Sociedade

A máscara ainda nos cobre a face

Miguel Gomes

Jornalista

Em Angola não foi diferente de outros países. Estávamos em Março do ano passado, quando foram confirmados dois casos positivos de Covid-19. Mais de 20 mil casos positivos e 522 mortes confirmados depois, continuamos de máscara e os medos diminuíram. Já aprendemos a conviver com a Covid-19. Venham as vacinas.

21/03/2021  Última atualização 11H32
Desde Dezembro do ano passado que os casos diários baixaram para menos de uma centena © Fotografia por: DR
Parecia mais um Janeiro e Fevereiro normais, ainda em 2020, neste mundo que seguia imparável nos seus milhões de anos,  de pessoas e de vidas melhores e outras piores. Até que um ser invisível a olho nu meteu pelo menos um terço - mais de 3 mil milhões de pessoas - da população fechada em casa, empresas encerradas, viagens internas ou externas proibidas, actividades canceladas ou perto disto, sistemas de saúde à beira de um ataque de nervos e os governos de mãos ao céu, sem saberem bem o que fazer e como fazer.

A solução foi recorrer aos ensinamentos de outras pestes antigas e decretar isolamentos, quarentenas e recomendações de afastamento social. Receitas eficazes que nem sempre servem a todos. Nas condições do país, ontem como hoje, cumprir os rituais de prevenção contra o coronavírus é um luxo disponível apenas a uma minoria da população.

E foi mesmo o que se verificou: apesar das proibições e da dificuldade em circular pelas ruas durante o Estado de Emergência – só algumas pessoas estavam autorizadas e deviam ter uma guia de marcha a comprovar, recordam-se? O comércio ambulante, os mercados, as pequenas vendas caseiras e quem procura rendimentos diários para se alimentar, rapidamente, tentaram formas para contornar as proibições e os decretos.

Se nas ruas principais e nas zonas urbanizadas o cumprimento do Estado de Emergência foi bem sucedido, o cenário nas zonas periféricas era diferente e mantiveram-se algumas práticas de convívio mais ou menos legais.
Neste contexto, a Polícia foi das instituições públicas mais escrutinadas. Durante alguns meses, as fatalidades causadas por abordagens negligentes ao cidadão e à repressão associada à Covid-19 eram maiores do que as causadas pelo novo coronavírus.

A pressão social aumentou de tal forma sobre as forças de segurança, que obrigou a uma mudança de abordagem, agora menos repressiva no que diz respeito ao cumprimento das outras regras de prevenção. Também ficou bastante claro que era - e continua a ser, nem que seja pelas outras maleitas que nos afectam e que matam mais do que a Covid-19 - muito importante  é reforçar a capacidade dos laboratórios e dos técnicos que os manuseiam, no sentido de testar, testar, testar o máximo de pessoas.


Onda de Cacimbo   
    
Angola continua na lista de países com sistemas de saúde bastante débeis e a preocupação aumentou no dia 27 de Abril de 2020. Foi naquele dia que as autoridades sanitárias confirmaram o primeiro caso de transmissão local (ou seja, de um paciente que não era proveniente de viagens ao exterior) do novo coronavírus em Angola. Em causa, estava uma cidadã portuguesa, de 16 anos, filha de um dos pacientes infectados e internados naquele mês.

Em Junho, o Conselho de Ministros decidiu abandonar o Estado de Emergência (depois de três períodos de 15 dias) e declarar o Estado de Calamidade Pública, solução jurídica que ainda se mantém em vigor. Mais tarde, no dia 15 de Julho de 2020, foi anunciada a circulação comunitária da Covid-19 em Angola. Tinham sido identificados mais de 100 casos sem conexão entre si, numa altura em que o país somava 576 casos positivos.

Foi um Cacimbo mais cinzento do que o normal. As cidades ficavam praticamente vazias depois das 15-16 horas. No final da época seca, entre Agosto e Novembro, a média de casos diários rondou as duas centenas, naquele que pode ser considerado o primeiro grande pico de casos positivos em Angola.
Os mercados, restaurantes, bares e discotecas continuaram encerrados ou a funcionar com horários reduzidos. Todo um convívio resultante de casamentos, baptizados e cultos religiosos foi quebrado com efeitos que perduram e vão perdurar.


Temos vacinas!
Desde Dezembro do ano passado que os casos diários baixaram para menos de uma centena. Uma boa notícia: foi também nesta altura que começaram a ser divulgados os primeiros indicadores sobre o plano de vacinação no país. Ao contrário de outras regiões, Angola parece não ter registado, até ao momento, um segundo pico de infecções relacionadas com a Covid-19.
Com o cenário um pouco mais aliviado, foi possível ensaiar a reabertura quase normal dos serviços públicos, da hotelaria, também as empresas actuam com menos restrições de horários e força de trabalho.

A economia informal, onde está o rendimento diário da maioria dos angolanos, parece manter-se sem grandes alterações. Também foi possível voltar a competir desportivamente e frequentar estádios de futebol e de outras modalidades. Os primeiros dias de Março de 2021 trouxeram novidades sobre as vacinas: Angola foi o primeiro país da África Oriental e Austral a receber o imunizante contra a Covid-19. Mais de 600 mil doses, por enquanto.

A primeira vacina foi administrada à profissional de saúde Amélia Gourgel, de 71 anos de idade: "Alegro-me por recebê-la, é um momento histórico para os profissionais de saúde, devemos estar protegidos para que possamos também proteger os outros”, disse na ocasião.

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