Política

A derradeira homenagem ao nacionalista e acadêmico Fernando França Van-Dúnem

Edna Dala

Jornalista

O Presidente da República, João Lourenço, rendeu, segunda-feira, a última homenagem ao nacionalista e antigo Primeiro-Ministro Fernando José de França Dias Van-Dúnem, no Quartel General do Exército, ex-R20.

18/06/2024  Última atualização 07H31
© Fotografia por: Paulo Mulaza | Edições Novembro

Ladeado da Primeira-Dama da República, Ana Dias Lourenço, o Chefe de Estado começou por depositar uma coroa de flores na urna com os restos mortais de França Van-Dúnem, cumprimentou a família do malogrado e acompanhou parte das homenagens dedicadas àquele que foi o primeiro presidente da Assembleia Nacional multipartidária.

No livro de honra, João Lourenço sublinhou que França Van-Dúnem, falecido aos 89 anos, no dia 12 de Junho deste mês, em Lisboa, desenvolveu, paralelamente à vida política, uma profícua carreira académica como Catedrático das Universidades Católica de Angola e Agostinho Neto, e foi, igualmente, autor de importantes obras de investigação na área do Direito.

"Com o seu falecimento, Angola perde uma das suas figuras mais notáveis, que em vida muito fez pelo engrandecimento do povo angolano e da República de Angola”, realçou o Chefe de Estado.

Entre os vários cargos políticos e diplomáticos exercidos, o Chefe de Estado ressaltou que França Van- Dúnem destacou-se como Primeiro-Ministro, deputado e presidente da Assembleia Nacional, embaixador em Portugal e Bélgica, funções que cumpriu sempre com zelo, competência e patriotismo, granjeando prestígio interno e internacional, ao ponto de ter sido, igualmente, primeiro vice-presidente do Parlamento Pan-africano.

"Foi com um sentimento de profunda consternação que tomei conhecimento do passamento fítico do Professor Doutor França Van-Dúnem, renomado nacionalista, intelectual, político e diplomata angolano. Nesta hora de dor, endereço à família enlutada, a todos os seus amigos, colegas, discípulos e admiradores os mais profundos sentimentos de pesar, esperando que perpetuem a memória dos seus feitos”, escreveu o Presidente da República no livro de condolências aberto nas instalações do Quartel General do Exército.

A Vice-Presidente da República, Esperança da Costa, que, também, prestou homenagem ao Professor Catedrático, observou que França Van-Dúnem era uma pessoa dedicada, comprometida com os seus deveres e com a causa, que é Angola.

Em declarações à imprensa, Esperança da Costa destacou a figura do grande académico que foi França Van-Dúnem, que se dedicou ao ensino como um sacerdócio e deu uma contribuição forte e relevante para o desenvolvimento do capital humano em Angola, em particular, e em África, de forma geral.

Uma marca indelével na história do Parlamento

Na mensagem da Assembleia Nacional, onde Fernando José de França Dias Van-Dúnem foi presidente no período de 1992 a 1996, o órgão de soberania considera o político e académico um destemido defensor da liberdade e dos ideais mais nobres do povo angolano.

A mensagem de condolências, assinada pela presidente do Parlamento, Carolina Cerqueira, refere que o malogrado, enquanto parlamentar, contribuiu de forma marcante para o lançamento de bases sólidas para a institucionalização, em 1992, da Assembleia Nacional multipardária.

A mensagem da líder parlamentar, lida pelo 1º vice-presidente da Assembleia Nacional, no Américo Cuononoca, acrescenta que França Van-Dúnem emprestou todo o seu saber e reconhecida experiência para promover e consolidar a cultura do debate e da concórdia no círculo político nacional, assim como empreendeu esforços para a edificação, em Angola, de um Estado Democrático de Direito e uma sociedade justa.

Eleito pelo círculo nacional na primeira e quarta legislaturas, o malogrado deixou uma marca indelével na história do parlamentarismo angolano, sendo um defensor consequente da reconciliação nacional, da igualdade, da justiça, do desenvolvimento sustentável, da paz e da democracia.

Por seu turno, o deputado do Grupo Parlamentar da UNITA e, presidente da Comissão de Relações Exteriores da Assembleia Nacional, Alcides Sakala, partilhou que durante o tempo em que Fernando José de França Dias Van-Dúnem esteve emprestado da Academia para a Casa das Leis, tiveram alguma proximidade.

Sakala destacou que, com a sua morte, Angola perde um dos seus melhores filhos, pois o Doutor França Van-Dúnem "contribuiu em vários domínios do conhecimento, assim como da política e das relações internacionais e do parlamentarismo. É mesmo um dia de tristeza, mas também de reflexão”, para tornar perene o seu legado.

O nacionalista Roberto de Almeida disse que França Van-Dúnem foi um homem que soube sempre honrar a pátria, porque desde muito cedo até ao fim da sua vida terrena se empenhou de corpo e alma pelo país, até ao fim da sua vida. "Desempenhou vários cargos, teve várias funções e nelas sempre soube usar da melhor sabedoria, maior competência, sempre empenhado em passar os seus conhecimentos, sobretudo às gerações mais novas”, observou Roberto de Almeida.

