Entrevista

Entrevista

“A falta gritante de equipamentos sociais públicos tem muito a ver com políticas urbanísticas erradas”

Natacha Roberto |

Jornalista

Apesar da idade, o engenheiro António Venâncio ainda tem vários desafios no campo profissional, um dos quais é a materialização do projecto Rio Luanda, concebido para ser o início de uma “revolução sanitária" em Luanda. E, se ainda for a tempo, desenhar ou participar na construção da primeira grande auto-estrada de Angola para fazer, como diz, “arrancar a nova economia de Angola”. António Venâncio, que completa, no próximo mês, 66 anos, foi abordado pelo Jornal de Angola para uma entrevista, tendo como assunto principal os projectos habitacionais construídos pelo Estado.

15/06/2021  Última atualização 09H15
Engenheiro António Venâncio © Fotografia por: DR
Do ponto de vista técnico e de habitabilidade, há diferença estrutural entre centralidade, cidade e urbanização?  

Sim, há uma diferença significativa nestes conceitos. As centralidades distinguem-se das cidades, assim como uma fruta se distingue de um pomar pelas grandezas em causa. As cidades produzem centralidades e estas resultam de fluxos humanos e dos movimentos resultantes das deslocações terrestres, localizadas num dado centro, de pessoas que para aí se deslocam com a finalidade de aí desenvolverem actividades humanas de vária índole: comercial, cultural, turística ou mesmo desportiva, por exemplo. A centralidade não se constrói administrativamente. Ela surge por si, em função da importância urbanística que dado espaço, dentro de uma cidade, gera para os seus habitantes e visitantes, produzindo memórias e factos que marcam a história da vida das cidades e dos próprios cidadãos. Lá onde há centralidades, há recordações e histórias por contar, de geração em geração, de pais para filhos e assim vai com o andar dos tempos. As urbanizações, também chamadas cidades ou vilas, podem apresentar dimensões variadas e, por isso, são classificadas em pequenas, médias ou grandes cidades, as designadas metrópoles, em função do número de habitantes ou da importância económica ou política que ostentem. É dentro delas que surgem as centralidades.
Numa cidade se podem reproduzir várias centralidades, com características específicas. Isto só acontece com o andar dos tempos, habitualmente devido aos movimentos rodoviários e deslocações pedestres pendulares que perduram no tempo, sobretudo, quando as acessibilidades são bem desenhadas e facilitadoras dos intensos intercâmbios culturais ou comerciais no espaço urbano considerado.
 
Como avalia a qualidade construtiva dos projectos habitacionais construídos pelo Estado?

A minha avaliação compreende dois parâmetros: no plano político-económico, na base das políticas públicas de oferta de habitações - para atender às necessidades dos cidadãos interessados – e, no plano técnico, para atender ao desenvolvimento no sector imobiliário e na construção civil. Se a oferta de mais habitações é sempre bem-vinda, por ajudar a reduzir o enorme défice existente, já não posso concordar com o modelo desta política, quando descura a necessidade da sua sustentabilidade económica. O Estado estrangulou o mercado imobiliário quando se socorreu de processos que envolveram importações gigantescas de materiais e equipamentos ou máquinas, pois prejudicou grandemente o desenvolvimento do sector da Construção Civil e do empresariado nacional da indústria dos materiais de construção. No nosso caso concreto, o Estado, não tendo cuidado do fomento do sector industrial da Construção Civil, da produção dos materiais de construção e da prestação de serviços técnicos, quase paralisou o sector imobiliário do país e inibiu os investimentos nas áreas da Engenharia Civil, da Construção, do Urbanismo e da Arquitectura.  
 
Vi-o uma vez a sair de uma viatura, estacionada no Bloco 2, da cidade do Sequele, junto a uma agência bancária. Se disser que vive no Sequele, quero que me diga como viver numa área residencial ainda com um gritante défice de equipamentos sociais?

