Entrevista

“A moda é uma arte nem sempre percebida por todos”

Ferraz Neto

Jornalista

A moda é uma arte e também uma ciência. Na busca do bem-vestir, diversos são os criadores que procuram inspiração nas próprias vidas, mas também na história e tradições de um povo. É o caso da renomada Nadir Tati. Com as suas criações Nadir Tati já girou o mundo em representação de Angola e de África.

20/03/2022  Última atualização 10H45
© Fotografia por: Edições Novembro
Com personalidade forte e voz assertiva, a estilista concedeu ao Jornal de Angola a entrevista que a seguir se publica, em que revela algumas das suas convicções. "Eu amo moda! Adoro o meu trabalho e faço moda quase de olhos fechados. Gosto deste universo. Gosto de cores, de texturas e acima de tudo gosto muito de conhecer pessoas diferentes”, diz. Ela que no exterior é também conhecida como "a estilista que veste as primeiras-damas” acrescenta: "A marca Nadir Tati é a marca de Angola. (...) É marca que espelha as nossas raízes, a nossa história e os nossos valores”

 Estamos em Março. Nadir Tati, que palavras tem em especial para a mulher angolana?

Março mulher, Março... mês de reflexão para todas nós. Deve ser sempre visto como um momento de mobilização para a conquista de direitos da mulher e assim avaliar as discriminações e a violência moral, sexual e física que muitas mulheres sofrem diariamente.

 Fora de Angola é conhecida como a estilista que veste as primeiras-damas...

É uma honra poder mostrar o nosso trabalho e passar por momentos que elevam os nossos desafios ao mais alto nível e  ao mesmo tempo fazem com que a exposição e o acesso à Primeira-Dama chegue, de alguma forma, a todas as mulheres do mundo, em particular a mulher africana, a mulher angolana. Quando falamos da Primeira-Dama, estamos a falar da mulher mais importante no país e com muita exposição. É importante que a mensagem chegue a todas as mulheres e que elas gostem e se identifiquem com o trabalho.  A beleza das roupas é importante, mas mais importante ainda é a mensagem que ela carrega nas roupas que são repletas de histórias e de valores do nosso continente. O corte, o design, as cores e a personalidade de cada uma das primeiras-damas tornam os meus momentos únicos e de muito valor. Agradeço a oportunidade que me foi dada pela ex-Primeira-Dama Ana Paula dos Santos e a ex-Primeira-Dama Ana Dias Lourenço. É uma honra!

 
O que a levou ao universo da moda?

Eu amo moda! Adoro o meu trabalho e faço moda quase de olhos fechados. Gosto deste universo. Gosto de cores, de texturas e acima de tudo gosto muito de conhecer pessoas diferentes. Por ter vivido em vários países do mundo a abertura que tenho com as pessoas leva-me a viajar pelas histórias e pela cultura destes países, especialmente, aqueles que me inspiram diariamente, como é o caso da África do Sul, do Togo, de Angola, de Cabo Verde, do Senegal e de outros países africanos que eu amo. Esta troca de experiência e de descobertas faz-me viajar pelas mentes que não conheço e daí a necessidade de pôr em papel o que me vem na mente. As artes em geral, desde a música, o design e a literatura africana são as minhas paixões.

 O seu trabalho se destaca por uma simbiose entre a cultura e o design, muito além de criação, pois mexe com as formas e o volume do corpo da mulher. Antes do início da carreira, qual foi seu primeiro contacto com a matéria-prima e o corpo?

Eu gosto de artes. Sempre estive ligada de alguma forma às artes e o meu olhar vai sempre para além do óbvio. Eu tenho uma mente única e uma forma de ser e de estar também única. Quando éramos pequeninos fomos incentivados a ler e aprendi a escrever muito cedo. Antes de ir para a escola eu já sabia ler e queria ser professora. O que veio a acontecer aos 18 anos. Fui  professora do ensino especial. Com menos de cinco anos estava na água a nadar e mais tarde fui nadadora da selecção nacional. Esta paixão pelo corpo e pela alma, numa mistura de tecidos e cores, veio desde o momento que descobri o valor e a beleza da mulher. Adoro criar especialmente para elas. Sinto que a mulher africana não deve ter medo nem vergonha de mostrar a beleza do seu próprio corpo. As nossas tradições mostram que ano após ano elas ficam mais vaidosas e mais atentas à necessidade de vestirem o que as identifica.


