Opinião

A economia real e o sopro de que precisa para andar

As reformas políticas e económicas encetadas pelo Executivo cuidaram de introduzir novas práticas na gestão pública, nos negócios e de anunciar uma nova forma de Angola estar perante o mundo.

29/03/2019  Última atualização 08H51

As mudanças no plano macro-económico eram necessárias, imprescindíveis mesmo, embora tenham levado muitas empresas a fechar as portas. Uma boa parte delas, é bom dizer, vivia pendurada nos cofres do Estado e as medidas tomadas vieram revelar a sua fraca sustentabilidade para poder prosseguir a actividade, visto que não tinham uma carteira de clientes diversificada. O único era o Estado.
Por isso, não tardou a vir à superfície a questão das dívidas certificadas e não certificadas. Ciente das irregularidades de muitos negócios, de muitos contratos de fornecimentos de bens e serviços que o vinculavam de forma perniciosa, o Estado tratou de tirar a limpo, caso a caso, para poder decidir com propriedade o tratamento mais adequado a ser dado.
Num outro prisma, o Programa de Estabilização Macro-Económica, no âmbito do qual entrou em vigor a taxa de câmbio flutuante, veio assinalar a necessidade imperiosa de conferir à moeda nacional o seu real valor de mercado e de se trabalhar para desenvolver a produção interna de bens e serviços.
O processo de depreciação do kwanza, decorrente dessa nova medida (taxa flutuante), levou a moeda nacional a perder valor. Como consequência, ecoaram gritos de socorro tendo em conta que várias empresas queixaram-se de que, como resultado, estavam a assistir à redução do valor dos seus activos e na iminência de decretarem falência, tendo apelado ao Banco Central a uma flexibilização da sua política cambial e monetária.
É ponto assente que, embora com alguns resultados adversos, a terapia de choque a que foi submetido acabou por ser benéfico para o sistema económico angolano, tendo em conta os ganhos obtidos face às regras da governação corporativa.
O processo de estabilização macro-económica iniciado, reflectido na redução do gap entre a taxa de câmbio formal e do mercado informal e na consolidação fiscal, permitiu ao Estado retomar as rédeas da economia e assim passar a poder controlar melhor os seus principais indicadores, entre os quais as taxas de inflação, de desemprego e de crescimento económico, que assumem particular relevância no actual contexto.
Conseguir isso foi obra que consumiu praticamente todo o ano de 2018 e que levou também empresas de grande porte a ajustarem-se ao novo ambiente económico, a cortarem nos gastos não essenciais (as chamadas gorduras) e a estarem mais focadas no seu core business. Ou seja, foram obrigadas a adoptar uma gestão mais racional.
O efeito cascata dessas medidas repercutiu-se nas pequenas e médias empresas. Até mesmo o mercado informal acabou por acusar o toque e, como não podia deixar de ser, em momentos de acentuada crise económica, a sociedade repercute os sinais da forma mais variada. Vão desde o surgimento de ocupações profissionais alternativas até ao aumento do número de crimes de pendor económico.Tudo isto para dizer que agora é tempo de prestar particular atenção à economia real, de encontrar as melhores estratégias para impulsioná-la, o que já está a ser feito pelo Executivo, por via do Programa de Apoio à Produção, Aumento das Exportações e Substituição das Importações (PRODESI), mas que exige também que o sector privado se empenhe mais na criação de novas empresas e de postos de trabalho.
Num contexto em que os sectores do Comércio, Construção e Imobiliário ainda absorvem a maior parte do crédito da banca comercial, com o sector produtivo a ter pouca relevância, urge que o Estado encontre as melhores soluções para garantir que possamos ter, a médio prazo, resultados em matéria de diversificação da economia.
Um passo na direcção certa foi sem dúvida o subsídio aos combustíveis para a produção agrícola e pesqueira. Outro, sob apertada vigilância de entidades especializadas na matéria, pode ser a atribuição de empréstimos a juros mais baixos em relação aos demais sectores, dentro de prazos não muito dilatados, com aplicação devidamente monitorizada e com a garantia de que o beneficiário, além de realmente possuir capacidade produtiva e de realizá-la de forma plena, tem a sua actividade inserida num circuito integrado que assegura a sua continuidade de forma permanente. Ou seja, tem capacidade para produzir, escoar, comercializar os seus produtos e obter lucros resultantes da venda dos mesmos.
Acelerar a diversificação da economia passa também por assumir riscos, sem que estes signifiquem incorrer em práticas que estão a ser energicamente combatidas e sem que o prazo seja dilatado no tempo e sem garantia de retorno do investimento.
Uma regulamentação apropriada e níveis de exigência adequados, vistos na óptica de uma solução de conjunto, podem permitir ao Estado resultados assinaláveis a médio prazo.
A economia real parece precisar desesperadamente de um sopro que lhe dê vida e força para andar pelas suas próprias pernas, de modo a concretizar a cambalhota que todos queremos dar à crise económica.

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