Na verdade, eu sou um cidadão de Luanda. Todos os dias percorro vários quilómetros no centro e nas periferias. É encantador percorrer os mais recônditos ou os mais pitorescos lugares. No Sequele, no Kilamba, no Kapari ou no Patriota, sou visto quase diariamente. No centro da Baixa de Luanda, sou visto a caminhar a pé. No Rangel, posso ser visto na Rua do Povo ou na Rua da Vaidade ou na Comissão do Rangel, em conversas amenas com contemporâneos ou curtindo a paisagem do musseque. Na Ingombota, Bairro Popular ou Prenda, idem. A falta gritante de equipamentos sociais públicos tem muito a ver com políticas urbanísticas erradas, que pretendem acudir às necessidades em habitações, deixando para trás a criação de infra-estruturas básicas urbanas. Sem infra-estruturas urbanas para atender às necessidades de redes de saneamento, de fornecimento de água ou de construção de acessibilidades rodoviárias e outras, não é possível colmatar as necessidades de equipamentos sociais. É como pretender dotar a cidade de milhares de autocarros sem alargar o número de vias na cidade e tentar prestar o serviço sem espaços criados para paragens e terminais de autocarros. É o que está a acontecer em Luanda: estamos a tentar construir milhares de casas e apartamentos sem cuidar da água potável, sem garantias de energia de qualidade e na quantidade necessária, sem redes de saneamento nos volumes adequados. O urbanismo requer uma perfeita sincronização entre o crescimento urbano e a expansão urbana. Quando o crescimento populacional é maior que a expansão, a cidade não funciona e, quando a construção habitacional é maior que a criação de infra-estruturas e equipamentos sociais, no final teremos o caos urbano.
 
Os agregados familiares dos angolanos são robustos, podendo, por exemplo, um casal ter 12 filhos. Não acha que a construção de moradias no país devia ser levada em consideração esse aspecto cultural, digamos assim, para que se evite a construção de moradias com compartimentos exíguos, sobretudo, os quartos?

O Estado devia ocupar-se fundamentalmente das habitações sociais e de moradias de intervenção pública, para atender segmentos populacionais da administração pública em zonas recônditas do país mais carentes, e assim garantir a prestação de serviços públicos dos funcionários da Educação e da Saúde como sectores socialmente mais delicados. Fora disso, não vejo qualquer mérito quando o Estado constrói as ditas "centralidades” ou se propõe a construir habitações para arrendamento. Esta tarefa compete, em geral, ao sector privado da construção civil e imobiliária, ou às cooperativas habitacionais que devem receber os apoios institucionais inerentes. É deste modo que nos surgem casas com compartimentos exíguos, sem critérios urbanísticos condizentes com a cultura e costumes das famílias angolanas, sem se adaptarem às condições da habitabilidade exigíveis pelas normas técnicas e do urbanismo.
 
Quais são as vantagens e desvantagens das construções em altura?  

A decisão, se uma dada urbanização deve ou não ser em altura, dependerá de factores económicos e de disponibilidade de território urbanizável, que, por sua vez, vai depender dos planos directores municipais. Enquanto as construções em altura poupam em infra-estruturas e redes técnicas, constituindo uma vantagem pela maior densidade, elas, porém, não permitem a plena satisfação dos hábitos e costumes das famílias angolanas extensas, que têm na reunião familiar, na convivência social de grande proximidade e na solidariedade a sua essência de vida em comum. E isso é uma desvantagem a considerar.   
 
Acha que não faz sentido a construção em altura por Angola ser um país territorialmente vasto?

Depende da natureza dos investimentos, se privado ou público. A construção na horizontal exigirá maior reunião de meios financeiros devido a redes técnicas mais vastas. As construções estão sempre inseridas num dado território e este território deve estar munido de acessos e infra-estruturas básicas. É por aí que depois se decide que tipo de construções adoptar para aquele espaço, se partir para maior ou menor densidade.
 