Quanto tempo, em média, demora uma peça elaborada para ser produzida?

Trabalho primeiro no conceito. Logo a seguir no design e nas cores. No fim a compra do material e só depois é que vai para a área de produção. Se for uma colecção pode levar 5 dias ou 5 meses. Depende muito da dinâmica e do meu estado de espírito. É sempre importante termos paz e um sossego total, principalmente no processo criativo. Não se pode criar num ambiente que não seja propício. A história que se quer contar deve ser estudada com a mesma importância e com o mesmo dinamismo. A valorização dos tecidos e a escolha deles acabam sempre por determinar o nível de um bom estilista.

 Hoje o nome Nadir Tati é conhecido nacional e internacionalmente pelo seu trabalho, pelo DNA forte. Uma peça da Nadir é facilmente identificável. Depois de quanto tempo, nesses anos todos, acha que atingiu o topo?

O mais bonito e o mais importante nesta caminhada é o facto de as pessoas conhecerem o trabalho sem muitas apresentações. Quando o nosso trabalho fala por si é um bom sinal. É sinal que estamos no caminho certo e que conseguimos chegar e convencer os nossos clientes da nossa presença. Não precisa de estar estampada ou pintada com o nosso nome. A etiqueta pode estar bem escondida e ainda assim chegamos lá! Este sim é o ponto mais alto.

 A moda em Angola e a nível mundial tem passado por muitas mudanças e transformações. A tecnologia tem mudado a forma de viver e vem criando novos hábitos. Como têm sido estes anos marcados pela Covid-19, para quem vive da moda, num momento em que se fala pouco de criação e muito de resultados?

Foram dois anos interessantes para o mundo todo. Não foi só para os designers, mas para todo o mundo. Tivemos todos que nos reinventar, a todos os níveis. Foram anos de retrospecção porque, durante este tempo, tivemos mais tempo para descobrir outros talentos e desta forma criarmos mais opções e melhorarmos a nossa forma de actuar. Foi um momento de crescermos como seres humanos e avaliarmos as nossas capacidades. Falar em pandemia significa perda de seres humanos. E muitas famílias foram afectadas diariamente. As grandes empresas, especialmente as do sector têxtil, sofreram uma baixa de mais de 70 por cento, o que significou o encerramento de muitas lojas. E, consequentemente, o desemprego aumentou.

 A indústria do casamento, definitivamente, voltou a ser algo importante na vida das pessoas. Os noivos actuais sugerem roupas feitas por estilistas nacionais. Como vê a relação moda e casamento?

Estamos numa era de reconhecimento e de atenção aos nossos valores e a toda a história que cada um de nós, orgulhosamente, carrega. Queremos ser respeitados como africanos e é nossa responsabilidade falar do nosso continente, falar de nós, falar da nossa cultura e dos nossos valores. Casamentos e noivados acontecem todos os dias e cada vez mais os nossos clientes querem mostrar e contar através dos tecidos a sua história.

 
Da Sociologia Criminal – que é a sua área de formação, para os acessórios de moda... Conte como tudo aconteceu e diga o que mais pesou na sua  decisão em relação a isso...

A sociologia e a criminologia são ciências que me dão a base para todos os trabalhos que faço diariamente. Uso as duas como complemento e como base para defender o meu trabalho.

O direito das crianças é o meu maior desafio. Elas não têm voz e todos os dias assistimos à violação dos direitos das crianças em todo o mundo.  A minha formação e todo o trabalho que fiz até hoje, desde os pequeninos que ficam completamente desprotegidos nas zonas turísticas das maiores cidades do mundo como Cancun, Acapulco, Johanensburg, e aqui em Luanda principalmente, cidades por onde trabalhei e  fizeram de mim um ser humano diferente. Fazer o bem e garantir o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social da criança é um dever nosso, pois elas representam o nosso futuro.

