Reportagem

A empresária que jogou futebol pela equipa da Maxinde de Malanje

Francisco Curihingana | Malanje

Jornalista

Lisete Dias deixou Malanje, cidade natal, em 1992, devido ao conflito pós-eleitoral, vendo-se obrigada a fixar residência em Luanda. Apesar de não ter encontrado dificuldades para se adaptar, diz que nunca quis deixar a cidade que lhe viu nascer.

16/01/2022  Última atualização 08H15
Lisete Dias © Fotografia por: Francisco Curihingana
"Não tive dificuldades, embora tivesse uma ideia muito diferente daquilo que encontrei. As pessoas diziam que era difícil, mas não foi tão difícil, porque eu sabia o que queria. Fui atrás. Alguém, felizmente, arranjou-me um emprego, onde fiquei um ano. Depois disso, resolvi montar uma mini empresa no ramo de fotocópias e plastificação e depois montei um sítio, onde fiquei três anos. Era um quiosque onde se tiravam cópias e plastificação de documentos, encadernávamos trabalhos escolares, mas também já fazíamos bolos”, explicou.

Empreendedora no ramo da pastelaria, Lisete Dias diz ter enveredado pelo mundo dos negócios tão logo começou a formar família, fruto da experiência que ganhou com a mãe. "Ganhei muita prática com a  minha mãe porque já aos 14/15 anos era o braço direito dela nos negócios, então, bebi essa experiência. E logo que me casei, aos 20 anos, comecei logo”, disse.

Mãe de cinco filhos, a nossa entrevistada pode ser também considerada uma autodidacta. Apesar das suas ocupações, Lisete Dias reserva sempre tempo para a leitura, uma das suas paixões. Fruto disso, algumas das formações profissionais que fez foram através da Internet. "Apenas fui a um centro de formação onde aprendi o inglês e o manuseamento do computador. Fiz uma formação no ramo de Administracção de Empresas, cheguei mesmo a ingressar numa faculdade, mas  não terminei, depois fiz online uma outra formação sobre pastelaria para aprimorar as técnicas. Aliás, essa é uma das coisas que faço sempre quando há novas tendências. Estou sempre a fazer seminários para actualizar os meus conhecimentos”, acrescentou.

Frequentou o primeiro ano de Administracção de  Empresas numa faculdade brasileira, formação que veio a interromper.
Lisete Dias diz que consegue conciliar bem o seu papel de esposa, mãe e empreendedora. Mas recomenda muito equilíbrio e disciplina, apesar de reconhecer que as mulheres estão dotadas de capacidade multitarefas.

Sobre a situação da pandemia da Covid-19 e o seu impacto negativo nos negócios, devido ao fraco poder de compra dos cidadãos, Lisete Dias diz que os "cofres” registam sempre a entrada de algum dinheiro. "Sempre se consegue fazer algum dinheiro. Pode não ser muito mas temos que conseguir fazer o suficiente para manter as despesas e suportar a vida. Uma das coisas principais é a disciplina, fazer um bom plano”, realçou.

O sonho de ser advogada
e a paixão pelo futebol

Lisete Dias diz que ainda não perdeu o sonho de ser advogada.  Considera a advocacia "um trabalho que ia puxar” muito dela. "Não gosto muito de rotina, gosto de coisas que me levam aos limites”. "Também podia ser uma administradora de uma empresa, porque os desafios iam ser diários e diferentes. Gosto de ir à luta, de coisas que me mantêm activa”, disse.
A nossa interlocutora diz ter jogado muito futebol. Jogou pela equipa da Maxinde de Malanje e só não deu mais sequência porque não havia mais atletas do sexo feminino para constituir uma equipa. "Eu amava ver futebol. Acompanhava aquele campeonato todo da Itália, conhecia os nomes de todos os jogadores mas depois fui deixando”, lembra.


Cristã de corpo e alma

Lisete Dias diz ser uma cristã de corpo e alma. Aos finais de semana, além de cuidar dos negócios na pastelaria, dedica parte do tempo a  pregar o Evangelho, já que é membro das Testemunha de Jeová. "Gosto de evangelizar porque me dá a oportunidade de ajudar pessoas a se adaptarem às condições que o mundo nos apresenta.  O mundo já existe há muito tempo, os governos vêm e vão e infelizmente os problemas parecem ser os mesmos. Então, dá-me prazer mostrar às pessoas  que há uma outra opção, embora muitos se mostrem cépticos”, disse.

Aconselha aos demais a seguir a palavra de Deus para evitar o que considera "imoralidade por excesso”. Refere ainda que a realidade que o mundo enfrenta "é consequência do pecado”. Entende ainda que as pessoas estão submetidas a uma pressão social sem precedentes, que está na base de muitos problemas enfrentados por diferentes famílias.


Crianças de rua

Para Lisete Dias, o fenómeno "crianças de e na rua” pode encontrar uma solução com actos simples. "Bastariam actos muito simples, pois, os problemas são sempre os mesmos: falta de comida, a imoralidade e falta de coesão nas famílias”, disse.

Apesar da incapacidade de muitos pais, disse, a própria sociedade descartou-se deste trabalho, lembrando-se apenas em momentos festivos. "Todos os dias assistimos ao desfile de crianças deambulando pelas ruas e muitas delas fazendo da rua a sua casa com papelões improvisados como colchões”, afirmou, com os olhos humedecidos de lágrimas.

De acordo com Lisete Dias, a mulher angolana é muito sofrida.  Todos os dias ela aparece nas ruas das diferentes cidades com produtos diversos à cabeça, na ânsia de procurar o essencial para alimentar a família. "Muitas mulheres assumem um duplo papel no seio familiar. Os esposos não trabalham e elas, como zungueiras, acabam sendo verdadeiras heroínas na salvaguarda das famílias”, disse.

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