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A lexicografia em Angola e um seu cultor

Toda a língua serve para comunicar, ensinar e aprender. Trouxemos à conversa a lexicografia em Angola e um seu cultor, Alexandre Mavungo Chicuna. A lexicografia é a lexicologia aplicada, é um campo atinente à produção de dicionários, glossários e vocabulários.

20/02/2022  Última atualização 09H25
Alexandre Mavungo Chicuna © Fotografia por: DR
Em Angola, os primeiros dicionários e glossários foram elaborados por missionários que estavam ao serviço da Igreja Católica Apostólica Romana e do Reino de Portugal. Com o objectivo de catequizar, comercializar e colonizar, os missionários, os colonizadores e os comerciantes recorriam aos dicionários e aos glossários para encontrarem os equivalentes em língua portuguesa. 

Depois, alguns escritores portugueses que estavam ou começaram a sua produção literária em Angola utilizaram também empréstimos e hibridismos nos seus textos. Essa prática de utilizar hibridismos na literatura ganhou mais força com a criação de um amplo projecto proto-nacionalista e nacionalista, no século XIX e no século XX.

Dos primeiros dicionários bilingues e trilingues em Angola,  podemos destacar o "Ensaio de Diccionario Kimbúndu-Portuguez”,   de Cordeiro da Matta, o "Dicionário Olonyaneka-Português” (1941),  do padre Bonnefoux, o "Dicionário etimológico Bundu-Português” (1951), de Alves e o "Dicionário Português-Kimbundu-Kikongo (línguas nativas do Norte de Angola.)”, do Padre Maia.  

No campo dos estudos lexicológicos, destacamos, aqui, a figura de Alexandre Mavungo Chicuna, professor Licenciado, Mestre e Doutorado na área da Linguística, com uma tese sobre os "portuguesismos nas línguas bantu - para um dicionário português kiyombe”. 

A sua tese, publicada em livro, com duas edições, é com certeza, uma obra obrigatória para os estudantes de linguística, lexicologia, lexicografia e neologia. Tendo cinco capítulos, no primeiro, o estudioso dá-nos a conhecer a situação linguística da  África ao sul do Saara, de Angola e de Cabinda  especificamente. O segundo capítulo é um "tirocínio” para quem deseja conhecer os "fundamentos teóricos e metodológicos em lexicologia”. No terceiro capítulo, há uma exaustiva abordagem a respeito do contacto de línguas e o caso da relação entre o português e o kiyombe. O quarto capítulo da sua tese-livro encerra um corpus de portuguesismos que se encontram na língua kiyombe.

No quinto capítulo, o linguista analisa as unidades lexicais portuguesas que foram "kiyombizadas” e, no sexto capítulo, o lexicógrafo apresenta-nos a "proposta de um dicionário [bilingue] português kiyombe”, com palavras e termos da língua corrente. São termos da medicina, das ciências, da técnica e da vida social, enfim, itens lexicais do kiyombe e os portuguesismos com as suas descrições em fichas lexicográficas. Assim, a proposta de dicionário bilingue de Alexandre Mavungo Chicuna contém mais de 500 entradas. O consulente tem aí um bom ensaio de dicionário para o ajudar sempre que estiver numa situação em que precise de usar o português e o kiyombe.

Alexandre Mavungo Chicuna é também autor do "Dicionário de siglas e abreviaturas angolanas”, publicado de igual modo em duas edições, um importante instrumento auxiliar para quem almeja conhecer vários domínios da sociedade angolana e as suas siglas, as suas abreviaturas e os seus acrónimos. 

Portanto, o trabalho do Professor Doutor Alexandre Chicuna é também um marco no campo da dicionarística praticada por angolanos. Os dois livros de Alexandre Chicuna, Decano da Faculdade de Humanidades da Universidade Agostinho Neto e Coordenador dos cursos de mestrado da mesma casa de saber, devem ser mais lidos e continuar a servir de consulta para todos os amantes da linguística, da lexicologia, da lexicografia e da neologia.

*Mestre em Literaturas em Língua Portuguesa.

João Fernando André |*

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