Opinião

A ideia de um Presidente racista

A ideia dos Estados Unidos da América, um país que em mais de duzentos anos nunca conheceu um regime ditatorial ou autoritário que suprimisse por completo as liberdades, fundado na liberdade, independentemente do passado esclavagista, ter um Presidente racista nos pronunciamentos que faz é profundamente perturbador.

03/03/2019  Última atualização 08H35

O Presidente dos EUA, como era suposto esperar, seja ele ou ela um WASP (acrónimo inglês para Branco, Anglo-Saxónico e Protestante), hispânico ou afro-americano, deve representar a diversidade daquele importante país. E essa posição não deve mudar em função das circunstâncias, contexto ou eventualmente até de gostos e desgostos pessoais, que devem sempre ser subalternizados a favor do Interesse Nacional.
Donald Trump, cuja eleição foi aclamada por vários grupos que defendem a supremacia da raça branca, umas vezes entendida como uma apropriação indevida de tais grupos, outras vezes compreendida como uma “união de facto”, tem demonstrado que não representa todos os estratos da sociedade norte-americana. Embora, paradoxalmente, se gabe de algumas conquistas, nomeadamente a maior redução da taxa de desemprego entre os afro-americanos, na verdade, em círculos privados e publicamente distancia-se daquelas franjas da população que muito contribuíram para erguer o país que é a maior potência económica e militar do Mundo. A taxa de desemprego baixa dos afro-americanos vem de trás, com decréscimos desde a administração Bush e Obama.
O advogado Michael Cohen, a braços com problemas judiciais que o incriminam por ter mentido relativamente às ligações que a equipa de campanha de Donald Trump manteve com russos, fez revelações comprometedoras sobre o seu antigo cliente e hoje Presidente dos EUA. Nas revelações, Michael Cohen declarou-se culpado de acusações de evasão fiscal, fraude bancária e violação de financiamento de campanha em relação a pagamentos em dinheiro para comprar o silêncio de duas prostitutas, na véspera da eleição de 2016.
As declarações feitas perante o Congresso não surpreendem de todo, mas revelam um Presidente com uma incontinência verbal que “emporcalha” a Presidência norte-americana enquanto instituição à frente da qual deve estar alguém que represente todos os americanos.
As declarações de Donald Trump, segundo o seu antigo advogado, são tão graves que deviam desencorajar as lideranças africanas a solicitar audiência ou aceitar reunir-se com o inquilino da Casa Branca, como já fez o Presidente da Nigéria, Muhammadu Buhari, o único Chefe de Estado africano a ser recebido pelo actual inquilino da Casa Branca. Michael Cohen disse que, nos últimos dias da presidência de Barack Obama, Donald Trump perguntou-lhe se “conhecia algum país do mundo liderado por um negro que não fosse uma autêntica merda”.
O lado racista e desonesto de alguém que, segundo Michael Cohen, apenas entrou para a corrida eleitoral em 2016 para fazer avançar a sua marca e os seus negócios, não fica por aqui na medida em que são também atribuídas a Donald Trump declarações segundo as quais “os eleitores negros são tão estúpidos para votarem”. Estas últimas foram feitas pouco depois das eleições legislativas de Novembro de 2018, em que os republicanos perderam a maioria na Câmara dos Representantes e viram reduzido o desequilíbrio no Senado.
Embora se esforce para disfarçar o desrespeito pela diversidade do país, volta e meia, Donald Trump acaba escorregando na sua incontinência verbal, tal como indica um relato do jornal “The New York Times”, que dá conta de uma reunião na Casa Branca na qual Donald Trump tinha protestado contra os beneficiários de vistos dos EUA em 2017. Durante o encontro, ele tinha alegado que os haitianos “todos têm sida” e os nigerianos, uma vez nos EUA, nunca “voltariam para as suas cabanas”. Pouco depois, a Casa Branca negou tais declarações imputadas a Donald Trump, dizendo que o Presidente defende a vinda de imigrantes que possam contribuir para o crescimento económico da América.
Embora Donald Trump diga que Michael Cohen fez tais declarações para ver reduzida a pena de prisão em que incorreu, fruto das acusações que pesam sobre si, não há dúvida que o inquilino da Casa Branca é “negrófobo”, “hispanófobo” e vive de outras fobias que o associam claramente a um Presidente racista. Por isso, Novembro de 2020 deve chegar depressa para que os eleitores norte-americanos corrijam o erro de terem eleito um Presidente que não representa a diversidade do país.
Mas, a democracias tem disto e, como dizia Karl Popper, é boa porque não apenas permite que os bons cheguem ao poder, como possibilita também que os maus sejam de lá removidos. O problema é que aqueles últimos, os maus, podem igualmente chegar ao poder por via de processos democráticos, como de resto sucedeu com personalidades como Adolf Hitler, François Duvalier, Ferdinand Marcos, Mobutu Sese Seko, entre outros. Não se pode dizer que Donald Trump é ditador porque não tem condições para o ser num país em que as instituições democráticas funcionam, mas comprovadamente apresenta tiques autoritários e, muitas vezes, procura subverter o Estado de Direito. Para muitos americanos, neste aspecto, o mesmo deve ser perdoado porque, seguramente, não sabe o que faz em Política. Quando se trata de lidar com as minorias étnicas não tem um historial que dignifica a presidência norte-americana. E como se não bastasse, Donald Trump parece pouco se importar com a ideia de ser encarado como um Presidente racista.

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