Cultura

A mineralidade poética em Wasława Szymborska

Luís Kandjimbo |*

Escritor

A conversa que proponho hoje é, na verdade, um pretexto para falar das relações entre Angola e a Polónia. É uma versão sintética do texto da minha palestra, proferida em Março do corrente ano, quando a União dos Escritores Angolanos acolheu a iniciativa da Embaixada da Polónia, em homenagem ao primeiro Prémio Nobel de Literatura atribuído a uma poeta polaca que morreu aos oitenta e oito anos de idade.

05/09/2021  Última atualização 07H40
Poeta polaca Wasława Szymborska © Fotografia por: DR
Vou, pois, esboçar uma breve nota bio-bibliográfica sobre a poeta polaca Wasława Szymborska (1923-2012), na imagem, cuja escrita atrai a atenção de muitos admiradores angolanos. A mineralidade da sua poesia é um traço distintivo, expressão de um peculiar telurismo. A seu respeito a Academia Sueca, que lhe atribuiu o Prémio Nobel de Literatura em 1996, invocou as virtudes de uma poesia irónica cuja precisão permite que o contexto histórico e biológico se revelem em fragmentos da realidade humana.


Nota biográfica

Nasceu em 1923, em  Prowent-Bnin, Kornik. Até à sua morte, viveu sempre na Polónia. Foi na infância que passou a viver em Cracóvia para onde a família se mudou em 1928. Aí estudou letras e sociologia na Universidade guelónica.Aos vinte e sete anos de idade, tornou-se membro do Partido dos Trabalhadores Unidos Polaco (comunista). Mas em 1966, em protesto contra a exclusão do filósofo marxista Leszek Kołakowski, devolveu o seu cartão de membro do Partido.

Entre 1953 e1981 mantém uma colaboração regular no semanário literário de Cracóvia, "Życie Literackie” [Vida literária]. A partir de 1967 e até 2002, assinou a coluna literária intitulada "Palestras Opcionais”, tratando de livros que não suscitavam interesse da crítica de que resultaria uma colectâena de ensaios. Casou-se com o poeta, tradutor e crítico literário, Adam Włodek, em 1948. Divorciou-se seis anos depois. Voltou a casar em 1969 com o romancista Kornel Flipowicz, falecido em 1990. Um dos seus mais referenciados poemas, "Um gato num apartamento vazio”, foi escrito em homenagem à sua memória.

Wasława Szymborska tomou contacto com a realidade do chamado mundo capitalista ocidental quando, por força de uma bolsa desloca-se a França, em 1957. Em pleno regime comunista, envolve-se, sucessivamente, em actividades cívicas assinando memorandos dirigidos ao parlamento polaco, protestando contra a revisão da Constituição polaca que consagrou a aliança com a União Soviética e "o papel dirigente do Partido”, subscrevendo  a declaração inicial da universidade clandestina ligada ao Comité de Defesa dos Trabalhadores (KOR), o pilar da oposição democrática.


A Polónia em língua portuguesa

Quando a editora portuguesa Relógio d’Água, em 2006, publicou a edição portuguesa do livro "Chwuila” de Wasława Szymborska com o título "Instante”, em português, existia desde 1985, apenas um livro traduzido em português.
Nessa altura, encontrava-me a residir em Lisboa. Mas em 1996 quando correu a notícia da atribuição do Prémio Nobel de Literatura, não tinha lido um livro seu. Conhecia apenas textos poemas publicados em revistas.

Por isso, adquiri um exemplar e iniciei imediatamente uma leitura sistemática dessa poesia mineral e telúrica que vinha de um país com o qual Angola tinha mantido relações diplomáticas, económicas, políticas e comerciais privilegiadas, no âmbito dos vínculos que se estabeleciam com a comunidade dos países socialistas, especialmente da Europa do Leste.

Na verdade, circularam sempre muito poucas obras de autores polacos em Angola, lamentavelmente. Entretanto, na segunda metade do século XX, além dos autores que já tinham obras traduzidas desde o período colonial, tais como Wladyslaw Stanislaw Reymont e Henry Sienkiewicz, preenchiam as listas dos catálogos das bibliotecas outros nomes, tais como Konrad Fiałkowski, Stanisław Lem, Julian Kawalec, Bruno Schulz, Jerzy Andrzejewski, Jan Kott, Witold Gombrowicz, Stanisław Mackiewicz, Sławomir Mrożek, Zbigniew Stypułkowski e Leopold Tyrmand, Julian Stryjakowski, Karol Wojtyła, o Papa João Paulo II. Após a independência, em Angola destacavam-se sobretudo obras de filósofos marxistas polacos, tais como Adam Schaff.

Pessoalmente, o meu conhecimento a respeito de intelectuais e artistas polacos remontava aos anos 70 do século passado. Ainda conservo, desde o tempo de  estudante do liceu em Benguela, o livro do filósofo polaco Roman Ingarden, "A Obra de Arte Literária”, traduzida na década de 60 por iniciativa dos serviços editorias da Fundação Calouste Gulbenkian de Portugal. Nessa década, o cinema polaco ganhava igualmente a minha simpatia, enquanto cinéfilo, através das obras cinematográficas de Andrzej Wajda (1926-2016), distribuídas  e exibidas nas salas da época.

