Opinião

A (des)estabilização cambial

Há quase dez anos que o Banco Nacional de Angola (BNA) luta para consolidar a estabilidade cambial, controlar a inflação e, ultimamente, para a criação de regras claras para o funcionamento de um mercado financeiro forte.

24/10/2019  Última atualização 09H22

Infelizmente, continuamos distante deste importante desiderato, numa altura em que a desvalorização cambial a ritmo acelerado contribui não apenas para o cepticismo generalizado, como também leva a numerosas interrogações relacionadas com os leilões regulares de milhões e milhões de dólares. Parece legítimo questionar aonde vão parar os milhares de dólares de leilões feitos quando o mercado interno continua a deparar-se com uma escassez acentuada da moeda estrangeira mais solicitada em Angola.
No início deste mês, o presidente da Confederação Empresarial de Angola, Francisco Viana, tinha feito declarações que, a serem verdades, deviam merecer da parte de instituições do Estado, nomeadamente a PGR, a acção correspondente para a averiguação e responsabilização.
Em declarações ao Jornal de Angola, no dia da abertura da Expo-Indústria, que decorreu na Zona Económica Especial (ZEE) Luanda-Bengo, em Viana, Francisco Viana disse: “temos de acabar com a máfia das divisas, é preciso que se declare uma guerra contra a rede de operadores bancários que actuam de má-fé.”
Ao denunciar que existe o que chamou de “máfia das divisas” e, a julgar pela forma como se acentua a desvalorização cambial, independentemente dos leilões regulares de moeda estrangeira para, entre outros fins, assegurar a esperada estabilidade cambial e reduzir a procura, é caso para se retirar as devidas ilações. E, para explicar exactamente o que se passa, não faltaram exemplos que, tal como se espera e com alguma urgência, devem levar a uma tomada de medidas para contornar o actual ciclo que muito se aproxima às jogadas que contrariam os esforços que o Banco Central diz estar a fazer.
“Se precisar de dois milhões de dólares, terei esse valor num abrir e fechar de olhos, mas se pretender fazer uma transferência de 30 mil dólares, para pagar uma pequena máquina, através da banca, já não se consegue”, exemplificou o empresário.
Se olharmos para o calendário de leilões do BNA, no site da referida instituição, vai ser fácil notar que o “resultado semanal do leilão de divisas” está estimado em milhares de milhões de dólares disponibilizados pelo Banco Central às instituições bancárias comerciais e que, curiosamente, contrastam desproporcionalmente com os níveis de procura. Com o actual ciclo de desvalorização cambial, acreditamos que dificilmente se pode falar de contribuição, por parte do BNA, para a criação de um ambiente favorável ao crescimento económico que culminará na melhoria do bem-estar económico e na criação de postos de trabalho.
Esperamos que as denúncias do empresário Francisco Viana, ainda por se confirmar, não configurem revelações de um esquema ligado a um grupo de pessoas cuja actuação se assemelha à de uma máfia, como disse o homem de negócios.
Perante a actual conjuntura, que torna difícil o acesso às divisas e compromete o futuro das empresas nacionais, faz todo o sentido o pedido para o Executivo apertar o cerco aos negócios de cambiais.

 

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