Opinião

A eficácia e a eficiência face às mutações societais

Filipe Zau |*

Músico e Compositor

Em África, o fim do “Apartheid” e a eleição de Nelson Mandela para Presidente da República da África do Sul foram duas grandes revelações de mudança que, na última década do século XX, ocorreram no continente berço da humanidade. Porém, outras relevantes mutações acabaram por alterar significativamente a realidade africana.

04/08/2021  Última atualização 05H00
Foram os casos resultantes: das lutas de autonomização política; da maior ou menor abertura a processos de democratização, incluindo as políticas de género; dos programas de desenvolvimento económico e social; das migrações; dos processos de urbanização; dos programas de ajustamento estrutural...

Como afirmou o já falecido sociólogo, antropólogo e teólogo camaronês, Jean-Marc Ela, em «Restituir a História às Sociedades Africanas. Promover as Ciências Sociais na África Negra», os sobressaltos de um mundo durante muito tempo chamado "primitivo” obrigam a rever os métodos de abordagem nas sociedades, onde o apelo dos longínquos e o exotismo da descoberta, a sedução do estranho ou o fascínio do "selvagem” mobilizavam o etnólogo.

As sociedades tradicionais, durante muito tempo dominadas pela oralidade, são hoje afectadas pela economia de mercado e, face a um acesso crescente aos audiovisuais, são influenciadas pelas elites no poder para a construção de um sentido de pátria ideológica ou de unidade nacional, tendo inclusive acesso à publicidade de toda a espécie em programas televisivos e radiofónicos.

O polaco Stanislaw Ossowski, citado por Paulo de Carvalho, em «Angola, quanto tempo falta para o amanhã?: Reflexões sobre as crises política, económica e social», apresenta um duplo sentido para o conceito de pátria: o sentido de pátria privada, de carácter local, "que tem a ver com a relação pessoal do indivíduo com o meio e assenta na convicção do indivíduo em relação ao seu sentido de pertença a uma determinada comunidade e ao facto dessa mesma comunidade estar associada a uma certa área geográfica; e o sentido de pátria ideológica, mais amplo, já que não se circunscreve à vivência deste ou daquele indivíduo e aos costumes adquiridos em função dessa mesma vivência, mas sim às experiências vividas pelo grupo "latu sensu”. É algo que é adorado por todos, independentemente de haver uma relação mais próxima e especial para com um círculo mais restrito, mais local, mais privado.

Para utilizar a expressão de Jean-Marc Ela, há um "escândalo” que deve ser assumido: "As sociedades ditas tradicionais estão em crise”. Na realidade, também como refere o etnólogo francês Nicolas Journet, no seu texto «Os etnólogos chegam à cidade», a tradição já não está apenas associada aos costumes antigos, mas também a processos comunicacionais, através dos quais os objectos e as práticas representam uma identidade colectiva. No terreno, as práticas mudaram e já não basta apenas a palavra do informador. Hoje as fontes de informação são múltiplas e contraditórias. "Se a etnologia exótica sofre a concorrência da etnologia do próximo, é também devido à intervenção de uma série de factores conjunturais: o desaparecimento dos impérios coloniais, o fim do isolamento das sociedades rurais e a difusão mundial da cultura escrita fazem com que a prática em terreno longínquo seja mais difícil e o próprio exotismo perca a sua consistência.” Estas mutações, próprias do carácter dinâmico dos grupos societais, acarretam hoje novas exigências ao perfil profissional dos formadores, visando o cumprimento do papel necessário ao progresso económico e social dos países africanos, através de uma maior eficácia e eficiência dos sistemas educativos instituídos: 

- A eficácia, de acordo com o sociólogo português Hermano Carmo, remete-nos para o planeamento, que terá que ser cuidadosamente preparado, de modo a tornar possível a identificação dos alvos a atingir e a congregação de esforços para a realização de acções comuns. "Para que uma acção seja eficaz é necessário que os resultados obtidos correspondam aos previstos”. Todavia, dever-se-á evitar cair no chamado "sindroma de paralisia por análise”, caracterizado pelo excesso de perfeccionismo tecnicista, onde o sistema interventor gasta a maior parte dos seus recursos a analisar a situação, desviando-se da finalidade essencial, que é produzir efeitos de aperfeiçoamento na situação-problema.

- A eficiência ao por a descoberto duas questões, que estão intrinsecamente ligadas – A identificação dos recursos e a sua hierarquização – procura optimizar os resultados a serem alcançados em relação aos recursos disponíveis.

* Ph. D em Ciências da Educação e Mestre em Relações Interculturais

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