Cultura

A grande escola de artes para as crianças vindas da guerra

O Presidente Agostinho Neto ordenou a transferência das crianças dos teatros de guerra para Luanda como processo de cura dos profundos traumas da violência. A Luanda chegaram 240 crianças, espalhadas por diversos centros de acolhimento e no Barracão tinham aulas de arte.

23/11/2022  Última atualização 08H05
Os murais no Hospital Militar de Luanda foram pintados pelos alunos do Barracão vindos das frentes da guerra © Fotografia por: DR

Falar do Barracão implica falar de duas narrativas distintas. No período pós-Independência, mais propriamente em fins de 1976, pelo Conselho Nacional da Cultura, o Barracão abre as portas para acolher os pioneiros de guerra vindos das várias regiões do país.

Formaram-se, assim, duas turmas de 120 alunos cada uma, divididos em turma da manhã e da tarde, num total de 240 crianças, a funcionar na zona entre os Coqueiros e a Cidade Alta, onde eram as ruas do Sol e do Cazuno.

Era constituído por 3 grandes salas de desenho, pintura e cerâmica, bem como  uma biblioteca, um gabinete de coordenador e posteriormente, aberto nas traseiras, mais uma pequena sala para estudos e projectos dos instrutores de artes plásticas.

Esta primeira narrativa, pautou-se por uma actividade dirigida à recuperação das crianças, através da arte, cuja vivência nos cenários de guerra deixaram marcas traumáticas, frágeis e grandes abalos emocionais.

O Barracão desta época foi o testemunho de uma história de amor e arte que nos uniu e ajudou a educar crianças, a superar dificuldades, a reinventar estratégias, confiando no tempo e preparando os alicerces com iniciativas fortemente construtivas, intensificadas para o bem dos pioneiros de guerra, crianças tão sensíveis, tão carentes e tão fragilizadas.

Tenho a convicção de que o Barracão foi a maior oficina de artes, que nos salvou a todos, professores e alunos intervenientes desta vivência, pelo maravilhoso poder que a arte tem de transformar!

A segunda fase

A segunda narrativa do Barracão, ronda a data de 1978, ganhando a denominação de Barracão-Escola de Experimentação Técnica e Artística, aberta a um vasto público infanto-juvenil, da cidade de Luanda.

Um grupo de instrutores de artes plásticas assegura as aulas e ao mesmo tempo estuda arte nas instalações, posteriormente da Rádio Escola e mais tarde nas instalações da UNAP, cursos ministrados por professores cubanos, grandes referências das Artes Plásticas de Cuba.

O Barracão desta fase tem um grande leque de alunos e estende-se a outras disciplinas, como  fotografia, teatro de fantoches e cinema infantil, para além das disciplinas fixas do desenho, pintura e modelação/cerâmica.

Surge um tempo novo, flui uma nova arte, uma época de grande produção artística, quer de alunos, quer dos instrutores.

Prestam-se serviços a várias entidades culturais, execução de elementos artísticos alusivos às datas especiais (Carnaval da Vitória, Dia da Independência Nacional), os alunos participam em concursos artísticos no estrangeiro, ganhando prémios e decorre um período artisticamente activo e rico em resultados positivos.

Surge o cinema infantil, série "Os meninos à volta da fogueira”, com a participação de alunos, professora e a realizadora. Foram realizados 3 filmes para a TPA, da referida série. Foram ainda preparados no Barracão delegados de cultura popular para trabalhar com crianças, jovens e cidadãos da 3ª idade, nos bairros da cidade, comunas e municípios.

O Barracão foi sem dúvida, uma grande escola de artes, com vida própria, carregada de arte e aprendizagens.

Teve um preponderante papel educativo na sociedade da época, que se frutificou nas inúmeras e inesquecíveis experiências durante o tempo da sua existência.

Obrigada por tudo inapagável Barracão!

 

Cecília Martins*
*Professora de Artes Visuais, licenciada em  Estudos Artísticos, Arte e Património

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