Cultura

“A minha universidade musical foram Os Jovens do Prenda”

Manuel Albano |

Jornalista

Diogo Sebastião Kintino nasceu a 20 de Setembro de 1964. Pessoa afável e comunicativa, a simplicidade e a honestidade são a sua marca. Amigo dos seus amigos, actualmente está com 57 anos de idade e 43 de carreira musical. Foi no Distrito Urbano do Sambizanga onde passou a infância. Sente-se orgulhoso de ter nascido na “República”, como prefere chamar ao seu distrito natal. E justifica: “para mim o Sambila é um espaço geográfico recheado de simbolismo histórico”

14/11/2021  Última atualização 08H55
Diogo Sebastião Kintino © Fotografia por: DR
Filho de Sebastião Kinguengo, natural da comuna de Muxaluando, sede do município de Nambuangongo e de Engrácia Agostinho Paulo, natural da Barra do Dande, aos 27 anos Kintino deixa a casa dos pais para viver sozinho e posteriormente formar família.

 Vive actualmente no município de Belas, na Zona Verde III, com a esposa Esperança António Neto, com a qual tem cinco filhos: Danilson, Dulcénio, Dorivaldo e os gémeos Deyse Sebastião e Deyse Esperança. Do seu primeiro relacionamento tem a Graciete e o Irailde.  Pelos caminhos da vida o guitarrista da Banda Movimento foi ainda abençoado com mais três filhos: Divaldo, Daniela e Diógenes.

Por respeito e para evitar divergências no lar, tem preferido não influenciar nenhum dos filhos a seguir a carreira artística. E também por "causa do estilo de vida bastante agitado e atribulado”. Porém, tem observado, nos últimos cinco anos, que alguns dos filhos vão se aproximando mais da música. Os gémeos Deyse e o Dorivaldo, por exemplo, segundo o guitarrista da Banda Movimento "vão mostrando alguma inclinação para a música”.

Os filhos mais velhos estão arrependidos de não terem aprendido a tocar guitarra, porque são constantemente cobrados nos ambientes familiares e de amigos, por serem filhos de um guitarrista consagrado.

Instrumentista e compositor, Kintino sempre que pode regressa às origens, no Sambizanga, para visitar os amigos de infância e familiares. Embora tenha o tempo milimetricamente cronometrado por "culpa” das actividades culturais e artísticas que consomem os seus finais de semana, ainda assim arranja sempre algum tempo para conviver e matar saudades do seu antigo bairro.
Kintino diz que tem boas recordações do Sambizanga, por ser o bairro onde apreendeu a educação de base. Com nostalgia lembra o tempo em que os vizinhos eram também família, "o pai e a mãe do amigo também eram nossos pais no processo educativo”.
 

Forjado nos bairros

No tempo do amor à camisola Kintino, ainda miúdo, juntamente com os amigos, começa a dar os primeiros passos na bola, nos grandes trumunos no antigo campo da Académica, no Sambizanga, onde reuniam-se para a peladinha até bem tarde, com ou sem chuva. 

Chegou a jogar futebol federado no Victória do Sambizanga, na década de 1980, com muitos amigos de infância que gostariam de o ver trilhar pelo mundo do futebol profissional. Os amigos naquela época, disse, o reconheciam pelas qualidades individuais únicas de um bom atacante esquerdo, que fazia da rapidez e dos dribles continuados as suas maiores qualidades em campo. A efémera carreira como futebolista foi interrompida muito cedo, em Agosto de 1983, devido ao cumprimento do serviço militar obrigatório.
Os caminhos da tropa fizeram-no desistir de muitos sonhos. Chegou ainda a jogar futebol com o actual director provincial de Luanda da Cultura, Turismo, Juventude e Desporto, Manuel Gonçalves, uma figura que, segundo disse "dispensa apresentações”.
 

Entrada na música

A entrada de Kintino para a música foi acidental. Assim que entra na tropa é encaminhado para a Direcção Política Nacional (DPN) das FAPLA. Lá, lhe é dada a possibilidade de entrar para a brigada artística "Comandante Njazi”, fruto da experiência artística adquirida em bandas amadoras de bairro na década de 1970. Na DPN ocupou o cargo de director artístico da brigada artística da banda denominada "Instrumental 1º de Agosto”, até a altura em que o grupo foi extinto, no dia 24 de Março de 1988, em consequência de um capotamento da viatura em que se faziam transportar, no Morro do Chingo, quando se dirigiam para o Sumbe para uma digressão inserida nas festividades do Carnaval. Devido aos prejuízos financeiros  e à destruição do equipamento de som o grupo encerrou a sua carreira.