O engenheiro António Venâncio tem posto à prova o seu saber científico também por via da produção de textos em jornais e nas redes sociais. As verdades científicas colocadas nos seus textos têm causado desconforto ao seu partido, o MPLA?
 
Não acredito que os meus textos causem desconforto ao partido, o MPLA, mas estou consciente de que causa seguramente desconforto a alguns dos meus camaradas. Estou tranquilo, porque é consabido que, desde há décadas, muito venho criticando os erros que, por vezes, se vão cometendo, sobretudo, quando tais erros afectam os angolanos (sem distinção do partido a que pertençam) ou a própria organização. Não tenho tido outros foros mais privilegiados, para me tornar, também, parte da solução dos nossos problemas. Os meus textos são assim o meio privilegiado que escolhi, para me tornar numa partícula contributiva, numa pequena força de impulso para o desenvolvimento do país e do próprio MPLA, apesar de, algumas vezes, ela se possa tornar incómoda, sobretudo em vésperas de eleições. O que me importa é colocar sempre o desenvolvimento de Angola em primeiro lugar. Já estamos muito atrasados no tempo. Temos de ser mais exigentes para com o desenvolvimento e isso pode parecer um prejuízo para o partido, mas não é. O contraditório ajuda e acelera o progresso.
 
Qual é a sua visão técnica sobre a resolução definitiva do problema habitacional em Angola, sobretudo, na província de Luanda, a  mais populosa no país?  

Entendo que temos de repensar, nos tempos próximos, toda a política pública habitacional do Estado. Ela contém fortes indícios de uma mente centralizadora, excessivamente virada para o imediatismo, descura a sustentabilidade económica e não fomenta o surgimento de um verdadeiro sector da construção civil e da imobiliária, inibindo investimentos mais sérios no sector da produção e indústria dos materiais de construção. Luanda alberga cerca de um terço de toda a população de Angola. É em Luanda que a política habitacional devia ser exemplar. E é em Luanda onde se verificam as maiores distorções, e até incongruências, onde apartamentos e habitações são vistos vazios a degradarem-se incompreensível e penosamente em quantidades espantosas. Há que se mexer, também, nos projectos e cadernos de encargos, para um melhor aproveitamento das capacidades internas, na transformação dos recursos naturais e materiais disponíveis na natureza rumo à industrialização ou manufactura do que for possível.

Uma vez que é uma verdade absoluta  a existência, em apartamentos de edifícios das centralidades de Luanda, de infiltração, vazamento e outros defeitos de construção, o que pode afectar a salubridade da moradia e até provocar risco de ruína, as construtoras chinesas podem ser levadas pelo Estado a tribunal para serem condenadas a executar obras necessárias à habitabilidade dos edifícios?  

No caso concreto das chamadas "centralidades”, que eu saiba, não foi contratada uma fiscalização tradicional e profissional como seria ideal, mais por razões legais decorrentes do modelo do financiamento. Todavia, as obras públicas beneficiam de um período de garantia que pode atingir vários anos, sendo que, no silêncio do contrato, ele será de dois anos. Se neste período se verificarem deficiências ou se detectarem vícios ocultos, o empreiteiro é obrigado a refazer a deficiência sem custas para o Estado, nem para o inquilino. Mas isto só seria possível se fosse contratada uma fiscalização técnica, para, na hora certa, notificar o construtor, dando-lhe um prazo para corrigir as deficiências. De forma a garantir este tipo de procedimentos, em regra são depositadas cauções para a garantia da boa execução, só libertadas com a emissão de um auto de entrega definitiva. Não sei se este procedimento de garantias foi respeitado para as ditas "centralidades”.
 
Existe um equilíbrio entre o que foi feito, urbanísticamente falando, nos projectos habitacionais do Estado e o seu impacte ambiental?
  

Raramente temos prestado atenção aos estudos de impacto ambiental para o sector do urbanismo ou das engenharias. No caso concreto da cidade do Kilamba, é possível que estes estudos não tiveram lugar, já que as infra-estruturas de saneamento funcionam deficientemente e não existem pontos de destinatários finais para os esgotos nem está assegurada a manutenção do sistema de tratamento prévio como mandam as regras.
 