Abraçar a moda é apenas um hobby momentâneo ou definitivo?

Não pode ser momentâneo o que fazemos com disciplina, com rigor, amor e muitas horas de sacrifício. A marca já esta bem fixa!

 Como nasce a marca "Nadir Tati”?

A marca Nadir Tati é a marca de Angola. É a marca dos angolanos. É marca que espelha as nossas raízes, a nossa história e os nossos valores. Surge pela necessidade de fazer a diferença no mundo. A valorização e a expansão da moda e da arte pelo mundo.

 
Tem exposto o seu trabalho em vários eventos em diferentes partes do mundo. Pode citar alguns e dizer qual tem sido a resposta do mercado em relação aos seus produtos?

Zâmbia, Botswana, Quénia, São Tomé e Príncipe, Tanzânia, Moçambique,  África do Sul, Macau, Espanha, Portugal, México, Estados Unidos, China, Itália, Alemanha, Coreia do Sul e outros países ja viram de perto os nossos desfiles. A expansão da marca Nadir Tati é muito grande. Criamos um dinamismo e um respeito enorme por este continente que muito amamos e valorizamos. 

A participação dos criadores africanos nos eventos na Europa ou nos Estados Unidos tem sido muito forte e tem ajudado na afirmação e contribuído para a economia de muitos países africanos. A moda é uma arte e nem sempre é percebida por todos! Os países que olham para a moda como uma alavanca para o crescimento das suas economias estão claramente a dar passos importantes e a fazerem uso de toda uma classe artística como um verdadeiro veículo para a captação de investimentos.

 A marca "Nadir Tati” é tipicamente africana, baseada em realidades, hábitos e costumes africanos. Além dos africanos, os seus produtos são também procurados por cidadãos de outras paragens?

Os produtos são feitos para todos, independentemente da religião ou nacionalidade. Somos internacionais e o objectivo é chegarmos a todo o mundo. Graças à internacionalização acabamos sempre por saber um pouco mais sobre este universo da moda. As relações entre os que produzem moda e os consumidores deve ser sempre muito próxima. Vivemos num mundo de globalização e este é claramente o futuro.

 Também tem habilidades para o desporto, falo concretamente da natação, ténis e andebol. Fale-nos destas suas facetas como desportista?

Fui nadadora da seleção nacional. Nadei desde os meus 4 anos e não sabia fazer outra coisa. Gostava muito de nadar e sempre com o objectivo de melhorar os meus tempos. A primeira viagem com a natação eu só tinha 11 anos e fomos aos campeonatos africanos em Harare, no Zimbabwe.

Hoje dedico o meu tempo também a jogar ténis. É um desporto muito completo, pois exige não só a parte técnica, mas precisamos sempre de estar em boa forma física. 

Será que é uma volta de atenção a sentidos emocionais que acaba reflectindo na moda?

Quando penso na moda e na forma como comecei, foi claramente uma mistura de sentimentos e emoções que precisavam de sair. Olhar para a mulher africana e olhar para o continente sem esta mistura de emoções é como se não existíssemos. Eu existo para falar de África. Este é o meu propósito! Existo para contar as nossas histórias através dos panos e da arte. Quem me conhece sabe que dificilmente me mantenho calada quando se trata da nossa valorização como seres humanos. A nossa riqueza no continente não é o petróleo nem os diamantes, mas sim as pessoas! Não existe um ser humano igual e por sermos todos diferentes cada um deve encontrar a sua missão nesta terra!

Senti que faltava nos desfiles internacionais mais sobre o continente africano! Mais sobre África e mais sobre os africanos. É um caminho que deve ser traçado  e defendido por nós, africanos, para a nossa própria estabilidade e defesa num universo tão complexo.

