Opinião

A ética na política e a promoção do mérito deviam ser prioridade

Ismael Mateus

Jornalista

Estamos a entrar para um período da vida política nacional em que desaparece o bom senso e a razoabilidade e entra a “a lei do voto”: Tudo se pode afirmar, tudo pode valer, desde que isso represente votos.

14/06/2021  Última atualização 07H00
Na "lei do voto”, todos os políticos são iguais, ou seja, todos querem conseguir votos e eleitores. Por isso mesmo há a tendência para se prometer de uma só assentada o céu, a terra, diabo e Deus juntos, a verdade e a mentira bem casados. Alguns políticos estão a criar a ilusão de que os problemas do nosso país são fáceis de resolver e bastará que eles cheguem ao poder e num ápice tudo vai melhorar da noite para o dia.E, claro, muita gente acredita. Estamos todos necessitados de uma melhoria geral que muitos acreditam que,se alguns chegarem ao poder, o salário mínimo aumenta, deixamos de ter pobres, deixa de haver corrupção, e o nosso país salta para a lista dos que não têm malária, nem mortalidade infantil.

Também é verdade que do outro lado da barricada também aparecem os que fazem da governação um exercício complicado e impossível, como se noutros países, muitos deles até com piores condições económicas que as nossas, não existissem governantes e soluções mais criativas que as nossas.


Para o país melhorar verdadeiramente e para que se melhore também a qualidade dos políticos, precisamos de um exercício político honesto, responsável e sobretudo comprometidos com o futuro.

A falta de honestidade política, de reconhecer os erros do passado, as falhas, os desperdícios ou de não prometer o céu e a terra, de procurar mentir e manipular os cidadãos para que num e noutro caso ofereçam o seu voto não deixa mesmo nenhuma tranquilidade quanto ao futuro do país.

Há hoje a expectativa de que o desinteresse do cidadão pela política vai aumentar, mas, ainda assim, não teremos os níveis de abstenção que se vêem nas democracias mais antigas. O eleitor ainda tem uma réstia de esperança de que um dia as coisas comecem a melhorar e o país ande para frente, como todos querem. Seja qualquer o rumo que as próprias eleições derem ao país, existem três elementos que hoje são conhecidos e vão continuar a fazer total diferença.


O primeiro é que o processo da exclusão e marginalização de alguns não cabe mais. Nunca mais voltaremos a ser um país em que os cidadãos são manipulados na crença, como já aconteceu no passado, de que só é possível crescimento e harmonia se uma parte dos angolanos for eliminada. Seja essa parte um grupo etno- linguístico, uma força política ou pessoas com a tez mais clara ou mais escura.


A lógica da exclusão e do aniquilamento do concorrente é caduca e destinada ao fracasso. Ao contrário da exclusão e de campanhas que se destinem a "acabar” com concorrentes políticos, o país tem de caminhar para um melhor aproveitamento de todos, sobretudo através de uma oferta cada vez mais aberta de oportunidades a todos, independentemente da cor política, origem, credo e cor dos olhos.

Em segundo lugar, a sociedade angolana tem hoje níveis de cobrança que não tinha no passado. Dos mais novos aos mais velhos, a sociedade revela um grande cansaço e até uma certa impaciência com as promessas eleitorais não cumpridas. Muitos dos jovens que se manifestam nas ruas vão legitimamente cobrar o que lhes foi prometido, sem que queiram compreender ou atender as circunstâncias que levaram a que as promessas não fossem cumpridas. Sobre os políticos impera hoje uma cobrança de ordem ética e moral no sentido de que cumpram o que prometerem, o que quer dizer também que devem prometer apenas o que for possível cumprirem. A lógica do discurso político em que só se dizem as coisas agradáveis que o povo quer por necessidade ouvir, contêm na verdade o mal da manipulação e da mentira.

Com esses dois males vira a instabilidade, outra vez. Se se começar a prometer o fim da corrupção, o fim da miséria e da pobreza é nisso que os cidadãos vai acreditar. Do mesmo modo, essa expectativa geral de um comportamento ético mantem viva a esperança que um dia alguém tenha a coragem de apostar na competência e não na militância ou em factores subjectivos que potenciam os erros e a repetição das falhas do passado.

O país precisa de reformas e elas precisam de ser feitas de acordo com as prioridades da sociedade. Ora, a ética na política e a promoção do mérito deveriam ser, sobretudo ao nível das reformas na administração pública, da função pública e da justiça uma prioridade absoluta. Só assim com o mérito, com transparência nos concursos públicos, com oportunidades iguais teremos a hipótese de cada angolano aspirar a ter uma vida melhor, sem que isso dependa de cunhas, alianças e esquemas. Quando chegarmos a esse ponto, as próprias eleições deixarão de ter o peso dramático de "quase vida ou morte”, pois para a maior parte dos empregados a vida vai continuar na mesma, o que hoje ninguém acredita que aconteça.

Terceiro lugar, precisamos de deixar de olhar para as eleições como casos de vida ou de morte. O país já tem uma regularidade eleitoral quanto às eleições gerais e precisa de alcançar a mesma estabilidade com as eleições autárquicas. Independentemente das razões políticas de cada um, as eleições autárquicas também representam um segmento de oportunidade política a um maior número de angolanos do que nas eleições gerais.

Para além dos 220 lugares da Assembleia Nacional que são disputados nas eleições gerais, os angolanos teriam centenas e centenas de outros lugares de poder para disputar. Para além das razões relacionadas com o desenvolvimento económico e sócio-cultural das regiões, as autarquias, tal como os concursos públicos, são oportunidades de participação no processo político, de promoção da oportunidade dos cidadãos servirem as suas comunidades e os seus cidadãos. Não há dúvidas de que pessoas que se preparam dentro e fora do país para colocar o seu saber ao dispor da sociedade enfrentam hoje um altivo estado de frustração por não terem a possibilidade de o fazer.

Se não atendermos a essa dimensão legítima que os cidadãos têm de servirem as suas comunidades, os nossos políticos terão dificuldades de compreender a grande frustração num indivíduo que se vê forçado a fazer o que não quer porque as oportunidades são limitadas. Ora é isso que se pede aos políticos: que saibam que sobre as suas promessas abrem-se novos mundos de expectativas individuais e familiares que não sendo cumpridas criam quebras de vínculo entre os cidadãos e as suas próprias sociedades. Sem esse vínculo, instala-se a dúvida, a incerteza e a falta de confiança. O país não anda para frente sem confiança no futuro.

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