Num "post" colocado no Facebook, com data de 14 de Maio de 2021,  o engenheiro António Venâncio escreveu que, em Angola, há muito ruído  quando se trata de usar termos técnicos, chegando, às vezes, a prevalecer a linguagem dos políticos e não a linguagem técnica. A sua opinião mantém-se?
 

Sim, a utilização de termos técnicos da forma mais atabalhoada ainda é um facto no nosso país. Conceitos de auto-estrada, de zonas de risco e de centralidade foram introduzidos no léxico nacional com todas as deturpações possíveis e, quer os órgãos de comunicação social, quer os diversos analistas e políticos, utilizam estes termos sem a devida consulta aos especialistas. Os técnicos, neste ínterim, foram muitas vezes ultrapassados pelos políticos e estes fazem prevalecer tais conceitos, com a força administrativa legal que detêm.
 
Para aquelas situações que comprometam, de forma séria, a segurança e a solidez dos edifícios, quem deve assumir a garantia obrigatória para obras na construção civil - o empreiteiro, o Estado ou os moradores?

Deve ser o Estado como dono da obra, se o tempo de garantia se esgotou e se o Estado não promover acções de manutenção ou fizer mau uso da construção. Será o empreiteiro, se a obra estiver em tempo de garantia e houver sido constatado que houve deficiências de execução. Mas será dos moradores, se houver negligências na utilização da construção, o chamado mau uso.

"A contratação de serviços  a estrangeiros representou  uma grave falta de patriotismo”

Tendo a cidade do Kilamba apenas nove anos de existência, como compreender a existência de problemas na rede de esgotos sanitários, podendo até já entrar em colapso?  

Poderá ser por falta de acções de manutenção preventiva e regular. Em regra, os utentes de edificações urbanas não cultivam o hábito de manutenção e preferem actuar com acções de reparação quando as coisas já fugiram do controlo ou há iminência de algum desastre anómalo. Do que eu saiba, o Kilamba não tem um programa de manutenção periódica, assim como não têm as demais cidades recentemente construídas. Isso é um tema que nos levaria muito tempo a abordar. Isto envolve uma nova forma de gestão de edifícios urbanos que deveria envolver os Seguros, o seguro habitacional. Infelizmente, estamos muito atrasados nesta matéria da manutenção dos edifícios.
 
Uma vez escreveu, no Facebook, que pensar Angola exige concentração. O seu pensamento pode ser discutível, a partir do princípio de que se pode pensar Angola facilmente se o Governo aproveitar, como deve ser, os técnicos altamente qualificados e as potencialidades do país. Falei mal?  

Eu tenho ouvido dizer que o país não tem técnicos, não tem quadros, desde mais ou menos há 40 anos. Este discurso passou a ser uma canção nacional mais conhecida até que o Hino Nacional, o que é de lamentar! Na verdade, era tanto o desejo de se contratarem serviços aos estrangeiros, que acabaram por utilizar como isca os especialistas e técnicos angolanos, passando-lhes, injustamente, uma carta de incompetência. Isto representou uma grave falta de patriotismo. Foi assim, por exemplo, com a água e saneamento, foi assim com as estradas e foi assim com as construções habitacionais, áreas onde foram utilizadas verbas milionárias para contratar serviços, muitos dos quais estão arrumados nas prateleiras há séculos e já sem qualquer valor por estarem ultrapassados no tempo. E isso dói! Dói imenso. Por isso, pensar Angola exige muita coragem, concentração, ponderação e ter coração grande para perdoar.
 Pode dar um exemplo de uma antiga centralidade que desapareceu com a expansão urbana e o crescimento populacional?  
A área envolvente da antiga Gajageira; a Mutamba; a área dos Congolenses com todo o seu equipamento social desportivo, social, comercial, de recreação e até cinema; a Biker, no centro da cidade. No Marçal, por exemplo, havia a área do senhor Moreira, com o seu campo de futebol, lagoa e espaços que atraiam os cidadãos para encontros e conversas de bairro, no Suba. No Bairro Operário, na envolvência do campo do Bangu; na "Estalagem”, em Viana; na Tourada, no bairro da Calemba; na zona do Matupá do Cazenga ou no Triângulo da avenida Brasil; a Rua do Povo, no Rangel, todas elas, com todas as suas envolvências, de periferia ou de centro, já foram pequenas centralidades, onde fluxos pedestres ou em veículos (permanentes, pendulares ou não) dos citadinos proporcionavam, com regularidade e interesse, estes encontros de trocas culturais, de recreação, de informação e "mujimbos”, brigas de amigos ou simplesmente encontros marcados que produziram, ao longo dos tempos, muitas memórias e recordações marcantes que ficam para a história da cidade e dos próprios habitantes.
 
