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A inundação cataclísmica que encheu o Mediterrâneo

Num exercício de criatividade, não nos é difícil acomodar menções como Zancliano e Messiniano, num episódio de novela de espada e feitiçaria saída do punho do escritor norte-americano Robert E. Howard, “pai” do herói mitológico Conan, o Bárbaro.

03/10/2021  Última atualização 09H47
Na década de 1930, o hipertrofiado Conan, o Cimério, como também era apelidado, vingava nas revistas pulp, num convite ao leitor a embrenhar-se num tempo ficcional, anterior a todas as épocas passadas, a Era Hiboriana.

Fora das fronteiras deste tempo mitológico, as idades de Messiniano e Zancliano são realidades acomodadas no calendário geológico da Terra. Contam-nos uma história à escala dos milhões de anos, um período de conturbação na bacia do Mediterrâneo. Robert E. Howard não se importaria de adicionar a narrativas como O Poço Macabro ou A Fronteira do Fim do Mundo a história ficcionada de um acontecimento apocalíptico que talhou as margens do grande mar interior tal como o conhecemos hoje.

Howard não precisaria procurar nome para essa sua novela. A ocorrência, com perto de 5 milhões de anos, foi baptizada como Dilúvio Zancliano, em alusão à idade geológica com o mesmo nome. História com cenário centrado no Mediterrâneo e argumento a envolver uma desmedida quantidade de água oceânica, uma enchente de proporções bíblicas e os caprichos de falhas tectónicas.


História a que se lhe acrescentam antecedentes, porque ao dilúvio precedeu a seca ou, para narrar com precisão, a dessecação, de parte do território correspondente ao actual mar Mediterrâneo, com os seus 2,5 milhões de quilómetros quadrados. Novo pulo retrospectivo no tempo geológico para nos situarmos há mais de 6 milhões de anos.


De novo, uma hipótese com nome apetecível para novelas mitológicas: Crise de Salinidade Messiniana, é como se apadrinha o processo que levou à extrema secura do Mediterrâneo (dessecação), numa alusão ao tempo geológico em que ocorreu.

Montando o enredo, há que esclarecer que na época em que Robert E. Howard lançava o seu Conan às feras era baixa a probabilidade de encontrarmos uma narrativa com referência ao Dilúvio Zancliano ou à Crise de Salinidade Messiniana. As hipóteses conheceram fundamento a partir da década de 1950, de forma mais consistente depois de 1970. Esbocemos a história em quatro capítulos.


Capítulo 1: "A Seca”

 Num tempo distante, há perto de 6 milhões de anos, forças tectónicas terão elevado a superfície terrestre no ponto em que se fazia a ligação entre os actuais Atlântico e Mediterrâneo, o estreito de Gibraltar, interrompendo o fluxo de água proveniente do oceano.


Privado do seu principal fornecimento de água e ao perder por evaporação perto de um metro e meio daquele líquido por ano, o mar mirraria no milénio seguinte. A massa de água entrou em dessecação parcial, com regiões a originarem uma bacia seca, atingindo os 5 km de profundidade.


Aí, formavam-se depósitos de sal, alguns com centenas de metros de profundidade. Eventualmente, a descida do nível da água não seria simétrica em toda a extensão do Mediterrâneo, com diferenças entre as partes Ocidental e Oriental. A presença de fósseis de peixes do Atlântico em depósitos do Messiniano poderá indicar que houve algum fluxo remanescente desde o oceano.

Capítulo 2:"Desvendar o Messiniano”

 Corria a década de 1950 e a ciência interessava-se pela história geológica do Mediterrâneo. Aos investigadores despertavam a atenção vastos depósitos de sal próximos das margens do mar. Eis que, na década de 1970, intervém o navio científico Glomar Challenger. No seu périplo mundial, entre 1968 e 1983, a propósito da exploração Deep Sea Drilling Project, a embarcação incluiu perfurações na bacia mediterrânica.


Do solo marinho sairia gesso, anidrita, salgema e outros minerais que se formam a partir de secagem por salmoura ou da água do mar. As camadas de solo do Messiniano continham fósseis marinhos, indicando períodos de seca intercalados com breves inundações.

Capítulo 3: "O Dilúvio”

Um dos cenários mais prováveis para o fim da crise Messiniana terá ocorrido há 5,3 milhões de anos, com uma inundação de escala épica a encher a bacia mediterrânica. Extravasaram, então, as águas do Atlântico com o rompimento do escudo do estreito de Gibraltar. Na origem da enchente, uma de três hipóteses (ou a união das três): a movimentação de placas tectónicas, a alteração do nível global dos oceanos ou a erosão dos solos.

Independentemente da causa, acredita-se que a água jorrou a partir de uma catarata em socalcos com mais de 1 km de altura e com um fluxo de descarga de 100 milhões de metros cúbicos por segundo. A corroborar o ímpeto das águas, a existência de um canal de erosão de perto de 390 km de comprimento e várias centenas de metros de profundidade no fundo marinho do golfo de Cádis à costa da Argélia.


Capítulo 4: "Uma inundação repentina”.

 Em 2009, o geofísico Daniel Garcia-Castellanos, do Instituto de Ciências da Terra Sauna Aurera, em Barcelona, contrariou a hipótese de uma inundação gradual, ao longo de 10 mil anos. Num artigo publicado na revista científica Nature, o geofísico aponta para uma cheia instantânea, em dois anos. Evento drástico, capaz de provocar alterações no clima mundial na época como também o intercâmbio de espécies animais entre os continentes europeu e africano.


Hipótese corroborada, em 2018, pelo hidrogeólogo Aaron Micallef, da Universidade de Malta, ao detectar num canal subaquático no mar Jónico grande volume de sedimentos, empurrados desde o Atlântico.Uma enxurrada súbita de água transbordante a precipitar-se num território prisioneiro do sal há centenas de milhares de anos.

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