Opinião

A despedida de Kadyala

Adriano Mixinge

Escritor e Jornalista

Despedir-se de alguém nunca é nada fácil e se ele for quem mais nos ama e mais nós amamo-lo, o assunto complica-se que farta. As despedidas podem ser fins de ciclo, marcadores de um momento, de uma época, de uma fase que, no entanto, - sem deixar de ser o que é, ou seja, o limite -, passa a ser – como diria os informáticos -, o reiniciar completo do sistema: todo recomeço para sê-lo realmente, deve ser uma fonte de inspiração, de prazer e de lucidez.

25/01/2022  Última atualização 05H50
Deixem-nos ser "profundos” como as pessoas aqui gostam de dizer quando estão no gozo antes de alguém dizer um mantra, algum enigma ou qualquer "expressão absurda, que dê graça”: se vivermos bem, a transição muitas vezes tende a ser para o mau e a recíproca também é verdadeira: porém se, por exemplo, vivermos no caos – seja lá o que isso significa em termos filosóficos, religiosos, artísticos, culturais e as formas em como eles se manifestam nos cidadãos, no seu dia à dia, então, ainda que leve o seu tempo, a transição será necessária e inevitavelmente  para a harmonia.

Situado tanto no cruzamento como na génese de múltiplas genealogias, nosso particular "gonzo e eixo”, ao Pai Mixinge chamavam-lhe por Kadyala –depois de ouvidas várias versões, incluindo a do Diccionário Kimbundu português de Assis Júnior privilegiamos a do nosso mano Osvaldo Nicolau de Sousa Lopes, - carinhosamente chamado entre nós por Valdez -,que na sua acepção mais aceitável significa: "homem pequeno, mas, que, no entanto, é grande”.

É, então, "o homem pequeno, mas, que, no entanto, é grande” de que nos despedimos para salvar-nos, livres de culpas, com "o dever cumprido”, diriam alguns; nem a dor a queremos mais; muito menos ressentimentos por quem quer que seja; não nos interessa julgar ninguém – entre outras coisas porque não gostaríamos de ser julgados -: queremos (com gosto) estar e viver, em Paz.

 "Pedimos desculpas” aos que alguma vez tenhamos ofendido e, como não poderia deixar de ser, agradecemos o apoio do Instituto Nacional de Segurança Social (INSS), "ao pessoal” em Malanje e em Luanda, o apoio oportuno das mamãs, aos "novos pais e às novas mães”, aos manos e às manas, aos padrinhos e aos kotas, todos e de todas as épocas, que estiveram e aos que não puderam estar, sem esquecer aos Mixinges de Cuba, a maior das Ilhas das Caraíbas, que lhe dedicaram uma missa.

A paz teve sempre várias dimensões: a íntima e a pessoal; a familiar e a social; e, por último, a dimensão hexagonal. Estas dimensões da paz andam a vibrar e precisam estar mais bem alinhadas, para que a tranquilidade e o sossego voltem às ruas e aos homens deste país.

Na sua dimensão íntima e pessoal, "cada um que se governe como quiser e boas”, diriam talvez alguns dos meus amigos de infância; uma dimensão familiar e social – incluiu nesta para além das diferentes tipologias de famílias, por exemplo, os vizinhos atentos e que gostam de poesia, os colegas cúmplices e dedicados que não perdem a ocasião de ler um romance ou de assistir um filme, as pessoas que entram e saem das nossas vidas de modo elegante e lindo e, também, a assistente de casa que faz tudo para que nos sintamos bem, o polícia que faz o seu trabalho com zelo, o artista e o intelectual que dá o peito e rasga a camisola do partido que for quando este não está à altura das circunstâncias: estes e muitos mais fazem parte da nossa família.

No que a dimensão hexagonal da paz refere-se, ela inclui, por exemplo, a política, a religião e as crenças (sem obviar as superstições e seus sucedâneos), a economia, a arte e a cultura e, finalmente, a criatividade e a imaginação: qualquer família digna deste nome deve ser capaz de equacionar estes aspectos com uma profunda visão de futuro, apoiada na tradição – expurgando dela o ópio e o seu lado reaccionário - e nas leis que vertebram a convivência entre os cidadãos.

No que ao reinício completo do sistema se refere, ele é inevitável: se nos perguntarem se desfrutamos com a "desestabilização emocional e cognitiva” que a dor e o luto provocam, nós vos diremos que sim: adoramos perceber as repetições, os espelhos e as baixezas da vida que passa, mas, também, desfrutamos com os cânticos em kimbundu, com o carinho e com o apoio dos pastores e da Igreja Metodista Unida de Icolo e Bengo, no bairro Popular, em Luanda.

Continuaremos vigilantes: a "vígilia cintilante” aguça a inteligência, a criatividade e a imaginação que, nunca está demais sublinhar, são o maior e mais rico património de qualquer pessoa, família, país ou Nação: é nisso em que acreditava Sebastião Adão Mixinge (Calumbunze, 12/03/41 – Lombe 07/01/22) que viveu quase oitenta e um anos de idade, o tempo suficiente para dizer-nos directa e presencialmente tudo: ele será sempre a nossa "luz verde”, a mesma cor das paisagens que o viram nascer, óptimo lugar para recomeçar tudo de novo.

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