Ainda sobre o malogrado, Roberto de Almeida, parafraseando António Agostinho Neto, sublinhou que "Somos cada vez menos”.

 
Morgado era um homem conservador de princípios

José Carlos Van-Dúnem, primo-irmão de França Van-Dúnem, disse que o malogrado, também conhecido como Morgado, que significa primeiro filho do pai, foi a grande referência que a família tinha e a quem buscavam conselho e conforto sempre que precisassem.

"Morgado, apesar de parecer moderno, era conservador e muito atinente aos princípios éticos e morais que aprendeu em casa”, ressaltou.

José Carlos Van-Dúnem partilhou que através da homenagem dos vários alunos, na noite de sábado último, foi possível constatar um pouco daquilo que é o seu legado, que se espera venha a prevalecer e seja reproduzido pelas actuais e futuras gerações.

 
MPLA despediu-se de um dos seus filhos mais íntegros

O Bureau Político do Comité Central do MPLA assinalou, na sua mensagem de condolências, que o antigo Primeiro–Ministro França Van-Dúnem desfila entre os primeiros africanos a obter o grau de Doutor em Direito Público, pela prestigiada Universidade Aix-en-Provence, de França, que lhe conferiu o background académico da sua honrosa passagem pelas universidades de Bujumbura, no Burundi, Agostinho Neto e Católica, em Angola, como Professor Catedrático.

Ao ler a mensagem, o secretário do Bureau Político do MPLA para os Antigos Combatentes e Veteranos da Pátria, Pedro Neto, realçou que França Van-Dúnem "Morgado” foi um político de múltiplas e nobres valências, reforçando que foi um académico de reconhecido valor, não apenas em Angola, mas além-fronteiras, onde deixou as suas impressões digitais como diplomata de fino trato.

"O MPLA diz hoje adeus a um dos seus filhos mais íntegros e um consequente militante, cuja biografia o coloca no pedestal dos cidadãos cujos feitos não devem ser esquecidos”, destacou, sublinhando que há-de estar sempre presente no grande panteão da pátria angolana.


O último adeus no Alto das Cruzes

Num ambiente de canções patrióticas e religiosas, familiares, amigos e deputados à Assembleia Nacional depositaram, ontem à tarde, os restos mortais do antigo Primeiro-Ministro, o Professor Doutor França Van-Dúnem, que repousam, agora, no Campo Santo do Alto das Cruzes, em Luanda.

Depois de lidas as mensagens de homenagem à memória do também Professor emérito da Universidade Católica de Angola (UCAN), o último adeus serviu para destacar que o país e "Família Bastos” se despediam de um dos seus melhores filhos, com uma dimensão "humanista, de trato simples e um intelectual completo”, que deu o seu melhor na diplomacia, na política e na academia.

João Carlos Van-Dúnem, neto do malogrado, que proferiu a mensagem em nome da "Família Bastos", referiu que França Van-Dúnem, mais do que um tio, era um esposo, um pai, mas foi sobretudo um homem que amou Angola, dedicando toda sua vida a servir a terra que o viu nascer.

França Van-Dúnem, frisou o neto, abdicou-se do seu tempo pessoal, os seus prazeres e preferências para servir o público, transmitindo valores que muitos deles vão, certamente, ficar como modelo para as próximas gerações nos mais variados domínios da vida.

 
França Van-Dúnem foi "digno dirigente"

Por seu lado, o ex-presidente da Assembleia Nacional Fernando da Piedade Dias dos Santos "Nandó” disse que, felizmente, teve a oportunidade de ganhar e seguir o exemplo de um "digno dirigente" como França Van-Dúnem, cujo legado o orgulha bastante.

O bastonário da Ordem dos Advogados de Angola (OAA), José Luís Domingos, começou primeiro por recordar França Van-Dúnem pelo papel impulsionador que desempenhou na criação da primeira instituição privada de ensino superior, a Universidade Católica de Angola, na figura de Primeiro-Ministro, e em segundo lugar pelos os valores transmitidos à juventude durante 20 anos de docência.

De acordo com o bastonário da OAA, França Van-Dúnem foi uma luz e um exemplo concreto do perfil de um intelectual, de um "dominante", lembrando que o país perdeu um "homem indiscutivelmente ímpar" para as actuais e futuras gerações.

Contacto com personalidades do Movimento Pan-africanista

O ex-líder da FNLA Lucas Ngonda disse que falar de França Van-Dúnem, é tratar de uma figura muito importante, que marcou a história do Pan-africanismo. França Van-Dúnem, continuou, teve o privilégio de ter contacto com as grandes personalidades do Movimento Pan-africano, como Kwame Nkrumah, entre outros actores da época, o que lhe valeu o título de funcionário internacional.

França Van-Dúnem, frisou o também professor universitário, foi o único angolano na época que se doutorou numa das universidades mais prestigiadas de França com a classificação de "Muito Bom", o que lhe permitiu assumir e desempenhar uma carreira académica e política de forma exemplar.


Mazarino da Cunha |       

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