Opinião

A herança de prejuízos que vamos deixar para os nossos filhos

André da Costa

Jornalista

No início da década de 90, foram apresentadas teses sobre as actividades nocivas ao mundo e à humanidade, reunidas posteriormente em livro, com o título: “Stop a destruição do Mundo”. Um dos textos de análise económica elaborado por um trabalho de grupo debruçou-se especificamente sobre a injustiça social, os gastos com a defesa, a indústria do vício, a inactividade da população, a destruição dos alimentos e o papel dos bancos.

04/05/2019  Última atualização 11H18

Ronald J. Wilkins, citado por Norberto Keppe, em “A libertação dos Povos”, escreveu o seguinte no seu livro “Achiving Social Justice” (Alcançando Justiça Social): “Mais de 85 por cento das pessoas no mundo sofrem os efeitos humilhantes e degradantes da discriminação. A maioria das mulheres e maioria das minorias (as minorias que são maiorias), nos EUA e no mundo todo são discriminados. Mais de 70 por cento das pessoas no mundo são pobres. Na América Latina, América do Sul, Ásia e África, mais de 400 milhões de pessoas, 40 por cento das quais são crianças, sofre de severa desnutrição. Quase 65 por cento das pessoas no mundo não gozam de liberdade política. Pessoas do mundo todo estão debaixo de uma guerra nuclear. Agora é importante compreender as causas de tais injustiças”.
Já o jornalista Claude Moisy, à época, correspondente da France Press em Washington, escreveu, no seu livro “O Complexo Militar-Industrial Americano”, que o governo daquele país, em 1970, no mandato do presidente Nixon, designou 81,2 biliões de dólares para despesas militares, o que representava 44 por cento do orçamento americano, que totalizava 181 biliões. Nessa altura o Pentágono era constituído por 4.700.000 homens sem uma função produtiva de bens, i.e., 3.500.000 militares e 1.200.000 civis, que precisavam de ser vestidos e alimentados. Na realidade, os gastos mais elevados, nos EUA e em outros países, continuam a ser com a defesa e segurança (incluindo espionagem). A dívida dos países do chamado Terceiro Mundo correspondia a 80,1 biliões de dólares. Apesar de ser, na altura, a 8ª economia mundial, a dívida do Brasil situava-se, há mais de 20 anos, entre os 80 e os 120 bilhões de dólares, o que levava o país a viver em extrema miséria, só para pagar os juros.
Principalmente, nos EUA, a indústria da morte (armas e vícios) tornou-se na base económica de inúmeras nações. No jornal “Le Figaro”, de 19 de Maio de 1990, Milton Friedman (economista responsável pela Reaganomics, afirmou que os EUA tornaram-se “sem dúvida no mais importante produtor de marijuana do mundo, e esta planta é certamente a segunda ou terceira cultura da Califórnia”.
A população activa é calculada, em alguns países, em cerca de 44 por cento. O restante são crianças, adolescentes, estudantes, reformados, etc. Grande parte desta força de trabalho está desempregada e, segundo Cláudia Pacheco, em “A Multinacional Americana das Drogas – Dossier” previa-se, naquela altura, que no início deste século haveria cerca de 400 milhões de desempregados. “Dos que ‘trabalham’, um enorme contingente participa de actividades secundárias, inúteis ou nocivas: bancos, burocracia, fábricas de armas, de cigarros, de bebidas, de pesticidas, reactores atómicos, remédios nocivos, casinos, etc.). Nesta ordem de ideias, só uma pequena parcela da população activa do planeta trabalha efectivamente na produção de bens realmente necessários: na agricultura, nos transportes, na habitação, no vestuário, nas artes… e mesmo nestes casos, de acordo com Cláudia Pacheco, “entra o consumerismo, através da produção de transportes poluidores, baseados na energia do petróleo, com a finalidade de continuar a dar lucro aos magnatas do sector petrolífero, como David Rockefeller, George Bush, entre outros”.
O livro de Norberto Keppe, “Trabalho e Capital”, refere, por seu turno, que há indústrias, comércio e governos, que põem ao seu serviço milhões de pessoas, que tiram o seu lucro da morte e destruição de seres humanos e do ecossistema. “Quanto mais guerras houver, melhor para eles. Quanto mais doenças mais remédios vendem. Quanto mais toxicodependentes, mais ganho terão. Quanto mais devastação ecológica, mais dinheiro fazem em caixa. É a inversão total de valores na sociedade, que significará, mais cedo ou mais tarde, a ruína total de todos”. Quando há superprodução de alimentos, para elevar os preços os mesmos são estocados ou destruídos, como foi o caso de, na Holanda, terem sido lançadas ao rio 200 mil toneladas de leite.
Por sua vez, o jornalista francês Cristian de Brie, no “Le Monde Diplomatique” de 25 de Abril de 1990, descreve que “há muito que os bancos lavam e reciclam o dinheiro da fraude fiscal, das transferências ilícitas de capital, do tráfico de armas, do tabaco, álcool, de mercadorias, de comissões ocultas, de falsas facturas, de fortunas pilhadas de tiranos e ditadores do mundo inteiro. Eles possuem redes mundiais equipadas para esse fim. Em resumo, os dois sócios (traficantes e banqueiros) têm necessidade um do outro”. Infelizmente, esta é a herança de prejuízos, que iremos deixar para os nossos filhos.

* Ph. D em Ciências da Educação e Mestre em Relações Interculturais

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