Opinião

A excitação do óleo (perigo à vista)

Apusindo Nhari |*

Jornalista

O petróleo passou os 85! Há uma natural excitação em todo o sector. A praça é percorrida por uma efervescência com sabor a déjà-vu e auguram-se grandes perspectivas: “O outlook é positivo!!”– dizem os especialistas, utilizando o jargão adequado.

24/10/2021  Última atualização 08H43
E já se avançam projecções que colocam o preço do barril do petróleo acima dos 100 (e mesmo dos 200!) USD no próximo ano, e a poder eventualmente manter-se alto durante algum tempo…

Optar por uma estratégia de re-investimento urgente no sector, como se aí estivesse o nosso futuro, é preocupante. Não seria de aproveitar a oportunidade, tirando dela o máximo proveito, mas com consciência da importância de mantermos o rumo para alcançar outros objectivos estratégicos? É que o amanhã do planeta não passa pelos hidrocarbonetos, por mais atractivos que eles nos pareçam neste momento.

Assim, é extremamente importante perguntarmo-nos: – Será o aumento do preço do petróleo uma boa notícia para o País?;– Não será que desta "excitação do óleo” que efervesce alguns ânimos poderá vir a surgir uma perda de foco nos objectivos estratégicos nacionais?

Se, por um lado, poderá permitir aliviar o sufoco financeiro em que estamos mergulhados e, quiçá, fazer investimentos absolutamente urgentes e necessários, por outro (e ao contrário do que propalam vozes alteradas de alguns especialistas), não se deveria deixar de ter em conta que estes benefícios são de curto prazo!

Pois estes ganhos têm causas bem determinadas (ligadas à crise energética global que está à vista de todos) mas que não alterarão os objectivos já assumidos pela grande maioria dos países e dos blocos económicos, que condicionam o futuro próximo da indústria petrolífera.

Podemos mesmo afirmar que eles são em grande medida (e usando um palavrão já demasiado gasto) conjunturais, pois a "Net Zero by 2050” (Balanço Zero, ou BZ, em 2050) continua na ordem do dia.

Tudo indica que, se atendermos aos relatórios do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), as medidas para o garantir deverão ser reforçadas. Com excepção da China, Kazaquistão e Ucrânia (que estabeleceram 2060) e da Austrália e Singapura (que ainda não se comprometeram), todos os restantes países – incluindo o nosso – aderiram ao objectivo de se alcançar, em 2050, ou mesmo antes, um "balanço zero” nas emissões de dióxido de carbono (ver www.visualcapitalist.com/race-to-net-zero-carbon-neutral-goals-by-country/). Consenso que será certamente reforçado em Glasgow na COP26 (Conference of the Parties) que terá lugar em Novembro.

Estamos conscientes que a utilização do petróleo e derivados não cessará, mas como diz o relatório da Agência Internacional de Energia (AIE): "A transição energética perspectivada no BZ envolve uma considerável contracção da produção de petróleo e gás, com implicações de grande alcance para todas as empresas que produzem aqueles combustíveis. A procura por petróleo cairá desde cerca de 90 milhões de barris por dia (mb/d) em 2020, para 24 mb/d em 2050, e a procura por gás natural cairá de 3 900 biliões de metros cúbicos (bmc) para 1 700 bmc. No cenário previsto no BZ, não será necessário continuar com a prospecção de combustíveis fósseis, uma vez que (para satisfazer a futura demanda mundial) não são precisos novos campos de petróleo ou de gás para além dos que já foram descobertos e aprovados para exploração”.–”Net Zero by 2050 -aroad map to the energy sector”).

Seja qual venha a ser a duração destes novos preços do barril de petróleo no mercado internacional, não nos deveríamos afastar um milímetro da estratégia de investir na diversificação da economia – refreando os apetites de apostar no sector petrolífero –e reconsiderando a legislação que permite invadir áreas de conservação que se deveriam manter efectivamente protegidas.

Não seria de utilizar este necessariamente breve período de "nova bonança” para credibilizar o país, acelerando o pagamento do que devemos e acudindo às crises que o sector social tem enfrentado?

O perigo que paira no ar é o de voltarmos a viver o período do "deslumbramento do dinheiro fácil”, cujas consequências são por nós demasiado bem conhecidas. Ainda por cima, quando sabemos que o abandono dos combustíveis fósseis é um compromisso de todos, indispensável para salvar o planeta e todos nós que o habitamos.

Pareceria pois mais recomendável que em vez de estar a construir novas refinarias – com todos os custos associados à sua operação, sem certeza de os recuperar, e sem a garantia de oferecer preços competitivos – num momento em que o mundo as está a encerrar, se deveria pensar no sector petrolífero como uma oportunidade de curto prazo que poderá alavancar outros sectores.

(Segundo a McKinsey, "As perspectivas para o mercado global da refinação variam de acordo com a região e os cenários mas a contracção geral da procura deverá conduzir a encerramentos e criar pressões negativas sobre os lucros desta indústria. Ainda assim, esta indústria irá manter-se uma poderosa força em todo o mundo; embora ela possa contrair até 2030, é provável que mantenha pelo menos 90% da capacidade existente em 2019”–”Global downstreamoutlook to 2035”.)

Não seria de nos orgulhar que com os ganhos do presente conseguíssemos fazer com que o país emerja desta longa travessia em que esteve ancorado quase exclusivamente no sector petrolífero, tornando  a sua população mais educada e saudável, construindo uma infra-estrutura de apoio a uma economia diversificada mais forte, e um futuro mais radioso e seguro para todos os angolanos?
                                                                                  *Académico angolano independente

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