aos nossos dias.


Os governantes temem os artistas ou a arte?

Através da arte conseguimos abrir a mente de muita gente e politicamente isso não interessa. Há países que dizem "fique lá quieto com isso”. As pessoas acham que a arte é chegar ali num prédio e fazer um rosto de um soba ou rei, não é.
Há muitas maneiras de fazer arte, infelizmente não temos muito conhecimento sobre arte. Não é o africanizar o país, no sentido negativo, é africanizar no sentido positivo.


Que conselhos para as novas gerações?
Se querem avançar, comecem devagar, com documentários sobre turismo, por exemplo. As embaixadas podem pagar (comprar) documentários bem feitos, e pô-los a circular nos seus países para incentivar o turismo em Angola.
As pessoas conhecem Angola por causa da guerra. Vejo hoje, no National Geographic, a Segunda Guerra Mundial, claro sob o ponto de vista americano, porque percebemos que cada uma das partes vinga o seu ponto de vista. É uma realidade, é a tal colonização mental imposta pelo cinema.

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