Sociedade

A hora e a vez do carvão da cidade

Guimarães Silva | Bengo

Os carvoeiros e lenhadores antes desenvolviam as suas actividades nas matas. Há cinco anos que se fazem ao biscate irregular como profissionais urbanos, não medindo esforços para obter mais algum suporte à sobrevivência.

30/05/2021  Última atualização 11H35
© Fotografia por: Guimarães Silva | Edições Novembro
Os homens do carvão obtêm com relativa facilidade a  matéria-prima para a produção através do  abate, poda ou queda de uma espécie vegetal de grande potencial, a acácia espinhosa.

A acácia espinhosa é de  raiz fasciculada, que penetra pouco em qualquer tipo de solo. Ela é  de crescimento rápido, frondosa e tem caule lenhoso  que pode atingir os dez metros de altura,  segundo sustenta João Carvalho Silva,  especialista polivalente (agronomia, silvicultura e pecuária) que reside em Cacuaco há mais de  duas décadas.
"A acácia dá  carvão de qualidade. Ela não serve para madeira porque não sobe verticalmente para produzir toros consistentes para a serração”, revela João Carvalho  Silva, acrescentando que "no auge do seu crescimento, os ramos atingem  excesso de  peso e a queda por acção das chuvas e do ventos é uma constante; o que  provoca inúmeros constrangimentos. A destruição de casas, viaturas e  cabos eléctricos  é o   somatório de estragos que anula muito do positivo que a árvore empresta à flora e ao ambiente”, adianta.

Em Cacuaco, geralmente,  quando a acácia espinhosa atinge certa idade e altura, a solução escolhida pelos moradores tem sido o abate.  Muitos moradores antes preferiam  colocar os tronco dela no lixo, onde eram  imediatamente aproveitados, a custo zero, por quem conhecia o seu  potencial. Hoje o aproveitamento é previamente negociado, porque é do  conhecimento  geral que  dá   para a produção de  carvão e, com isso,  dinheiro.
Realismo na produção
O carvão  é dos combustíveis  preferidos de  algumas famílias para a cozinha, porque acarreta menos perigos em relação ao gás. Por outro lado,  encabeça a lista dos mestres da cozinha como  primeira escolha para a confecção de  apetitosos  grelhados.

O método utilizado para a produção de carvão vegetal no bairro 17 de Setembro, nova urbanização do município de Cacuaco,  é cauteloso. O local para a queima do vegetal  nem sempre  é   afastado das residências. Via de regra, por precaução, os carvoeiros preferem os espaços abandonados distribuídos para a construção,  já que a produção é acompanhada do cheiro nauseabundo da queima da seiva e consome, igualmente, muito  oxigênio.
Outro senão está na emissão de fumo e de dióxido de carbono, acção  que encontra paralelismo  com as queimas regulares e desordenadas de lixo, pneus e capim  feitas por alguns moradores às manhãs e/ou ao entardecer, num gesto que em muito afecta, de forma negativa,  o meio ambiente.

O fabrico, segundo conselho de craques do ofício, deve ser realizado  sempre em terreno húmido, o que implica alguma mestria. A lenha ou os troncos a  utilizar não devem estar demasiado secos. Têm que ser cortados nas medidas padrão. Depois de colocados num buraco previamente escavado, procede-se à queima, seguido da cobertura com capim e argila que devem estar sempre húmidos  para evitar o excesso de temperatura,  que  coloca  em risco a produção, transformando-a em cinza.

Biscate de suar a camisa
Os homens que se dedicam à profissão de carvoeiros e lenhadores em Cacuaco hoje já não se escudam no anonimato. Consideram a profissão um "biscate duro” que nem sempre dá o resultado desejado. "Nunca sabemos das quantidades que  vão sair do buraco. Quando não se mete bem o fogo, queima tudo”, adianta Lourenço Artur, lenhador e carvoeiro de longa data.
O negócio do carvão rende porque tem sempre mercado. Miguel José, jovem que está há três anos nestas lides, informa: "só fazemos o trabalho na presença do dono do negócio, que deve acompanhar até a extração do carvão. Assim ele fica a saber das quantidades e perdas”. Sem revelar a percentagem dos rendimentos por serviço, adianta que "nunca vi um carvoeiro rico, embora o saco de metro e meio de altura custe, hoje, quatro mil e quinhentos  kwanzas”.

Vitorino João, carvoeiro do mercado "Suja a Blusa”, à entrada  da estrada da Cerâmica, em Cacuaco, informa  que é um  trabalho eventual,  um biscate, porque não aparece com regularidade. Conhecedor do ofício, reconhece que "é duro”.
"De preferência trabalhar em grupo de duas a três pessoas. Temos que cavar o buraco com alguma profundidade, endireitar os troncos, suportar o fumo. Não é fácil”, admite Vitorino João.


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