Por que razão considera que o projectado Rio Luanda pode vir a ser o início de uma "revolução sanitária" em Luanda?

O Rio Luanda é a deslocação do manancial de água bruta para dentro dos territórios carentes de água e vai conferir autonomia hídrica necessária para desencadear a tal revolução. A ideia procura a municipalização dos serviços, visando o abandono da excessiva centralização na distribuição de água e na gestão do saneamento. O mundo actual tem como novo desafio planetário o Aproveitamento Racional dos Recursos Hídricos (ARRH). Este desafio é extensivo a todos os países, e Angola não o pode ignorar. Cada vez mais a humanidade se prepara para a racionalização da água e o Rio Luanda é exactamente o despertar das consciências para essa nova abordagem sobre saneamento. E isto, a nível de todo o país. Luanda pode rapidamente dar solução ao problema da escassez de água potável; encontrar a saída para a drenagem das águas pluviais; resolver o problema dos esgotos, e tudo isso, partindo de novos conceitos e de novas abordagens de engenharia sanitária, assunto que tem no Rio Luanda a peça estruturante mais importante. O desafio deve ser o de uma discussão ampla e sem paixões sobre o tema "Saneamento”, através de uma verdadeira "revolução” no modo de pensar, rejeitando as teorias antigas hoje não mais aceites como até aqui o eram. 

 Pode dar, pelo menos, um exemplo de um crime ambiental que está à vista desarmada, no que toca aos sistemas de saneamento básico?

Actualmente, o destinatário final dos sistemas de drenagem e de grande parte dos esgotos tem sido o mar, sem qualquer política de aproveitamento ou reutilização. Ora, isto hoje constitui um crime ambiental e um desperdício enorme! Os habitantes lançam águas residuais para os solos, contaminando-os de forma gravosa. Há muita insalubridade na cidade. Em Luanda, estão garantidos apenas 450 mil metros cúbicos de água diários, quando nós precisamos de três vezes mais do que isso. O fornecimento de água potável em Luanda não será possível, nem mesmo nas próximas seis ou sete décadas com o actual modelo de captação, tratamento e distribuição, por ser conceptualmente de natureza reactiva. Sempre estaríamos a correr atrás do prejuízo como até agora. O índice de crescimento populacional, empresarial e industrial não permitiria que corresse água nas nossas torneiras 24/24 horas antes dos próximos 60 ou 70 anos, e nem garantiria água para a indústria, para os serviços públicos ou para a manutenção de áreas verdes. Não acompanharia o desenvolvimento do turismo e de outras actividades conexas. Ora, sendo a água potável parte do sistema de saneamento básico e a drenagem das águas da chuva e esgotos componentes que entram na equação do ciclo do saneamento urbano, é fácil concluir que, sem o Rio Luanda, não teremos saneamento. A revolução sanitária para Luanda começa com a mudança de paradigma na forma de pensar saneamento e na forma de resolver o problema da água.

"Nenhum estrangeiro iria dar-se ao trabalho de pensar num projecto como o Rio Luanda que quase não dá lucros a ninguém”
Para que haja uma "revolução sanitária" é preciso que tenhamos mesmo um rio artificial?
 

