Entrevista

“A kizomba é uma ‘festa’ declaradamente nossa”

Conhecida como “A Senhora da Dança”, Ana Clara Rodrigues Guerra Marques abriu-se ao caderno Fim-de-Semana do Jornal de Angola para falar das suas experiências profissionais. Bailarina e coreógrafa, tem trabalhado pela defesa da dança como linguagem artística em Angola através de criações, palestras, conferências e workshops, insistindo na necessidade do ensino institucional da dança.

28/11/2021  Última atualização 04H30
© Fotografia por: DR
Depois de muitos anos sem subir a um palco para dançar, qual foi a sensação de o fazer na grande final do BAI Dança com Ritmo?

O que aconteceu na final do BAI Dança com Ritmo não foi, nem por sombras, subir a um palco para dançar. Foi um momento muito divertido num programa de entretenimento, o que já tinha acontecido em outras galas, enquanto membro do júri. Não existe qualquer termo de comparação entre as duas situações. Todavia, sempre que estreia uma peça minha num teatro, subo ao palco, no final, com os bailarinos, para agradecer ao público!


O concurso terminou com grandes actuações de bailarinos de diferentes pontos de Angola. Surpreendeu-se com o talento vindo de fora da capital?

Foi interessante confirmar que existem jovens muito talentosos em todas as partes de Angola, o que não foi novidade para mim. O nosso problema é não haver um ensino artístico de qualidade e com competência para transformar estes dançarinos em bailarinos. A situação não é melhor na capital.


Quando vê os jovens a dançarem e naquilo que são os estilos mais recentes, o que mais a impressiona?

A energia, o talento (como referi anteriormente) e a vontade de vencer. Mas o que mais me impressiona é pensar no vazio que fica para eles depois de saírem do programa. Falta a formação para os proteger e poderem prosseguir com segurança.


Existe algum momento em que a professora Ana Clara arrisca-se a uns toques de kuduro, afro house ou até hip hop?

Sim, claro. Não com a perfeição com que esses dançarinos o fazem, mas se eu utilizo esse material nas minhas peças, sou capaz de mostrar aquilo que quero. Um bailarino profissional tem essa capacidade de apreender qualquer movimento, pois tem consciência de que partes do corpo se movem e como se movem para produzir o efeito final.


Ainda sobre estilos populares no nosso país, em debates sobre kizomba, defende sempre que…

A kizomba é uma "festa” declaradamente nossa, filha do Semba que, apesar de ter sido criada com influência de diversos ritmos vindos de fora, como a própria música, adquiriu formas e incluiu "passadas” que só mesmo nós sabemos fazer e inventar.


É uma referência para muitos bailarinos em Angola. E quem são as suas referências?

Tenho como referências todos aqueles coreógrafos cujo trabalho trouxe algo de novo, do ponto de vista estético e, sobretudo, cujo objectivo não é o entretenimento, mas a intervenção social com o propósito de criticar e promover a mudança de mentalidades. Desde a alemã Pina Bausch, a grande criadora da dança-teatro e grande referência do movimento contemporâneo, à senegalesa Germaine Acogny, a primeira coreógrafa africana a defender a profissionalização dos bailarinos em África com recurso ao ensino artístico formal, são vários os nomes que me inspiram, nomeadamente os mais actuais como Ohad Naharin, Crystal Pite, Sidi Larbi, Akram Khan, Ivan Perez... Muitos.


Partilhou a responsabilidade de tomar decisões, algumas muito difíceis, com C4 Pedro, Florinda Miranda e Anderson Manjenje no BAI Dança com Ritmo. Que memórias esta fase lhe deixou?

Excelentes memórias. Recordarei sempre o respeito de todos eles pelas minhas opiniões, ainda que não estivéssemos sempre de acordo. Foi muito interessante ver como a profissão e o tipo de relação de cada um com a dança influenciava quer os comentários  quer as decisões, formando-se um todo bastante completo! Também aprendi com eles!


É conhecida por ser defensora do Ensino Institucional da Dança em Angola. Que passos importantes temos de dar para que "o talento cruze as instituições”?

O mais importante seria que os nossos dirigentes tivessem consciência da importância dos artistas e da formação artística para o desenvolvimento do país, o que não acontece; de contrário não se tinha extinto o Ministério da Cultura. Depois era fundamental a existência de um plano estratégico sério que passaria pela criação e inclusão imediata, na Lei de Bases da Educação, de um Sub-Sistema para a regulamentação e gestão da educação e formação artística, o qual se estenderia desde o nível elementar (ensino de base) ao universitário; há anos que lutamos por isso e nada aconteceu. Finalmente, era importante que as raras instituições que existem fossem encerradas, reformuladas e integradas por professores competentes e com a formação obrigatória, o que também não acontece. Digo isto há anos, mas a prática prepotente de não se ouvirem os especialistas resulta numa gestão meramente política das artes e da cultura. E sabemos que esse não é o caminho certo!


Durante as suas investigações sobre as danças das máscaras do povo Cokwe que aspectos do nosso património cultural descobriu?

Um património riquíssimo que infelizmente se está a perder e a adulterar por falta de estudos científicos e excesso de pessoas a reinventarem a tradição, "folclorizando” e estabelecendo como "original”, "típico” e "genuíno” produtos que pouco têm a ver com a essência das culturas e das danças desses povos. Descobri que, na sua maioria, as pessoas visíveis que se referem a este património não possuem a mínima noção do que ele realmente representa e do valor que encerra. Ou seja, a voz dos portadores dessas culturas apaga-se cada vez que um demagogo de refere "às nossas tradições” como algo que está ali para turista ver ou para "abrilhantar” qualquer acto político.


A meio de tantos feitos importantes para a nossa cultura, quem é a professora Ana Clara quando está em momentos mais descontraídos?

Uma pessoa com um sentido de humor corrosivo, inquieta, fora dos padrões, solidária, que, mesmo em situações mais descontraídas, não perde a oportunidade de levar avante as suas convicções! Talvez, obstinada. Ah! Que falta me faz ir dar um mergulho à praia!


PERFIL

Ana Clara Guerra Marques possui o grau de Mestre em Performance Artística- Dança, com a dissertação "Sobre os Akixi a Kuhangana entre os Tucokwe de Angola: A performance coreográfica das máscaras de dança Mwana Phwo e Cihongo”, pela Faculdade de Motricidade Humana da Universidade Técnica de Lisboa. É licenciada em Dança - Especialidade de Pedagogia, pela Escola Superior de Dança do Instituto Politécnico de Lisboa.


Tem publicado artigos em revistas académicas internacionais e periódicos angolanos. É autora dos livros "A Alquimia da Dança” (1999), "A Companhia de Dança Contemporânea de Angola” (2003) – este com a colaboração do fotógrafo Rui Tavares – e "Para uma História da Dança em Angola - Entre a Escola e a Companhia: Um Percurso pedagógico” (2008), estando em preparação a publicação de um trabalho de investigação sobre a performance coreográfica das máscaras de dança cokwe.


Ferraz Neto e Eva Monteiro

Comentários

Seja o primeiro a comentar esta notícia!

Comente

Faça login para introduzir o seu comentário.

Login

Entrevista