Felizmente, explicou, o acidente de viação não provocou vítimas mortais. A banda era composta pelo Duo Canhoto (viola baixo), Joca (solista), Manico (ritmo e contra-solo), Je (ritmo), Miguelito (técnico), Lourenço (baterista), Aspirina (ritmo), Zé Mohunga e Benjamim (trompetistas), Zé Noy (comissário político) Chayco do Carmo e Lina (coristas), Zito (baixo), Mário (trompete e saxofone) e o próprio Kintino (contra-solo). Ainda como militar continua a trabalhar em projectos musicais individuais. Depois dos Acordos de Bicesse, em 1991, Kintino foi integrado no Ministério do Interior. 


Influências

Kintino sobe pela primeira vez num palco em 1 de Junho de 1977, Dia Mundial da Criança. Esta é a data que considera como o início da sua carreira como guitarrista. Foi num espectáculo realizado no Cine Karl Marx, com uma banda formada por Zé Abílio (viola) e Bangão (voz), ambos falecidos; André e Pedrito (percussão e voz), Man Chupa (percussão) e o falecido irmão mais velho Jesus (viola). Com a mesma banda participou em vários concursos infantis na TPA, com destaque para o programa "Futuro da Nação”.

Influenciado pelo pai, o mano mais velho e outros instrumentistas, que também tocavam viola, como o Guerra e o Louro (falecidos) e Nené, Kintino adiantou que foi aprimorando o dedilhado na guitarra com instrumentos rudimentares e utilizando as próprias guitarras para a percussão. E quando os grupos consagrados actuavam no bairro Brás, na rua do Centro Recreativo Cultural "Kudissanga Kuá Makamba”, disse, a banda era o suporte instrumental do cantor Bangão nas matinês.
Forjado pela escola da vida, Kintino afirmou que nunca passou por nenhuma formação musical. "A minha performance artística vem da escola da vida, de aprender com os outros”.

Integrou bandas de transição dos bairros como "Nzo Yami”, do mais velho Adão, dono da aparelhagem e de uma livraria. Fez parte do projecto "Progresso D’África”, do mais velho António de Caxito, onde Bangão era também vocalista.
O guitarrista Zé Keno, segundo Kintino, é a sua maior referência. Tem igualmente uma grande admiração pelos solistas Boto Trindade, Belmiro Carlos e Marito. 


A prenda dos "Jovitos”

No dia 31 de Agosto de 1988, Kintino é recrutado pelo percussionista e vocalista Gaby Monteiro para integrar o agrupamento Os Jovens do Prenda. O conjunto, lembra, ensaiava na Rua João Carand Langue, mais conhecida por Gajajeira, localizada no bairro do Marçal, na fronteira com o Ngola Kiluanji.
Como já tinham referências do seu trabalho, rapidamente foi integrado no conjunto. Embora miúdo, recorda, não teve dificuldades de integração. "Fui testado mesmo em palco, numa actividade. Tive que me adaptar e apanhar o ritmo dos colegas no decorrer dos espectáculos”.

Como já conhecia o repertório dos Jovens do Prenda, a sua integração foi fácil. Nos últimos cinco anos após a saída do solista Zé Keno - director-geral -, Kintino chegou a desempenhar essas mesmas funções.
Permaneceu na banda 11 anos. "A minha universidade musical são Os Jovens do Prenda. Foi lá onde me consolidei como instrumentista. Tenho um grande respeito pelo grupo e todos aqueles que deram o melhor pelo agrupamento e ajudaram-me a ser o que sou”, reconhece o guitarrista. 

 
Banda Movimento

Por altura do período de transição da economia planificada para a economia de mercado, os principais agrupamentos musicais, com destaque para Os Kiezos e Os Jovens do Prenda confrontaram-se com a redução das actividades artísticas e culturais. Nessa altura, houve o enfraquecimento e mesmo o desaparecimento de vários grupos musicais. Muitos artistas então começaram a arranjar outras formas de subsistência.

Clandestinamente alguns dos integrantes dos "Jovitos” faziam biscates tocando em festas e casamentos. Era o caso de Neto, Mingo, Romão e do próprio Kintino, que para esse efeito tinham formado a banda Ramalhão. No dia 2 de Março de 1999, foram incentivados, pelo actual administrador da Quiçama Fiel Didi, a formar a Banda Movimento. Fiel Didi na época dirigia também o Movimento Nacional Espontâneo. 


Tempos livres

Kintino procura, sempre que pode, partilhar momentos de lazer com a família. Estar sempre actualizado, ouvir notícias nacionais e internacionais, é, segundo disse, uma das suas formas de passar o tempo.  "Gosto de estar informado. Posso estar em casa somente a ouvir as notícias. Gosto de ser uma pessoa bastante actualizada sobre as dinâmicas da globalização”.

Quando tem tempo gosta de cozinhar e passar o testemunho aos filhos. Em casa, o feijão é uma "refeição de elite”, que nunca pode faltar na mesa. Kintino admite não ser um cozinheiro por excelência, mas gosta de partilhar experiências gastronómicas com os filhos sempre que a ocasião o permite. "Gosto de massas, peixes e verduras, não sou amigo do arroz e do frango”. O guitarrista da Banda Movimento disse que gosta muito de ler e que se considera um pai "galinha”.

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