No caso de Luanda, bafejada pela sorte com dois rios perenes, o Rio Luanda pode servir como um reservatório gigante de água bruta, pode servir como destinatário das águas pluviais e pode garantir o reaproveitamento racional dos recursos hídricos, incluindo a reutilização de águas antes tidas como residuais. Tudo isto vai implicar na aprovação de leis do saneamento mais actualizadas para a defesa do am-biente, e vai ajudar a definir que tipo de sistemas teremos para o saneamento das cidades. O modelo para dar água às populações em Luanda muda radicalmente, e o raciocínio antigo (infinitas tubagens quilométricas limitativas) dará lugar a uma nova forma de encarar a problemática do saneamento em todo o país, passando os angolanos a aproveitar melhor os seus recursos hídricos e poupando milhões com uma solução de engenharia sanitária mais avançada e mais eficaz. É isto que chamamos de revolução sanitária!
 
O projecto, acredito eu, só vai ter pernas para andar se houver, na prática, o comprometimento do Governo. Como estamos a este nível?
 

A nós, enquanto engenheiros, não importa se o actual Governo aprova ou não aprova. Isto é um problema político, que não nos cabe sequer discutir. Não sei ainda se o mesmo já terá sido apresentado ao Chefe do Executivo angolano. As expectativas são grandes. Temos paciência infindável. A par disso, temos trabalhado para fazer entender aos angolanos, aos mais jovens especialistas e alunos da engenharia qual é o caminho mais acertado para que tenhamos água potável em abundância e possamos resolver, com eficácia, economia e rapidez os problemas do saneamento básico e do meio com que iremos melhorar a qualidade de vida das populações e oferecer condições para garantir melhorias no capítulo da saúde pública em Luanda. A nossa missão é técnica. Os escritos ficarão depois de nós, a solução será do conhecimento público e a nova geração, a que nos seguir, terá em mãos o nosso pensamento técnico e económico desta engenharia sanitária invulgar e revolucionária. Esta missão está praticamente cumprida.
 
O partido a que pertence, o MPLA, tem escutado, e com seriedade, os idealizadores do projecto Rio Luanda?  

O projecto Rio Luanda é do conhecimento público e já tem repercussão internacional, pelo menos no que toca ao pensamento filosófico da sua implantação, sugerindo um rio "mesopotâmico”. Olhando para os dois rios, o Kwanza e o Zenza, que desaguam no oceano Atlântico, a solução deste rio colhe, até pela própria história da civilização. É uma obra capaz de revolucionar tudo em Luanda, em pouco tempo e com custos comparativamente muito abonatórios. O MPLA e demais partidos sabem-no, faltando apenas o seu detalhamento apresentado em ambiente mais restrito, acção de que tomamos a iniciativa para uma apresentação aos seus deputados, que pode vir a ter lugar já nos próximos dias. O partido UNITA, por via do seu grupo parlamentar, já tem conhecimento do projecto da forma mais detalhada. Outros partidos já receberam a nossa comunicação, predispondo-nos para esta apresentação e esclarecimentos adicionais logo que quiserem nos receber.
 
Ainda não ficou desapontado, até ao ponto de pensar que, se o projecto fosse criado por estrangeiros, o seu acolhimento teria sido diferente?  

Eu acho que nenhum estrangeiro iria dar-se ao trabalho de pensar num projecto como o Rio Luanda, que quase não dá lucros a ninguém e pode ser ele feito quase todo em kwanzas. Em regra, a iniciativa estrangeira para investimentos em Angola é sempre uma iniciativa para ganhar rios de dinheiro. O que mais tenho visto são projectos de lucros milionários. Ora, o Rio Luanda não dá lá assim tanto dinheiro, embora seja um soberbo projecto de valência extraordinária. Pode até ser feito com recurso simples ao Tesouro Nacional, em moeda nacional, para suportar mais de 90 por cento dos custos! Talvez instituições internacionais, multilaterais de saúde pública e de protecção do ambiente possam ajudar-nos nessa matéria, mas, para tal, teriam de aceitar a solução técnica angolana. O nosso projecto está na prática pronto para arrancar com as obras preliminares.  

