Opinião

A história não se apaga e evitemos que se repita

Adebayo Vunge

Jornalista

Há cada vez mais literatura disponível sobre os principais eventos da nossa realidade histórica, especialmente do pós-independência que, como todos sabemos, tem episódios muito marcantes para a vida de todos e de cada um de nós.

07/11/2022  Última atualização 06H00

Na lógica da alteridade, especialmente entre o MPLA e a UNITA encontramos eventos que sacudiram o establishment e determinaram um curso diferente da nossa história.

Não podemos por isso olhar de soslaio para tentar perceber o que efectivamente se passou por exemplo no 27 de Maio de 1977. De tudo o que li e procuro de forma afoita, saltou-me à vista, a obra "Em nome do Povo”,  da jornalista inglesa Lara Pawson, que junta diversos relatos, portanto, diversos olhares nem sempre encontrados de um evento que sacudiu o poder do MPLA na jovem República Popular de Angola.

Mas o caricato é que o mesmo tabu com que se aborda o 27 de Maio vemos no 7 de Setembro de 1983 em que se realizaram as malditas fogueiras na Jamba onde foram a partir daquele momento sendo queimadas até a morte diversas figuras de proa da UNITA, sob a liderança de Jonas Savimbi. Os homens que representassem ameaças à sua liderança ou ainda as mulheres que, por alguma estúpida razão, considerasse bruxa, o destino não poderia ser outro senão a sua eliminação.

Acho curioso que diante de um tema tão delicado faltem vozes com a ousadia e irreverência da jornalista Bela Malaquias que nos dá um testemunho significativo sobre o que se passou naquelas hostes. O tema é de tal sorte um tabu que já vi pessoas negarem a sua existência ou atribuírem à sua existência a propaganda do MPLA, num jogo que nada mais visa senão colocar areia nos olhos da juventude carente de conhecimentos sobre a nossa História.

Diante deste retrato suportado em factos incontestáveis, parece muito estranho que alguns criem epítetos bondosos para classificar a figura do antigo líder da UNITA. Não é para aqui chamada a sua dimensão pessoal de pai, mas ousar classificar Jonas Savimbi de pai da democracia ou de seja lá o que for é uma ofensa atroz às vítimas desse feminicídio tão bem retratado na obra literária "Heroínas da Dignidade”. E para estes afoitos defensores da desumanidade, a autora deixa no prefácio uma análise interessante: essa mesma história - entenda-se a história de humanidade - ensina-nos que um ditador não passa de uma ilusão ou ficção por nós aceite: na verdade, o seu poder só cresce através de alguns « sub-ditadores » conscientes, cuja acção tirânica e de corrupção não tarda a tornar-se insuportável.

O tema é de tal sorte delicado que o livro de Belas Malaquias destapa uma dura realidade da vida nas matas e das razões de fundo para comportamentos tão invulgares no seio dos seus « maninhos » de então que conviviam cobardemente com aquela realidade marcada por mortes e assassinatos de assustadora frieza.  Tenta ainda perceber a postura dos militares, que poderiam ser considerados co -autores e responsabilizados não apenas pela destruição mas principalmente por todas aquelas vidas, como se pode ler no capítulo 33 cujo título é a humilhação orquestrada pelo grupo de fuzilamento.

Em vários capítulos, mas de fácil e muito rápida leitura, tal a sua veia jornalística marcada pela objectividade, algumas vezes deliciando-nos com pormenores de uma longa marcha e vida nas matas desde 1976 até a instalação na mítica Jamba e os anos seguintes tendo como esteio fundamental uma caracterização das suas vítimas no fatídico 7 de Setembro de 1983. O livro é um testemunho importante.

Depois da Vice-Presidente do MPLA ter evocado estes episódios durante um comício na campanha eleitoral do seu partido, decidi também ir a atrás do livro. Não gosto que me contem, prefiro ler e conhecer para não ser enganado com discursos que escondem uma história marca de atrocidades mas ocultada.

E não nos enganemos. Está a criar-se uma ilusão segundo a qual a reconciliação passa por apagarmos ou sonegarmos a história. É falacioso. E sob pena de não cairmos um dia no mesmo, vamos divulgar a nossa história.

A reconciliação pressupõe perdão, mas perdoar não é apagar, é desculpar o erro do outro. É por isso fundamental que o outro faça também o seu pedido de desculpas. É fundamental também que o Estado edifique um monumento em memória daquelas vítimas, principalmente as mulheres e crianças, como se pode ler no capítulo 27 com a história das vinte uma pessoas queimadas vivas.

Se a História não se apaga, é importante que ela não se repita. Por isso, saúdo e recomendo efusivamente o livro de Bela Malaquias como o fiz com o de Lara Pawson e outros que possam surgir com o objectivo de nos trazer mais luz sobre a nossa História. Uma edição da Mayamba, o livro encontra-se disponível em vários espaços comerciais ou nas nossas raras livrarias. Boa leitura.

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