Opinião

A idade certa para exercer jornalismo

“Você, assim bem miúda, é jornalista?” A pergunta vem de uma recepcionista da Assembleia Nacional (AN) e é dirigida à jovem escriba de vinte e poucos anos, em pleno início de carreira.

13/06/2021  Última atualização 11H39
O evento, a julgar pelo horário, está prestes a começar. Isso, entretanto, não impede a funcionária da AN de criar empecilhos para dificultar e/ou impedir a entrada ao recinto da ex-estagiária "com muito orgulho”, lembrou a autora dessas linhas. Na verdade, chegar ao nível de jornalista estagiário, para a maioria, é obra! Atravessou, portanto, um deserto, para realizar o sonho de comunicar, por via da imprensa escrita.

"É minha colega! Filha, mostra o teu passe”, orienta o veterano repórter fotográfico, o saudoso Pedro Salvador "Kota Salú”, que já descansa junto do Senhor.     

             
A recepcionista observa o cartão número 1640, da Edições Novembro, lê o nome e a função estampados na frente e, na tentativa de continuar a dificultar o trabalho da equipa de reportagem do Jornal de Angola, olha para o verso do passe, no qual lê um importante apelo: "ATENÇÃO. O titular deste cartão é jornalista. Agradecemos toda a ajuda que lhe possa ser prestada, em especial o livre acesso a todas as áreas limitadas quando no desempenho das suas funções profissionais. O director, Luís Fernando”.  

                                          
Diante da "prova” e não estando a jovem profissional em trajes menores, a funcionária da AN não tem outra alternativa senão permitir a entrada dos repórteres ao edifício onde, na altura, eram aprovadas as leis angolanas.           


                                 
Na maior parte das vezes, a paixão pelo exercício de comunicar surge ainda cedo, na adolescência. É das profissões nas quais empregar adolescentes - geralmente para conduzir programas infantis em rádio e TV, bem como para dar vida a rubricas voltadas aos baixinhos, em jornais - não constitui crime de exploração de menores.

As rubricas infantis para jornais, apesar da sua importância, tanto para leitores mirins, quanto para o próprio órgão, que ganha mais apreciadores dessa franja da sociedade, há muito andam em falta, em publicações nacionais. Talvez porque os graúdos se tenham esquecido que os miúdos, tal como vêem televisão e ouvem rádio, também lêem muito. Pelo menos os que tiveram acesso ao ensino e foram, desde tenra idade, estimulados a exercitar a leitura, um direito negado à maioria, infelizmente. Crianças, desde tenra idade, demonstram interesse por livros. Antes mesmo de aprenderem a ler, quanto mais não seja, para rasgar algumas páginas, deixando os pais e/ou encarregados de educação de cabelos em pé.   

                                    
A autora destas linhas até puxões de orelha recebeu da sua progenitora.  Ainda na infância, ousou ler tudo o que encontrasse nas prateleiras de casa, embora rapidamente desistisse de livros como "Yaka”, de Artur Pestana "Pepetela”, cujo conteúdo não é dirigido a uma menina de onze anos.              

                     
Não eram, entretanto, livros como o já citado, assim como "Uanga (feitiço)”, de Óscar Ribas, ou "Undengue” de Jacinto de Lemos, bem como "O segredo da Morta”, de Antônio de Assis Júnior, e "Luuanda”, de Luandino Vieira, que valiam puxões de orelha à pequena leitora. Era a colecção de romances eróticos "Júlia”, "Sabrina” e "Bianca”, entre outras dirigidas, maioritariamente, a senhoras. Muito boa gente, mulheres, sobretudo, deve a esses pequenos livros a paixão que hoje tem pela leitura. A progenitora da articulista exibia, orgulhosamente, uma colecção de romances na estante da sua humilde sala. Humilde aos olhos de quem valoriza o material. Mas, para os amantes da leitura, aquela estante simples, em madeira castanha clara, albergava uma verdadeira relíquia. "Já te disse para não mexeres nos meus livros.


Não são para a tua idade”. A chamada de atenção, por vezes acompanhada de castigos corporais, era feita quase diariamente. A menina perguntava-se como a mãe dava conta que lhe faltavam livros nas prateleiras, e se, ao tirá-los, fazia-o cuidadosamente, para não ser descoberta? Estava fora de questão deixar de "furtar” temporariamente os livros, até porque a dona destes trabalhava, e estudava no período pós laboral. Era muita tentação para uma menina, proibida de ir à rua, exceptuando idas à escola, mercado ou outro lugar devidamente autorizado pela encarregada de educação.


Hoje, volvidos quase trinta  anos, só resta agradecer à dona da estante, da filha e dos livros, a maioria perdidos em mudanças de casa, furtos e outras questões domésticas. Se a paixão pela leitura teve impressões digitais da mãe, a semente do amor à arte de comunicar foi lançada pelo maior leitor do Jornal de Angola que a escriba conheceu: o pai, de feliz memória. Não lia a publicação apenas. Folheava-a cuidadosa e alinhadamente, sem dobrar as folhas, sem colocar objectos por cima. Aliada ao café e ao tabaco, a leitura diária do Jornal de Angola era dos maiores prazeres do simpático e afável Kota Inácio,  tal como os jovens do bairro Mártires do Kifangondo o tratavam. Era um verdadeiro contador de histórias interessantes, que levavam vários jovens a cercá-lo para ouvirem-no falar de política, desporto, economia, cultura, entre outras questões quotidianas. Com os moradores estrangeiros daquele bairro, era frequente ouvi-lo falar em lingala, francês ou inglês.


"Papá, o que significa amiúde?”perguntou-lhe certa vez a autora do texto, depois de ter lido a palavra numa das páginas do JA.


"É algo que acontece frequentemente, filha. Que se repete várias vezes. Quando não perceberes uma palavra, aponta num caderno e vai ver o significado no dicionário. Assim vais conhecer muitas palavras”, recomendou o progenitor. Uma orientação que a quinta filha do Kota Inácio faz questão de seguir até hoje.


Voltando à idade para exercer jornalismo. Se, por um lado, no início de carreira, não existia idade para começar, por outro não se estipulava a altura certa para deixar de exercer a nobre e bela profissão. Hoje, a maioria assiste, estupefacta, jornalistas séniores, que muito do seu saber e experiência têm a oferecer aos jovens, serem encaminhados prematuramente para casa, muitas vezes com uma pensão que, sequer, lhes permite viver confortavelmente. Mas quem é o jornalista para  questionar o legislador, estando em vigor o velho adágio  "Dura lex sed lex?”.


Edna Cauxeiro

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