"Os edifícios devem estar sujeitos a acções de manutenção”

Se o engenheiro António Venâncio estivesse envolvido nas equipas que projectaram as centralidades construídas com fundos públicos, que contribuições daria, a nível do que devia ser evitado e do que devia ser incorporado?  

Eu jamais optaria por estas centralidades se não tivesse a garantia de construção das acessibilidades rodoviárias para ligar Kilamba-Benfica-Futungo-Samba e o centro de Luanda numa via de comunicação moderna, com características de auto-estrada. Infalivelmente! Quanto à cidade do Sequele, um outro acesso rápido seria garantido para ligar Kilamba-Km­­­25-Sequele, em auto-estrada, sem cruzamentos ao mesmo nível e de alta velocidade de projecto. Esta seria a minha condição "sine-qua-non” para construir esta cidade. Ao mesmo tempo, numa visão holística e de desenvolvimento, este processo teria de ter uma componente de sustentabilidade inequívoca, virada para a produção de materiais de construção e produtos de incorporação em obra. Com isso, estaria garantida a continuidade do processo de criação de habitações no tempo e no espaço. Do mesmo modo, seria para a pequena cidade do Kapari. A condição de ligar Kapari com Panguila, Kifangondo, Cacuaco, Petrangol e o centro de Luanda, por uma auto-estrada de grande velocidade de projecto, seria uma exigência inegociável. Sem estas ligações rápidas, não faz sentido construir Kilamba, nem Sequele, nem Kapari. Estaria eu a cometer um "suicídio” urbanístico, provocando sérios problemas de saúde aos seus moradores.Os acessos rápidos, nestes casos, é um assunto sagrado! Em Luanda, é fundamental a conurbação (união de duas ou mais cidades, em consequência do alto índice de crescimento urbano. Geralmente, esse processo dá origem à formação de regiões metropolitanas). As "centralidades” e o centro da cidade devem estar conurbadas por acessibilidades altamente funcionais.   
 
Parece-me que não é defensor das centralidades, já que coloca este conceito entre aspas, quando o cita nas respostas ao questionário que enviei para o seu e-mail
.

Não sou muito por "centralidades”. Vejo aqui uma espécie de desperdícios financeiros que podiam ser melhor aproveitados, para garantir mais habitações aos cidadãos, casas economicamente mais acessíveis, gerar milhares de empregos e desenvolver as indústrias de materiais de construção e do sector imobiliário do país. Vejo-me um pouco deslocado da política do Governo, legitimamente sufragado nas eleições, mas não me incomoda pensar dentro de uma minoria. O mais importante é que haja respeito mútuo e tolerância nas apreciações ou avaliações que fazemos. Eu não construiria "centralidades”, dinamizaria o fomento ao desenvolvimento do sector imobiliário e à indústria dos materiais de construção para garantir continuidade e mais urbanismo, e com isso oferecer o acesso massivo à habitação para os cidadãos necessitados. Isto faria surgir pequenas novas cidades e vilas pelo país inteiro. A construção de habitações sociais e moradias para professores e pessoal da Saúde transferidos para zonas difíceis, seria a excepção. De resto, os esforços seriam sempre de grandes apoios à classe dos construtores e dos industriais do ramo da construção civil e engenharia, a facilitação bancária e o incentivo prático às cooperativas e fundos habitacionais para que não cessasse nunca a construção de casas para os angolanos em todo o país. O crescimento populacional é imparável. Logo, construir habitação deve ser, igualmente, imparável. Daí a sustentabilidade e continuidade.
 