A minha curiosidade pelas coisas desse país do leste europeu mantém-se ainda hoje, até porque  tenho amigos que integraram os primeiros grupos de estudantes angolanos enviados para a Polónia, logo a seguir à independência. Eles me falavam da beleza e ternura das polacas e do espírito amistoso dos polacos. Por lá ficou um amigo, natural do Huambo, exercendo medicina numa das regiões daquele país.

Já na década de 80 do século XX, após a queda do muro de Berlim, os catálogos de traduções de autores polacos em língua portuguesa que chegavam a Angola, passaram a contar com referências a Ryszard Kapuściński e Wisława Szymborska.


Poesia de Szymborska 

Até 2010, em matéria de obras polacas traduzidas em português, a lista era dominada por quatro autores e que, em termos relativos, têm maior notoriedade mediática e comercial: Henryk Sienkiewicz, 62; Władysław Reymont, 2; Czesław Miłosz , 3; Szymborska, Wisława, 4.

Wisława Szymborska é a primeira escritora polaca galardoada com o Prémio Nobel de Literatura, em 1996, ao lado de Olga Tokarczuk que o arrebatou em 2018. Seguem-se três homens: Henryk Sienkiewicz (1846-1916), considerado um dos mais brilhantes escritores europeus da segunda metade do século XX, galardoado com o Prémio Nobel da Literatura em 1905, Wladyslaw Stanislaw Reymont, (1867-1925) é outro Prémio Nobel de Literatura em 1924, falecido um ano depois e Czesław Miłosz (1911-2004), em 1980, o poeta e ensaísta que viveu durante algum tempo em França e depois nos Estados Unidos da América de que foi igualmente cidadão.

Diferententemente de Miłosz, a obra de Szymborska é de certo modo frugal, pouco volumosa, constituída geralmente por pequenas colectâneas de poesia, género que tem maior peso. Publicou o seu primeiro livro "Por isso vivemos”, em 1952, a que se seguiram outros treze: "Perguntas Feitas a mim Mesma” (1954), "Chamada para Yeti” (1957), "Sal” (1962), "Tem Piada” (1967), "Em todo o Caso” (1972), "Grande Número” (1976), "Gente na Ponte” (1986), "Fim e Princípio” (1993) e "Instante” (2002), Dwukropek "Dois pontos”, 2005, "Aqui”, 2009, "Basta”, 2012.

Do ponto de vista estético, Szymborska assumiu inicialmente as influências dos cânones do "realismo socialista”. A guinada de afastamento dá-se a partir de 1957, com o seu livro "Chamada para Yeti”, com o qual revela preocupações de ordem existencial. A esse conjunto junta-se uma obra póstuma de cerca de trinta poemas escritos entre 1944 e 1948.

A obra completa foi publicada em 2014, com o título de "Czarna Piosenka” [Canção Negra].
A poesia de Wisława Szymborska está profundamente marcada por preocupações filosóficas. Isso mesmo está plasmado no discurso que proferiu na cerimónia de recepção do Prémio Nobel de Literatura, quando invoca as palavras do Eclesiastes.  


Dizia Wisława Szymborska:

"Às vezes sonho com situações impossíveis. Imagino, por exemplo, a minha afronta, a de ter a oportunidade de conversar com o Eclesiastes, autor de uma lamentação, tão pungente, sobre a vaidade de todos os empreendimentos humanos. Eu me curvo profundamente perante ele, porque é um dos poetas mais importantes – pelo menos para mim. E então pego a sua mão. "Nada de novo sob o sol”, é o que dizes, Eclesiastes.

E mais ainda, tu mesmo, tu nasceste de novo sob o sol […] Mas na linguagem da poesia, onde cada palavra é cuidadosamente avaliada, nada é comum ou normal. Nem uma pedra, nem uma nuvem acima. Nem um dia, nem uma noite depois. E, acima de tudo, nenhuma existência neste mundo. Parece que os poetas sempre terão muito trabalho.”
Este é o trabalho de escrita e meditação, tal como se lê nos poemas  "A Alegria de Escrever” do livro "Sem Piada” e "Alguns Amam a Poesia” de "Princípio e Fim”.
 
  * Ensaísta e professor universitário



A alegria de escrever

Onde corre a corça escrita na floresta escrita?
Ela beberia na beira da água escrita
quem copia o seu focinho como papel químico?
Por que está ela levantando a cabeça, ouvindo algo?
Ela toma de empréstimo suas quatro patas da coisa real,
e, sob meus dedos, ela escuta.
Silêncio – esta palavra também arranha o papel
Removendo os ramos, retirados directamente da palavra "floresta".
Acima da folha branca, eles estão prontos para transpor
aquelas letras miúdas que podem converter-se em erro,
essas frases que cercam de perto
sem qualquer hipótese de salvação.
Existe, em uma gota de tinta, uma reserva sólida
de caçadores, olhos estreitos e fixos na presa,
pronto para descer a perigosa encosta da caneta,
para atacar a corça e nela fazer a mira.
Eles terão esquecido que isso não é vida.
Outras leis, a preto e branco, governam este país.
Uma piscadela vai durar o tempo que eu quiser,
ele se deixará esculpir em pequenas eternidades
cada um cheio de bolas suspensas no meio do vôo.
Nada jamais acontecerá, se eu ordenar desta forma, nem uma folha que caia sem que eu decida, nenhuma folha de grama se curva sob a ponta do casco.
Então há um mundo cujo destino eu governo soberanamente?
Hora de acorrentar placas?
Existência, por minha ordem, imperecível?
Alegria de escrever.
Poder para manter.
Vingança da Mão Mortal.

Waslawa Szymborska

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