Opinião

A hora do balanço

Sylvain Itté |*

Jornalista

Depois de quatro anos maravilhosos passados em Angola enquanto representante do meu país, é com muita emoção que já estou a preparar-me para partir para outros horizontes.

02/10/2020  Última atualização 00H10

Foram quatro anos muito ricos, em primeiro lugar a nível pessoal, e toda a minha família conservará uma extraordinária memória do povo angolano e deste maravilhoso país.
E,na hora do balanço, vejo com grande satisfação o caminho percorrido e a formidável evolução da cooperação franco-angolana.
Foi um verdadeiro privilégio assistir às evoluções que Angola conheceu desde a minha chegada em 2016, assim como os desafios que teve de enfrentar: uma transição do poder com a chegada do Presidente João Lourenço em 2017, uma forte crise económica e, evidentemente, a pandemia da Covid-19 a qual o mundo se vê agora confrontado. Ao longo deste período, a relação franco-angolana foi estimulada porprojectos comuns e baseados em análises partilhadas sobre numerosos dossiês estratégicos e a amizade entre os nossos povos reforçou-se. Durante a minha missão aqui, quis prosseguir a dinamização da relação desejada pelos nossos Presidentes.Os encontros de alto nível, já iniciados em 2013, intensificaram-se, nomeadamente com a visita do Presidente Lourenço à França, em Maio de 2018. Esta vontade devia culminar por ocasião da visita do Presidente Emmanuel Macron. Infelizmente, foi adiada devido à crise sanitária, mas continua a ser uma prioridade para os próximos meses.
As orientações das nossas acções e objectivos em Angola e em África foram definidos pelo Presidente Emmanuel Macron no seu discurso na Universidade de Ouagadougou, em Novembro de 2017. Estes objectivos dão prioridade à educação e à juventude, ao apoio ao empreendedorismo, à promoção das culturas africanas, à luta contra as alterações climáticas, à ajuda ao desenvolvimento e à estabilização do continente. Ao longo da minha missão, assegurei-me de que a nossa cooperação aqui em Angola enquadrasse claramente no âmbito destas orientações políticas levadas em todo o continente africano. Os nossos compromissos pretendem ser estruturais e inscrevem-se no longo prazo.
As empresas francesas, grandes e pequenas, estão na origem de mais de 10.000 empregos em Angola. Contribuem directamente para o crescimento económico e à criação de valor acrescentado através dos seus investimentos.A França também apoia Angola nos seus esforços de diversificação económica. A Agence Française de Développement (Agência Francesa do Desenvolvimento - AFD) conduz vastos programas de desenvolvimento de centenas de milhões de euros destinados a favorecer o acesso à água e desenvolver o sector agrícola. Oferecemos também formações profissionais aos futuros quadros de sectores-chave, tal como a agricultura, a agro-indústria e o turismo.
Mas, as relações entre os nossos dois países não podem passar apenas pelo prisma económico e político: a cooperação cultural é uma componente essencial da nossa acção. Para além de uma actividade cultural rica, graças nomeadamente à rede da Alliance Française, participamos activamente na valorização do património cultural e histórico angolano. A este respeito, congratulo-me por ter contribuído ao apoio da França à candidatura do sítio histórico de Mbanza Kongo a Património Mundial classificado pela Unesco.
Conduzimos, também, uma política educativa muito activa, de acordo com a vontade do Presidente Emmanuel Macron de apoiar a juventude africana. As quatro escolas públicas bilingues angolanas da rede Eiffel - situadas em Caxito, Malanje, Ondjiva e Ndalatando - formam todos os anos centenas de estudantes angolanos de todos os estratos sociais, graças ao compromisso muito importante da empresaTOTAL E&P Angola e ao apoio pedagógico e de peritagem da Embaixada da França. Proporcionámos uma maior visibilidade a estas escolas, o que fez com que mais jovens recebessem uma educação científica de excelência, permitindo-lhes candidatar-se a bolsas de estudo no estrangeiro. Hoje, graças ao trabalho do Campus France Angola, cerca de 1000 angolanos, oriundos da rede Eiffel, do Liceu francês de Luanda ou de outros estabelecimentos escolares angolanos, estudam em universidades francesas. Voltarão a Angola para construir o futuro do país.
Por último, a assinatura de um acordo da Defesa em 2018 completou a nova dinâmica iniciada pelos Presidentes Macron e Lourenço. Este texto fundador permite trabalhar em conjunto nos sectores da segurança marítima ou das operações de manutenção da paz para contribuir a estabilidade regional. Por outro lado, aprofundámos o intercâmbio entre os exércitos angolano e francês.
Há ainda muito por realizar e muitos sectores de cooperação a explorar e a dinamizar. Nos próximos anos, a França continuará a aprofundar uma colaboração de 40 anos. Assim, a formação profissional, a juventude, a aprendizagem do francês, a valorização do património cultural e o desenvolvimento da agricultura continuarão a ser os eixos principais e essenciais das nossas acções em Angola.O futuro da juventude e a esperança de uma vida melhor para o povo angolano, a melhoria da educação das meninas e dos meninos continuarão a ser a nossa bússola, o nosso rumo e o nosso objectivo. A França deseja, igualmente, acompanhar Angola em novos domínios promissores, como a protecção do ambiente e as energias renováveis.
Apenas conservarei excelentes recordações de Angola, dos angolanos e dos fortes laços que estabeleci aqui. Recordar-me-ei de um povo determinado, muito afeiçoado, ancorado no cruzamento de várias culturas. Lembrar-me-ei de paisagens magníficas, ainda muito pouco conhecidas do mundo. Estarei atento, à distância e já não como testemunha directa, ao que a amizade franco-angolana produzirá. Eu sei que ainda tem dias bons pela frente.A França permanece ao lado da África e especialmente do povo angolano. Estou convencido de que a nossa cooperação continuará a demonstrar o quanto os valores da solidariedade, da liberdade e da democracia unem o destino dos nossos dois países.

* Embaixador da França em Angola

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