Informações já públicas apontam para um período de 50 anos como tempo de vida útil dos edifícios dos projectos habitacionais construídos pelo Estado. Se, por acaso, o Estado decidir demolir um edifício por detecção de problemas estruturais graves, antes ou depois de 50 anos, o realojamento dos seus moradores deve ser feito sem custos adicionais para os bolsos dos realojados?

Os edifícios devem estar sujeitos a acções de manutenção preventiva, e preditiva, quando mais sofisticados do ponto de vista da sua complexidade em redes técnicas. O tempo padrão adoptado é de 50 anos, mas um edifício pode perdurar por séculos se for atendida a sua componente de manutenção preventiva. A chegar à fase de demolição, por atingir a fase de Estado Último de Utilização de forma prematura, estaríamos perante uma negligência que deve ser assacada a quem tinha o direito de assegurar a sua manutenção: o proprietário, o inquilino ou quem quer que fosse. Nesse caso, o custo do realojamento das pessoas deve ser incluído nos custos gerais do processo.

Que canal foi utilizado para que o projecto "Rio Luanda” chegue às mãos do Presidente João Lourenço?
Ainda não perdemos, totalmente, a esperança de vermos a ser recebidos pelo Chefe do Executivo. Só posso dizer isso. Este, a ser aprovado e implementado, será o mais ousado projecto de significativa valência económica, social e política jamais levado a cabo desde a Independência do país. A sua repercussão directa na melhoria da qualidade de vida de mais de 10 milhões de angolanos e o seu decisivo papel na mitigação dos efeitos negativos para a saúde pública em Angola causados pela falta de água potável, falta de tratamento de águas residuais, de charcos, insalubridade e cíclicas catástrofes, que ceifam vidas por falta de saneamento, não tem rival de entre as maiores obras públicas já realizadas no nosso país. A esperança é a última a morrer.

Admitindo que possa existir "algum bloqueio”, como aparente razão de ainda não ter chegado o projecto ao Presidente da República, o melhor caminho não seria um pedido de audiência ao Chefe de Estado?
Sim, se houver necessidade, vamos requerer uma audiência ao Chefe de Estado e do Executivo para o apoio à equipa do Rio Luanda.  O presidente tem sido bastante aberto para as questões do desenvolvimento e temos muito para lhe transmitir, dados e informação, e alguns dos dados poderão ser surpeendentes.

PERFIL
António Francisco Venâncio

Naturalidade
 Luanda  

Nacionalidade
 Angolana  

Data de nascimento
8 de Julho de 1955

Estado civil
 Solteiro

Número de filhos
 5 biológicos e 9 não biológicos

Habilitações académicas
Licenciado em Engenharia e mestre em Ciências Técnicas

Percurso profissional
 Director-geral em quatro ocasiões, em duas como director técnico e em uma como director de estaleiro central. Actualmente, é engenheiro director de fiscalização e coordenação de obras da A.VENÂNCIO – Fiscalização Lda.

Passatempo:
Guitarra e música

Prato preferido

 Cacusso grelhado com feijão de óleo de palma, feijão, banana-pão, mandioca e batata-doce. Com salada ou sem ela, serve.

Bebida

Água com bom Ph, magnésio e com sódio limitado. Em festas, adora a kissângua de milho, bem fresca

Locais para férias

Gosta muito da África do Sul. Ganhou paixão por esse país, depois de, há décadas, ter assistido a um filme bastante comovente sobre o Soweto do tempo do Apartheid. Até hoje, mantém a sua solidariedade fraternal com aquele povo. Em Angola, ama Benguela.

Maior sonho

Dirigir a construção do Rio Luanda, com o seu companheiro de luta, o engenheiro Francisco Lopes dos Santos, para ver água a jorrar nas torneiras dos luandenses em abundância e sem interrupções; ver água à fartura para a indústria e serviços e ver Luanda a florir no mundo das cidades mais lindas e salubres do continente. E, se ainda for a tempo, desenhar ou participar na construção da primeira grande auto-estrada de Angola para fazer arrancar a nova economia de Angola.



Nhuca Júnior

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