Opinião

A Europa e o dever de preservar 77 anos de paz e desenvolvimento

Filomeno Manaças

Setenta e sete (77) anos depois do fim da II Guerra Mundial, a Europa está de novo profundamente dividida. O pomo da discórdia é a guerra russo-ucraniana e o rol de consequências políticas e económicas que já começou a desencadear.

13/05/2022  Última atualização 08H20

Ao celebrar-se mais um aniversário do término da II Guerra Mundial (1945) e da histórica declaração de Robert Schuman (1950), estadista francês que propôs a criação de uma entidade europeia supranacional - na esteira da qual tiveram lugar vários desenvolvimentos que deram origem à actual União Europeia -, a Europa vê-se novamente confrontada com sérios desafios aos valores da paz e da unidade.

Ensombradas pelo conflito entre a Rússia e a Ucrânia, as comemorações do Dia da Europa, a 9 de Maio - na mesma data em que os russos assinalam a vitória sobre o exército nazi-fascista de Hitler -, suscitaram intervenções fortemente marcadas pela preocupação com o futuro político próximo do velho continente e, em particular, com a necessidade de se encontrar um desfecho para o conflito que opõe Moscovo a Kiev.

O tom dessas intervenções sinaliza as diferentes formas de abordagem que, no seio da União Europeia, estão a ser feitas à crise bélica que eclodiu desde o dia 24 de Fevereiro, quando a Rússia fez recurso à opção militar para lidar com a questão de fundo - a entrada da Ucrânia na OTAN.

Embora no plano militar a maior parte dos países da União Europeia se tenha engajado no apoio à Ucrânia, com a remessa de equipamentos diversos, no plano político é possível divisar duas linhas de actuação distintas: uma, mais radical, que defende que é necessário isolar completamente a Rússia e desarticular a sua economia ao ponto de ela perder influência política a nível internacional, e, outra, que considera que é preciso continuar a dialogar com Moscovo e não fechar as portas a um possível entendimento.

Duas das mais notáveis opiniões desta segunda forma de pensar no actual quadro político europeu são as do Presidente francês, Emmanuel Macron, e do Primeiro-Ministro italiano Mario Draghi.

Segunda-feira Macron disse, em Estrasburgo, que, para terminar a guerra na Ucrânia, "a paz terá de ser construída sem humilhar a Rússia”. "Amanhã teremos uma paz a construir. É preciso nunca esquecer isso. Teremos de fazê-lo com a Ucrânia e com a Rússia em redor da mesa (...) Mas isso nunca será feito com a exclusão ou com a humilhação de qualquer uma das partes”, sublinhou Emmanuel Macron. A pensar já no futuro a breve trecho, o Presidente francês, que tem sido criticado por alguns sectores por manter a porta do diálogo aberta com o seu homólogo russo, argumentou que "quando a paz voltar ao solo europeu, teremos de construir novos equilíbrios de segurança” sem "nunca ceder à tentação ou humilhação, nem ao espírito de vingança, porque já devastaram demais os caminhos da paz no passado”. A imprensa francesa realça que Macron estabelecia assim uma comparação com o Tratado de Versalhes, concluído após a Primeira Guerra Mundial, marcado pela "humilhação” da Alemanha.

Macron, que tem defendido uma maior capacidade militar e autonomia estratégica da União Europeia, não ignora que a actual guerra russo-ucraniana é em grande medida nefasta para a economia europeia; que a verificar-se uma escalada no conflito a Europa no seu conjunto pode pagar um preço alto; que a Europa seria novamente palco de destruição 77 anos depois do fim da II Guerra Mundial e que, internamente, tanto a esquerda radical como a extrema-direita defendem a retirada da França do comando da OTAN.

Na Presidência semestral do Conselho da União Europeia e tendo Angela Merkel se retirado dos palcos políticos, Macron procura também projectar-se como líder de uma Europa que pensa pela sua própria cabeça.

Mario Draghi, por seu turno, entende - e fez um pedido nesse sentido - que os Estados Unidos e a Rússia devem sentar-se à mesma "mesa para a paz” e encontrar uma saída para a actual guerra. Para o Primeiro-Ministro italiano, que quarta-feira esteve de visita a Washington, "há que se fazer um esforço para sentar-se à mesa de negociações e é um esforço que deve ser feito por todos os aliados, mas em particular, por exemplo, pela Rússia e Estados Unidos”.

Essas declarações ganham particular relevância quando notícias dão conta que a guerra pode prolongar-se por muito mais tempo e há relatos de que as movimentações militares, em curso em vários países fronteiriços, podem levar o conflito a ganhar outra dimensão e propagar-se como um incêndio difícil de ser controlado.

Mais próximos do epicentro do conflito, a Bielorrúsia, a Polónia, a Moldávia e a região da Transnístria dão sinais preocupantes de uma crescente actividade militar que apenas parece estar à espera que a tocha seja encostada à mecha para que o fogo se alastre.

A Europa não deve deixar escapar a oportunidade de salvaguardar 77 anos de paz e progresso económico e social conseguidos desde o fim da II Guerra Mundial, o que só foi possível também com a contribuição da Rússia.

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