 Algumas vezes recorreu às redes sociais para manifestar-se contra determinadas decisões políticas. As suas intervenções não lhe têm criado dissabores?

Sinto que, como qualquer cidadão nacional, é um direito e um dever exprimir o que me vem na alma. Falo muito sobre questões relacionadas com os jovens e o futuro do país. Olho sempre para este quadro com alguma atenção e responsabilidade. Falar de Angola significa falar de um povo que precisa de paz e de estabilidade. A nossas acções não devem ser vistas isoladamente, mas sim como um todo! Angola precisa de todos os Angolanos.

Fale-nos do contrato entre a marca sul-africana e a renomada artista e designer Carrol Boyes?

A Carrol Boyes é uma marca sul-africana com bastante reconhecimento a nível mundial.  É responsável pela produção de peças de arte com um design único e muito exclusivo. Fui convidada a assinar uma edição especial de vinhos em Cape Town, preparada exclusivamente para a altura do natal e foram oferecidas algumas prendas aos clientes da marca Carol Boyes. Foi com muito orgulho e respeito entre artistas do mesmo continente que mostramos ao mundo as nossas artes. Infelizmente ela já não se encontra entre nós, mas a sua arte continua a brilhar desde a África do Sul passando por Berlim até Nova York.

Como é que foi possível levar a sua marca ao palácio da Rainha Isabel II, de Inglaterra?

Chegamos ao palácio da Rainha da Inglaterra pelo Excelentíssimo Sr.  Embaixador Nunda.  Foi um momento bonito e de afirmação do  nosso continente. São estes momentos que nos levam a questionar as nossas decisões em avançar ou recuar. Adoro a ideia de avançar e de não parar! Merecemos muito mais e a nossa cultura não deve ser escondida mas sim apresentada nos momentos certos. Antes de falarmos, a forma como nos apresentamos diz muito sobre nós!

O elevado custo de vida tem levado a que muitos angolanos se socorram de roupas do fardo ou de criações de alfaiates. Qual é a sua visão em relação ao uso do fardo em detrimento das marcas nacionais?

Como em qualquer sociedade as pessoas são livres de fazerem as suas próprias escolhas e de tomarem as suas decisões. A roupa do fardo não pode ser vista como roupa inferior, muito menos as pessoas que decidem usá-las. Nas grandes capitais as roupas em segunda mão são vendidas em lojas e existem até ruas específicas para se comprar uma saia ou uma calça de marca mas  a um preço reduzido. De acordo com as condições financeiras da pessoa. Aqui penso que não seja diferente. É um mercado que existe e que responde a milhares de pessoas diariamente. As roupas de marca são sempre mais caras pela exclusividade e pela assinatura de um designer.

 Qual é a mensagem para quem sonha ser estilista?

Estude, prepare-se e seja muito disciplinado. Um verdadeiro estilista nunca é confundido.

 
Quantas distinções já recebeu e qual delas merece todo o seu respeito?

Ao longo da minha carreira tenho recebido muitos prémios e sou muito abençoada. Tenho um país que gosta de mim e do meu trabalho. Sinto este carinho de Cabinda ao Cunene e esta é a melhor sensação do mundo. O meu muito obrigada Angola..


Perfil

 
 Nome:
Nadir Luzianne Casimiro Tati

Filhos:
Sérgio e Yanick

Marca de perfume: Narciso Rodriguez

Marca de roupa: Nadir Tati

Marca de sapatos:
Sergio Rossi e Giuseppe Zanotti

Cor predilecta: Vermelho

Defeito: Teimosa

Prato preferido:

Arroz de tomate, peixe grelhado e saladas

Passatempo:
ouvir musica, ler e treinar

Local para férias: Santa Bárbara  e  Acapulco

Cidade Predileta:
Cape Town

Tem casa própria?:

Sim tenho

Tem carro próprio?
 Sim tenho

Sente-se realizada?

 Não. Ainda não. A vida é tão bonita. Viver é uma bênção, então vamos ter sempre coisas para fazer

Sonhos:

Continuar a trabalhar nos direitos das crianças
 

 

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