Opinião

A Liga dos Campeões da África Subsaariana

Sebastião Vinte e Cinco

A recente derrota do Atlético Petróleos de Luanda em pleno Estádio 11 de Novembro frente ao Wydad AC de Casablanca para as semi-finais da 57.ª edição da Liga dos Campões Africanos de Futebol (até 1996 denominada Taça dos Clubes Campões de África), levantou uma abordagem sobre a inclusividade / exclusividade do desporto-rei e o seu desenvolvimento nas diferentes regiões desportivas do continente.

15/05/2022  Última atualização 07H35

A maior competição de clubes africanos vem consagrando as agremiações desportivas da região a Norte do Saara como dominadores, uma vez que arrecadaram já por 33 vezes o troféu de campeão, dos quais 16 desde a redenominação da competição em 1997, ou seja, realizadas 24 edições da Liga dos Campeões Africanos, sob o formato que conhecemos hoje, dois terços dos triunfos sorriram para equipas da também conhecida África Branca, confirmando-se a sua hegemonia.

A maior expressão da hegemonia ora referida é sem dúvidas a que se reflecte no número de troféus de campões da Liga. Um outro indicador deste domínio é o da presença habitual das equipas daquela região nas meias-finais da prova. Nas últimas 24 edições da Liga dos Campeões somente em duas delas, 1998 e 2009, equipas do Magreb (expressão aqui tomada em sentido muito lato só para incluir o Egipto) não estiveram nesta etapa da competição, sendo que nos anos 2005, 2017 e 2020, só estas (equipas desta zona) atingiram a fase que encontra os finalistas. No cômputo geral, desde a primeira edição da prova em 1964, as agremiações desportivas da região, nomeadamente, o Al Ahly (do Egipto) esteve em 19 meias-finais, o Espérance de Túnis em 13, o Zamalek do Egipto em 11, o Wydad AC de Casablanca em 7, o Raja, também de Casablanca, em 6, o JS Kabilye da Argélia em 5, o Ismaily do Egipto em 5 e o Etoile Sahel da Tunísia e USM da Argélia em quatro ocasiões, cada, respectivamente.

No que aos títulos dizem respeito, no quadro das cinco equipas mais tituladas, somente o TP Mazembe da República Democrática do Congo, com 6 ceptros (aqui no sentido desportivo da expressão) se intromete no lote dos magrebinos em que despontam os clubes egípcios com um total de 16 taças, os tunisinos e marroquinos com 6 troféus cada, e os argelinos que somam 5 conquistas da Champions de África.

Os dados e o historial da mais prestigiada competição africana de clubes denunciam um eventual fraco desenvolvimento da actividade e da cultura desportiva na África a Sul do Saara mas também revelam um domínio avassalador dos magrebinos digno de levantar algumas suspeitas relativamente ao facto de terem nacionais seus em órgãos estratégicos da Confederação Africana de Futebol, de terem a sede da instituição reitora do desporto-rei continental no seu território; de serem conhecidos pela prática do anti-jogo e do extra-jogo, bem como de terem grande ascendente sobre os árbitros, como terá ficado provado com o comportamento do árbitro zambiano que em 2018 ajuizou a partida de infeliz memória para os angolanos por ter ditado a eliminação do Clube 1º de Agosto frente ao Esperánce de Túnis na melhor campanha de sempre dos agostinos nesta competição. O facto de quase sempre os sorteios remeterem os jogos de segunda mão das eliminatórias nos redutos dos clubes da África Branca, o que certamente resulta dos critérios regulamentares das provas sob a égide da CAF, sugerem movimentações nos bastidores idóneos para, a médio e longo prazos, diminuírem o interesse dos subsaarianos na competição em apreço pelo facto de, invariavelmente consagrarem aqueles.

O mérito desportivo dos magrebinos, não só ao nível do futebol, é reconhecido e tal decorrerá da cultura de organização e de investimento nesta actividade, na escolarização do desporto, na valorização dos seus profissionais, o que faz com que um número considerável dos seus atletas de alta competição prefira fazer carreira intramuros, o que não acontece com as demais  potências desportivas do continente como a Nigéria, os Camarões, o Ghana e o Senegal que normalmente vêem as suas estrelas somente quando há compromissos de selecções nacionais, nomeadamente, nos apuramentos para o CAN e para a Taça do Mundo da FIFA.

Contudo, os clubes subsaarianos a despeito das suas eventuais limitações orçamentais e de política desportiva dos seus países, não deixaram de fazer investimentos nas suas equipas, pelo contrário, com muito esforço vêm demonstrando capacidade de resiliência e espírito de sacrifício testemunhados pelos seus apaniguados que, perante situações como a vivida pelo 1º de Agosto em 2018 e por outros clubes africanos a Sul do Saara às mãos dos clubes magrebinos, questionam o futuro da Liga dos Campeões Africanos atendendo às injustiças de que são alvo.

A necessidade de as regiões 2, 3, 4 e 5 do Conselho dos Desportos da União Africana se organizarem para um combate contra as injustiças que têm vindo a beneficiar, pelo menos ao nível do futebol de clubes, a Região 1 (em que se integram o Egipto, a Tunísia, a Argélia, a Líbia e Marrocos), parece ser pertinente e idónea para precipitar o alvitre de uma Liga dos Campeões da África Subsaariana que excluiria os clubes do Magreb.

As injustiças que vêm prejudicando os clubes das regiões 2, 3, 4 e 5, empobrecem estas agremiações uma vez que os seus esforços desportivos não são recompensados financeiramente como os clubes magrebinos que parecem estar destinados aos milhões que as vitórias na Liga dos Campeões Africanos geram.

Uma eventual Liga dos Campeões da África Subsaariana poderia relançar o interesse pelo futebol, alavancar as transmissões televisivas e além do mais, poderia impelir a CAF a encetar negociações com a FIFA para um eventual alargamento do lote de equipas que disputam o Taça Mundial de Clubes do órgão reitor do desporto-rei no mundo.

Por seu turno, os países do Magreb sempre poderiam organizar uma competição entre si para ulteriormente o seu campeão disputar uma partida com o vencedor da Champions Subsaariana com vista a encontrar-se o campeão absoluto africano de clubes desde que tal duelo se realizasse sob regras transparentes para evitar a influência dos jogos de bastidores capazes de arrasarem a verdade desportiva.

Enfim, a situação actual da verdade desportiva ao nível das competições de clubes da CAF, maxime a Liga dos Campeões, é questionável porque, invariavelmente, trucida clubes da África Subsaariana que se vão acostumando às injustiças que retiram a graça do desporto.

As agremiações desportivas, os atletas, os adeptos, os investidores, que no caso africano são maioritariamente os contribuintes fiscais, uma vez que muitos dos clubes de sucesso são financiados pelos seus Estados/Governos, têm o dever de alforriar o futebol das malhas do jogo de bastidores que instrumentalizando árbitros e demais agentes do jogo, fica reduzido a meio de orgulho e de enriquecimento de alguns clubes de uma região perfeitamente identificada.

Que venha a Liga dos Campeões da África Subsaariana.

Comentários

Seja o primeiro a comentar esta notícia!

Comente

Faça login para introduzir o seu comentário.

Login

Opinião